OPINIÃO

As mulheres foram às ruas

Fomos às ruas. Sim, de novo. Iremos tantas vezes mais. Foi bonito. Éramos muitas: só em Natal, cerca de 15 mil. De mais de 90 coletivos, entidades, movimentos, partidos, frentes. Éramos do campo e da cidade. De muitas cores. Professoras, estudantes, sem-terra, sem teto, quilombolas, parlamentares. Mulheres trabalhadoras.

Fizemos um grande ato, unificado nas plataformas de defesa da democracia, da aposentadoria e contra as violências. Conversamos com a população sobre os direitos que nos foram tirados. Denunciamos que a reforma trabalhista veio precarizar ainda mais as relações de trabalho. Que ela legalizou o trabalho intermitente, promoveu a terceirização geral e irrestrita e fragilizou os sindicatos e a justiça do trabalho.

Apontamos que o trabalho intermitente deixou as mulheres sem jornadas de trabalho fixas, a mercê dos interesses dos patrões e sem segurança sobre o valor de sua remuneração ao término do mês. Muitas trabalharão recebendo menos que um salário mínimo. Denunciamos, junto à mulheres grávidas e outras tantas com seus filhos pequenos, que a nova lei trabalhista permite que gestantes e lactantes trabalhem em locais insalubres.

Fomos às ruas dizer que a terceirização geral e irrestrita afeta gravemente as populações mais vulnerabilizadas: mulheres, negras/os, jovens. Que os postos de trabalho terceirizados oferecem menores salários (remuneração 24,7% menor), jornadas de trabalho maiores e uma maior sujeição a demissões (rotatividade). Que somos a cara do emprego mais precário e a maioria entre os que estão na informalidade.

Fomos às ruas porque sabemos que a reforma da previdência teve sua votação suspensa, mas permanece como projeto prioritário do governo golpista. Reforma que busca equiparar os critérios de idade ou de tempo de contribuição entre mulheres e homens, desconsiderando todas as desigualdades que vivemos.

Reforma que pretende extinguir o único mecanismo a reconhecer a divisão sexual do trabalho, que destina às mulheres piores salários, piores condições de trabalho e maiores responsabilidades com o trabalho não remunerado. Fomos às ruas lembrar que acumulamos a tripla jornada, que ficamos menos tempo que os homens no mesmo trabalho e maior tempo desempregadas.

Fomos às ruas para dizer que é um crime querer acabar com a aposentadoria especial de professores da educação básica, prejudicando mais uma vez as mulheres que são 81,5% do total, segundo o MEC.  Dos quase dois milhões de professores e professoras do país, mais de 1,6 milhão são do sexo feminino. Nos mobilizamos para dizer que a aposentadoria especial do magistério tem respaldo da Organização Mundial da Saúde (OMS), que considera essa uma das profissões mais estressantes e desgastantes. Sem falar que as professoras, em sua maioria, também cumprem uma terceira jornada em casa, com tarefas domésticas.

Fomos denunciar o golpe contra as mulheres camponesas. A reforma que o governo quer aprovar extingue a condição de segurado especial que garante aos trabalhadores do campo se aposentar aos 60 anos e as trabalhadoras aos 55. Assim, se essa reforma passar, penalizará especialmente as trabalhadoras rurais que terão que trabalhar dez anos a mais. É um perfil de trabalho duro, exposto ao sol e à chuva, e que se inicia ainda na infância. Dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) apontam que, ainda em 2014, 70% das mulheres e 78% dos homens do campo começaram a trabalhar antes dos 14 anos de idade.

Marchamos para dizer que nada justifica um ataque tão cruel e desumano às trabalhadoras e trabalhadores. Para dizer que as condições de desigualdade que deram origem a esses direitos se mantêm e que, portanto, não há razões para que eles sejam retirados.

Fomos às ruas para dizer que o desemprego é uma barreira inegável à independência das mulheres. Que sua concentração nos empregos mais mal remunerados reforça a dependência dos homens. Fomos às ruas para dizer que somos a maioria dos que foram devolvidos à miséria e à fome.

Fomos às ruas para denunciar que nos dois primeiros meses de 2018, 20 mulheres foram assassinadas no RN. Dessas vítimas, 16 eram negras ou pardas (80%). A maioria das vítimas (70%) recebiam até dois salários mínimos e cursaram até o nível fundamental (80%).

Fomos às ruas para dizer que as mulheres são via de regra assassinadas por seus parceiros. Para lembrar que somos as principais vítimas de estupro e que mais de 500 mil deles acontecem todos os anos. Fomos às ruas para dizer que seguimos sofrendo violência doméstica e que a violência que nos é impetrada segue sendo, por muitos, considerada como uma “correção” pela nossa insubmissão.

Fomos às ruas para dizer que o governo golpista cortou os investimentos públicos, interrompeu programas importantes como a Casa da Mulher Brasileira e reduziu o orçamento das políticas para as mulheres em 62%.

Fomos às ruas por Waleska, expulsa de sala de aula, constrangida em frente à filha, ameaçada. Por Waleska que teima em estudar e sonhar. Que pensa, talvez, poder garantir à filha um futuro menos duro que o seu. Fomos às ruas por todas as vezes que tentaram nos dizer qual é o nosso lugar. Fomos mandar às favas os hipócritas e os machistas, pós-doutores ou iletrados.

Fomos bradar pela utopia de um mundo sem violência. Por um novo tempo em que mulheres e homens dividam afazeres, sonhos, desejos e quereres para compor novos dias. Por um novo tempo em que possamos viver relações libertárias. Em que as cercas que condenamos nos latifúndios não sejam também cravadas em nossas vidas. Em que amar não tenha nada a ver com ter e tudo a ver com ser, livres da violência e do medo.

Fomos às ruas lutar por um novo tempo em que as mulheres possam escolher ser ou não ser mães, sem que sejamos julgadas por isso. Sem que isso se torne estado civil porque há muitas mães que criam seus filhos e filhas sozinhas, independente de terem ou não um relacionamento. “Mãe solteira” é só mais uma forma de adjetivar uma mulher, atribuindo a ela responsabilidade por um sujeito que permanece oculto, o “pai ausente”.

Continuaremos nas ruas. Tantas vezes mais. É sempre lindo e forte. Defendemos a democracia porque sentimos em nossos corpos e vidas a falta que ela nos faz. Seguiremos em luta contra o arbítrio, contra a prisão injustificada de Lula, contra a perpetuação de um golpe que é de classe, de raça e de gênero. Somos mulheres e nossa disposição é de rebeldia.

 

 

 

 

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Jornalista, Feminista e Militante dos Direitos Humanos