OPINIÃO

Assista TV de orelha em pé, mas não desligue (ainda)

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Nos últimos tempos, ando travando debates interessantes sobre o papel da televisão para “entender” a realidade à nossa volta. E venho lembrando disso sempre que busco informações confiáveis (e não as encontro na televisão) sobre os conflitos sociais em nossos vizinhos da América Latina.

A classe média abastada e conectada acha que já era. Dizem que ninguém mais vê TV e tudo agora é “streaming”, “on demand”, “mobile”. Eu provavelmente acreditaria nisso se observasse apenas a minha própria bolha, gente da mesma geração, condição econômica, escolaridade. No máximo, um ou outro ainda tem a TV por assinatura e mal sabem usar uma TV aberta.

As estatísticas destacadas nas manchetes de jornais e portais ajudam a acreditar nessa ideia. Cada vez mais estamos conectados à internet, mesmo nas classes sociais mais baixas. O número aumenta a cada ano, mas pode esconder informações importantes para entender o assunto. Segundo dados da pesquisa TIC Domicílios, do IBGE, 70% da população usaram a internet regularmente em 2018. O problema é que boa parte deles (56%) só usou a internet pelo celular.

E todo mundo sabe que não dá para fazer tudo com um pacote de dados de internet móvel, especialmente para boa parte dos brasileiros que usam celulares pré-pagos, que somam mais da metade das linhas em funcionamento no país.

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Com a internet móvel, dá pra chamar um carro de aplicativo ou taxi, dá pra pedir comida e dá pra conversar no whatsapp (muitas vezes, até mesmo quando acaba o pacote de dados). E, sinceramente, isso anda longe do que eu consideraria estar conectado. Só quem tem os melhores pacotes de dados consegue assistir seriados e filmes, assistir TV ao vivo pela internet, ouvir músicas, ler notícias, usar redes sociais, enfim, viver uma experiência mais completa de conexão.

Muita gente vai continuar ligando a TV para o primeiro telejornal de manhã e desligando depois da última novela da noite e não vai ter pacote de dados que dê conta de entregar tudo isso. E quem fizer isso vai receber muitos megabytes de informação mediada pelas elites que controlam os principais veículos de comunicação no Brasil.

Nenhum desses grupos consegue trazer um olhar equilibrado sobre a realidade política, social e econômica da América Latina. Até porque, boa parte dos nossos veículos mantêm sucursais em Tóquio, Londres e Nova Iorque. Quase ninguém tem correspondentes na Cidade do México ou em Buenos Aires – e eu não estou contando Ariel Palácios, que sempre está trancado na sua biblioteca e parece nunca pisar nas ruas.

Nenhum desses grupos condenou o golpe de estado na Bolívia, nem contestou a estranha autoproclamação da presidência na Venezuela. Nenhum desses grupos reconheceu o fracasso neoliberal na garantia de direitos fundamentais para os chilenos, mesmo depois da convocação da nova assembleia constituinte no país.

Toda a cobertura jornalística vem levando em consideração que os governos de esquerda são completos fracassos e que a solução é o estado mínimo. E isso vale também para a cobertura nacional sobre as reformas da previdência e dos direitos trabalhistas, além da própria cobertura do nosso golpe em 2016.

Dá até para lembrar da cobertura das nossas últimas eleições. Nosso presidente segue acreditando que não foi eleito pela televisão – e sim pelas redes sociais. Mal sabe ele que o antipetismo que o elegeu começou a ser cultivado há anos, talvez desde antes mesmo do mensalão. E o pior, não foi só no jornalismo que ele foi semeado.

Essa semana, em um curso com a professora Suzy dos Santos, da Escola de Comunicação da UFRJ, fomos submetidos a uma espécie de sessão de tortura com três vídeos que mostravam trechos das sementes de ódio plantadas pela televisão ao longo dos últimos anos. Detalhe, nenhum dos trechos era de programas jornalísticos – nem mesmo os programas policialescos (que às vezes se arvoram o título).

Vi cenas de programas musicais destilando ódio à esquerda com muita desinformação, programas de “entrevista”, ou de auditório “vendendo” políticos conservadores e de ultra-direita como novidades, fora os já conhecidos impropérios proclamados pelos apresentadores de programas policiais – eles próprios, muitas vezes, eleitos por partidos da direita ultra-conservadora.

O crescimento da internet é notório. Mas, na hora de calcular os efeitos dela sobre nossa realidade, o peso da televisão ainda parece ser importante.

Por isso não dá para desconectar a antena de TV aberta sem o risco de ficar isolado da realidade oferecida pela mídia e que depois vai ecoar na internet dos brasileiros.

 

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Jornalista, produtor e aprendiz de fotógrafo

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