CULTURA

As pontes que unem lugar nenhum

Uma ponte é capaz de unir até mesmo uma família. Parece utópico em tempos de cólera e de grupos criados em redes cada vez mais antissociais, mas é o que entrega A Ponte, adaptação brasileira do texto original assinado pelo dramaturgo canadense Daniel Mocivor, com tradução de Bárbara Duvivier.

O espetáculo tem direção de Adriano Guimarães, já indicado ao prêmio Shell 2019 pelo trabalho, e traz no elenco as atrizes Bel Kowarick, Débora Lamm e Maria Flor. A peça fica em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil, no Rio de Janeiro, até 12 de agosto, sempre de quinta à segunda-feira.

A Ponte apresenta a história de três irmãs que após alguns anos separadas se reencontram em casa dias antes da morte da mãe. A narrativa passeia pelos perfis, as angústias, as contradições, os segredos e os medos do trio. Mais velha, Thereza (Bel Kowarick) é uma beata que mora no campo, a raiz da casa; Agnes (Débora Lamm) é a porra-louca. Atriz fracassada, bebe, fuma, fala palavrão e, de forma sutil, faz também o papel de ponte entre as irmãs, unindo sentimentos que ligam o passado e o presente da família. Uma ponte de carne, osso, coração e muitas lágrimas.

Enquanto Thereza e Agnes polarizam a peça numa disputa que coloca no mesmo ringue valores tradicionais e modernos, a caçula Louise (Maria Flôr) é a “estranha” em busca de uma identidade. Jovem aficionada por séries de TV, é a única das três irmãs cujo nome não foi inspirado em nomes de santas da igreja Católica, o que desloca o “eu” da personagem para fora do eixo dos padrões da família, a ponto de própria sexualidade dela ser objeto de questionamento no palco.

A peça coloca em xeque princípios construídos pelas três irmãs longe umas das outras e sugere uma reflexão sobre a própria concepção de família. As personagens não hesitam em mudar de opinião diante de um mesmo fato ao desenrolar da narrativa, o que sugere a adaptação às transformações do tempo.

O cenário predominantemente vermelho, assinado por Adriano Guimarães e Ismael Monticelli, leva o público para dentro da cozinha da matriarca que não aparece fisicamente em nenhum momento, pois convalesce até a morte no quarto ao lado, na primeira metade do espetáculo. Aliás, a mãe também faz o papel de ponte que une as três filhas a um lugar indefinido. Impossibilitada de falar, a ponta entre ela e as crias é feita através de pequenos papeis e símbolos que vão de letras e rabiscos, a depender da mensagem.

Além da mãe, a peça traz ainda mais três personagens que não estão em cena: Mauro, o pai que abandona a família muito cedo; Júlia, a filha de Agnes doada para outro casal minutos depois de nascer; e Lolita, madrasta do trio.

Uma grande mesa retangular ornada por frutas de cores fortes (bananas, maçãs e tangerinas) é a ponte sobre a qual as histórias do trio são reunidas num cardápio de emoções instáveis que passeiam por memórias alegres, tristes, trágicas e, especialmente, humanas.

Os perfis psicológicos das personagens são apresentados ao público em curtos monólogos intimistas com a plateia. O texto de Louise fala do lugar nenhum para o qual migram emoções e sentimentos através de uma ponte imaginária:

“O que você não deveria estar fazendo é ter uma imagem de aonde você está indo – as pessoas fazem isso – o tempo todo elas não tão só dirigindo, tão tentando chegar a algum lugar. Então você não tem que ter um lugar em mente. Talvez você nem deva saber onde está indo, você só vai saber quando chegar lá. Isso seria melhor”, diz.

Em meio às inúmeras pontes subjetivas presentes nas entrelinhas do texto e que dão razão ao espetáculo, a ponte que inspirou o título do espetáculo remonta à infância das três irmãs. Num lugar indefinido, no qual cada personagem se recorda de um jeito diferente, Thereza, Agnes e Louise se encontram numa espécie de piquenique com a própria história. O trio volta no espaço para buscar um tempo perdido. À margem do rio, a ponte resiste.

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Rafael Duarte
Jornalista e autor da biografia "O homem da Feiticeira: A história de Carlos Alexandre"