DEMOCRACIA

Assembleia Legislativa do RN: desrespeito, baixaria e desequilíbrio

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Daqui a pouco vão passar filme pornô aqui, é só o que está faltando”. A frase, em tom de desabafo, saiu da boca do líder do governo na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Norte, o deputado George Soares (PR), na sessão desta quarta-feira (13). A TV Assembleia foi retirada do ar tamanha a baixaria protagonizada pelos parlamentares.

O desabafo de Soares veio logo após um vídeo exibido em plenário onde um vereador de Macaíba afirma que o “cabaré de Maria Boa em Natal é mais organizado que o governo Fátima”. O pedido para exibir a declaração machista foi do deputado de extrema-direita, coronel Azevedo, protagonista dos principais ataques misóginos às mulheres da Casa, em especial à deputada Isolda Dantas (PT). Há duas semanas, o deputado bolsonarista chegou ao ponto de dizer que a parlamentar petista se “excitava” quando ele falava.

Diante da cena, o deputado Vivaldo Costa que presidia a sessão determinou a retirada imediata do vídeo do ar e Getúlio Rêgo (DEM) foi tomar satisfação, acusando o colega de censura. O tempo fechou e a sessão foi suspensa por alguns minutos.

Na volta, após o vídeo ser exibido mais uma vez e Azevedo afirmar aos berros que o Rio Grande do Norte não viraria uma Venezuela (!?) e ninguém calaria sua voz, foi a vez do deputado Nélter Queiroz (MDB) acusar Francisco do PT de ser o responsável pela tentativa de impedir a entrada do ex-deputado federal e atual secretário especial de Trabalho e Previdência do governo Bolsonaro Rogério Marinho (PSDB) na Casa, em solenidade realizada sexta-feira passada. Na ocasião, um grupo de sindicalistas tentou impedir Marinho de receber uma homenagem “pelos serviços prestados para o país”, proposta por Gustavo Carvalho (PSDB).

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O petista negou qualquer participação no movimento e reagiu à insinuação chamando de “coronel” o deputado, que elevou o tom de voz:

– Você ta pensando que eu tenho medo dos seus gritos ? Você está pensando que é o dono do mundo ?”, disse o parlamentar.

 Minutos depois Francisco e Nélter pediram desculpas um ao outro pelo tom da discussão.

O quarto embate aconteceu entre Raimundo Fernandes (PSDB) e Galeno Torquato (PSD). Mais uma vez, questões pessoais ligadas à disputa eleitoral entre os dois no município de São Miguel foram levadas para dentro do plenário. Fernandes criticou o ex-governador Robinson Faria e Galeno defendeu o ex-chefe do Executivo usando expressões do tipo “você não tem moral nem para falar de você”.

Kelps Lima (Solidariedade) acusou a mesa de só facultar a palavra a quem era da bancada do governo e defendeu que todos possam falar o que quiserem na Casa, independente de agressões. E que respondam pelas consequências, seja no conselho de ética da Casa ou em outro órgão.

A deputada Isolda Dantas (PT), agredida nas últimas semanas, chamou a atenção para alto grau de desequilíbrio entre os deputados, todos homens:

– Já vi gente botar o dedo na cara do outro aqui, dar murro em bancada… mas não são as mulheres que fazem isso ? Isso é desequilíbrio emocional. No dia que fui violentada nesta Casa poderia ter dado a resposta em outro tom, mas preferi ficar calada. Todos somos seres da razão e da emoção”, disse.  

Francisco do PT demonstrou preocupação com a qualidade do nível do debate na Casa:

– O que nós não podemos é diminuir a imagem desta Casa. Esta Casa representa o povo do Rio Grande do Norte. Precisamos fazer o debate qualificado, uns acusando e outros defendendo. Quem deve brigar são as ideias, e não as pessoas”, destacou.

A Assembleia Legislativa vem pagando pela frequência com que vem aparecendo, nos últimos anos, nas páginas policiais da imprensa do Estado e do país, seja por denúncias de desvio de dinheiro, contratação de funcionários fantasmas, afastamento de deputados pela Justiça acusados de corrupção e preconceito.

Os embates político entre oposição e governo fazem, por óbvio, parte da democracia. Mas as agressões mútuas e os ataques pessoais não podem fazer parte de um parlamento eleito pelo voto popular.

O cidadão comum olha para o legislativo estadual e lembra que até o ano passado havia um deputado condenado pela Justiça exercendo o mandato usando uma tornozeleira eletrônica.

Não há sociedade que respeite um parlamento que não se dá o respeito, que seja afeito à baixarias e completamente desequilibrado.

Ou os deputados fazem um exame de consciência ou o cidadão vai naturalizar o caos e nada mais vai espantar ninguém.

Nem a exibição em plenário de um filme pornô.

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Rafael Duarte
Jornalista e autor da biografia "O homem da Feiticeira: A história de Carlos Alexandre"

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