CIDADANIA

Ataque a candidata em Parnamirim expõe intolerância a terreiros de candomblé

Em Parnamirim, os ataques políticos entre os candidatos durante a campanha eleitoral de 2020 atingiram também o respeito à diversidade e o direito à liberdade religiosa. Viralizou entre os eleitores da cidade uma imagem questionando se a vereadora Kátia Pires (DEM), que é candidata a vice-prefeita na chapa com Taveira (Republicanos), é cristã ou do candomblé.

Isso porque a vereadora emitiu parecer da Comissão de Constituição, Legislação e Redação Final da Câmara Municipal de Parnamirim favorável ao projeto que reconhece utilidade pública da Sociedade Filantropico-Religiosa de Candomblé Ilê Olorum.

A montagem compartilhada nas redes sociais inclui um texto bíblico sugerindo que a candidata supostamente pertence a duas religiões distintas e uma foto do projeto de lei Nº056/2020, assinado por Kátia Pires. “Ninguém pode servir a dois senhores; pois odiará a um e amará o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Mateus 6:24”, destaca a imagem.

O projeto de lei é uma resposta à reivindicação da comunidade do candomblé e para o ogan e oluwô da casa Ilê Olorum, Richardson de Omolu, a imagem compartilhada é um ato criminoso de intolerância religiosa, racismo, incitação ao ódio e a perseguição das religiões tradicionais de matriz africana e seus adeptos.

“O card mostra a vereadora como uma pessoa cristã que apoia as causas das comunidades tradicionais, o que é louvável. Entretanto, eles colocam-na como uma cristã adoradora de outras religiões e o versículo deixa explícito isso, dizendo que você não pode servir a dois senhores, demonizando as religiões de candomblé, com o nome da minha instituição, do Ilê Olorum, com um ponto de interrogação no sentido de colocar em dúvida a postura da candidata, que é adequada em respeitar a diversidade e entender que a laicidade do Estado está acima de qualquer protocolo religioso”, argumenta Richardson de Omolu, informando que a casa tem investigado a origem da publicação que foi amplamente compartilhada entre grupos fundamentalistas de Parnamirim.

“A ialorixá da nossa casa, Mãe Isa de Nanã, tem relevantes serviços filantrópicos prestados à comunidade e a casa Ilê Olorum está pleiteando o título de utilidade pública. Começou com o mandato do vereador Rogério Santiago e a vereadora Kátia Pires protocolou o pedido na comissão da Câmara há um certo tempo”, contextualiza.

Richardson publicou uma nota em suas redes sociais destacando a gravidade da publicação. Ele lembra que no Brasil, a liberdade de crença é assegurada pela Consituição Federal e que a Lei nº 7.716, de 5 de janeiro de 1989, alterada pela Lei nº 9.459, de 15 de maio de 1997, considera crime a prática de discriminação ou preconceito contra religiões.

Ele aponta ainda que o crime de injúria e danos morais contra sujeitos de direitos, também podem ser configurados na postagem que “tenta achincalhar” o terreiro de candomblé e a vereadora Kátia Pires.

O ogan escreve que as ofensas não são suficientes para diminuir a resistência do seu grupo religioso e termina convocando a população que não compactua com as diversas formas de preconceito de discriminação a não votarem em candidatos que pregam segregação.

“Para nós que somos religiosos e povos de comunidades tradicionais de matriz africana, em nenhum momento essas pseudo ofensas diminuem nosso Axé, nosso empoderamento e orgulho de pertencermos a ancestralidade africana que foi trazida na condição de mão de obra escrava para esse país, mas que resistiu, lutou e edificou essa nação ladeado aos povos originários”.

A reportagem da Agência Saiba Mais tentou contato com a vereadora Kátia Pires durante a segunda (26) e a terça-feira (27) e não recebeu resposta até a publicação desta reportagem.

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Isabela Santos
Isabela Santos é jornalista e repórter da agência Saiba Mais

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