OPINIÃO

As mulheres na ficção científica

Nesta semana, tomei conhecimento, por meio de uma notícia divulgada pelo amigo jornalista Alex de Souza (mil vezes mais sabedor do assunto do que eu), que uma brasileira – Ana Grilo – foi contemplada neste ano com o prêmio Hugo, a premiação de maior prestígio internacional concedida a obras literárias de ficção científica.

Quando se fala em literatura de ficção científica, tende-se a pensar menos em autoras do que em autores: Julio Verne, H.G. Wells, George Orwell, Isaac Asimov e Ray Bradbury, dentre outros, são figurinhas recorrentes em qualquer listagem sobre o assunto.

Pois que se registre, sobretudo para nós que não são somos tão “experts” no tema: mulheres também escrevem ficção científica sim!

Aliás, a primeira obra do gênero é atribuída a uma mulher: trata-se do clássico romance gótico de Mary Shelley, escrito em 1818 e imortalizado em várias versões cinematográficas. O enredo, que qualquer um conhece de pelo menos ter ouvido falar, aborda a vida pós-morte por meio dos delírios e experimentos científicos do doutor Victor Frankenstein.

E como a vida parece mesmo uma fantasia, outra descoberta me aconteceu por meio dessa notícia (viva o Leleco, gente!) e também me encheu de júbilo: há uma obra também escrita por uma mulher e considerada pioneira no gênero no Brasil, e adivinhe só de onde ela é?! Isso mesmo, uma cearense, Emília de Freitas, foi quem escreveu “A ilha do Ignoto”, de 1899, reeditada no ano passado pela Sol Nascente Livros.

Esse tema tem me instigado ultimamente, talvez por me sentir vivendo numa distopia. Devo créditos também ao meu irmão, professor de Física lá no Ceará. E se você aí, que por ventura lê este artigo (nesta ou noutra dimensão), também se instigou, qualquer rápida busca pelo Google transportá-lo-á a uma série de mulheres na literatura de ficção científica, como Octávia Buttler ou Margaret Atwood.

Foi numa dessas buscas que descobri Christina Dalcher, uma linguista e escritora que publicou em 2018 “Vox”, em cuja narrativa as mulheres, monitoradas por um dispositivo no pulso, só podem falar 100 palavras por dia.

Sem comentários, né? Além de explorar o estereótipo machista de que mulheres falam demais, o romance diz muito sobre sociedades totalitárias que nos espreitam, independente do sexo biológico ou do gênero social, e que querem nos silenciar.

Comemoro o prêmio Hugo concedido a Ana Grilo e sua editora, a filipina Thea James, vencedoras na categoria de melhor fanzine(!), “The Book Smugglers”. É como se elas dessem voz a todas essas mulheres, escritoras de ficção científica ou não, tantas vezes silenciadas. Tal como foi a própria Mary Shelley, que só anos depois teve os créditos devidos por seu genial “Frankenstein ou O moderno Prometeu”.

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