OPINIÃO

As publicações alternativas e o “Bichiga Taboca”

Em 1907, o escritor Lima Barreto lançava ao mundo a sua primeira empreitada como autor-editor, a Revista Floreal. Se hoje, com todas as possibilidades tecnológicas e comerciais, não é fácil editar a própria produção autoral, o que dizer de mais de cem anos atrás? Não à toa, Lima Barreto só conseguiu viabilizar quatro números da sua revista. Mas ainda assim o fez, não deixando de assumir os riscos aí implicados, o que registrou no editorial da primeira edição:

Não é sem temor que me vejo à frente desta publicação. Embora não se trate do “Jornal do Commercio” nem da “Gazeta de Pekin”, sei, graças a um tirocínio prolongado em revistas efêmeras e obscuras, que imenso esforço demanda a sua manutenção e que futuro lhe está reservado.

A Revista Floreal, com todo o esforço que demandou de seu autor-editor, pode ser considerada isso que se conhece como publicação alternativa: impressos – às vezes quase artesanais – que circulam em paralelo aos circuitos oficiais e profissionais de leitura e escrita. Não estão nas livrarias nem nas listas de mais vendidos; não são financiados por grandes editoras; não são adotados nos bancos escolares; improvável encontrá-los em bibliotecas. Por isso mesmo, pouco estão afeitos a normas (de língua e escrita ou de convenções como ISSN etc.). Muita gente, assim, simplesmente não vê tais impressos, mas eles estão no mundo e muitas vezes bem próximos a esses mesmos canais de leitura e escrita, correndo de mão em mão, a boca pequena, em círculos diversos e informais de sociabilidade. Sob muitas designações (fanzine, zine, jornal, jornalzinho, boletim, xerox mania etc.), as publicações alternativas funcionam também como prática de formação e constituição de escritores profissionais (delas fizeram uso, por exemplo, além do já citado Lima Barreto, Voltaire e Marquês de Sade).

Em Natal, vários foram e são os casos dessas publicações, das quais citemos algumas: A Franga, Cebola Faz Chorar, Delírio Urbano, O Guincho, dentre tantas outras que entre si apresentam alguns traços semelhantes: um esforço coletivo, de juventude/jovialidade, a materializar uma vontade de potência poética e de autogestão literária.

Mas, mais do que isso, dois aspectos dessas publicações alternativas podem ser enfatizados: a atuação desses impressos como registro documental e histórico de espaços e tempos diversos, e a sua manifestação de autogestão – cerne da constituição de autores-editores – como uma prática política de resistência.

É nesse sentido que me detenho sobre uma dessas publicações em específico: o zine político e cultural Bichiga Taboca.

Publicado entre os anos de 1997 e 2005, ao longo de 32 edições, o zine Bichiga Taboca atuou tanto como um instrumento de posicionamento político como também registrou traços de uma cultura local de um cenário singular da cidade, tão cheio de história e tradição quanto desprezado pelo poder público: o bairro das Rocas.

No editorial do número 0 (de novembro de 1997), o editorial já revela esses dois aspectos citados:

POR QUE BICHIGA TABOCA?

Outrora e até hoje, essa palavra é expressa pelo nosso povo, que apesar de não ter um grande nível intelectual, é rico em sua forma de expressar suas revoltas e impaciência do dia-a-dia do nosso Nordeste e nosso bairro; o nosso Bichiga Taboca vem no intuito de ser um ponto e uma fonte de informação política e cultural para a grande Rocas (Santos Reis, Canto do Mangue, Brasília Teimosa) que perambula pelos bares, escolas, cantinas e rodas de conversas que costumam ter nosso bairro.

Divulgando e incentivando as produções literárias, musicais e culturais do/no bairro, com calendário de eventos e registro de informes diversos, o zine – idealizado pelo professor e agitador Jocelin de Lima Bezerra, vulgo Celino (meu xará, gente!) – foi expressão de uma existência de resistência numa sociedade desigual baseada numa estrutura perversa de privilégios somente para poucos, pouquíssimos:

O Bichiga Taboca tem como objetivo juntar pessoas que queiram a longo prazo criar lugares alternativos para fazer funcionar atividades culturais constantes no bairro; porque as alternativas culturais no bairro que existem são poucas; não temos um teatro, não temos um lugar onde haja aulas de violão e outras opções musicais, o cinema do bairro vive de banalidades sexuais, os bares só respiram a mesmice de vender cerveja, convivemos com a troca de informações quando da miséria, da morte ou da briga de alguém (a fofoca é o ibope), o Patrulha Policial e o Jornal Nacional são as informações oficiais da gente.

Mais de vinte anos depois, eu, que também me sinto “canguleira” (afinal, foi o bairro que me acolheu quando cheguei a Natal), posso afirmar que, mesmo com um cenário não muito diferente, o projeto do zine está rendendo frutos a longo prazo sim. Prova disso é a “Confraria Bichiga Taboca”, ali na Rua Pastor Climaco Bueno Azza, número 8. Participei de um sarau poético e musical lá e me encantei com mais um esforço desse grupo de afinidades que não espera dos governantes (embora se exija) e faz acontecer cultura, diversão e arte.

E se o grande lance é fazer romance, sejamos românticos além de realistas e peçamos o impossível. Façamos de um zine uma arma de luta. Sejamos livres e libertários como nos ensinam as publicações alternativas.

Clique para ajudar a Agência Saiba Mais Clique para ajudar a Agência Saiba Mais
Artigo anteriorPróximo artigo