OPINIÃO

Autocrítica

Por Andreia Souza*

Nos últimos dias, nós negros fomos recomendados pelo representante da Fundação Palmares a realizar uma autocrítica para avaliar os porquês do rumo atual de nossas vidas. Neste 20 de novembro, após um cuidadoso check list, decidi não falar sobre Consciência Negra, não justificar cotas e nem pedir revisão histórica pela libertação tardia dos escravos; muito menos reforçar a forma descuidada e desumana sob a qual todos esses e outros fatos de subjugação negra, aconteceram.

Não escrevo para enaltecer Zumbi dos Palmares. Meus citados, claramente, serão outros. Já sei de antemão que muitos vão afirmar: “não sou racista, tenho amigos pretos”, “minha namorada é preta”. Meu primeiro impulso é desqualificar esses argumentos. O que quero ressaltar é a ferramenta para se contrapor às falas inconsistentes dos negacionistas e racistas que nos rodeiam.

Vamos falar de Eugenia, o termo criado pelo inglês Francis Galton, nos idos de 1880. De origem grega, o eu, significa “bom”, e genia, “linhagem”. Bem nascido, em termos de hoje.

Galton era o próprio “bem nascido”. Rico, herdeiro de família tradicional, primo de Charles Darwin, ficou obcecado pela ideia de aprimorar a raça após a leitura do livro “Origem das Espécies”, em 1859. Sua meta era conquistar a sociedade perfeita numa Inglaterra pobre e mal cheirosa, sem saneamento ou educação, onde operários moravam empilhados em seus cortiços, constantemente embriagados, intercalando sua vil existência nas obras, fábricas, pubs e bordéis. Crianças proliferavam, aumentando a degradação da espécie. No plano simplista de Galton, para alcançar a sociedade ideal seria necessário que os ricos deixassem mais descendentes do que os pobres. O perfil sugerido dessa tal sociedade perfeita por lá era: menos semita, menos cigana e menos negra.

Mas vamos falar de Brasil. Esse projeto que se iniciou na sociedade inglesa, expandiu-se nos Estados Unidos e foi exportado para o ‘Brazil’, oficialmente, em 1914. Fomos um dos primeiros países da América do Sul a implantar esse projeto. Muitos dos nomes envolvidos em tal prática são conhecidos – eram médicos, engenheiros, jornalistas, parte da elite – e viraram até nome de rua, homenageados em cidades país afora.

A eugenia brasileira começou no Rio de Janeiro, na Faculdade de Medicina, com uma tese defendida pelo Doutor Miguel Couto, tendo como indesejáveis negros, imigrantes asiáticos e deficientes em geral. O primeiro grupo era o mais odiado, culpado por tudo o que acontecia de errado em terras cariocas.

Animado com a tese do Doutor Couto, surgiu o grande pai do movimento, o médico sanitarista Renato Kehl. Algumas pérolas sugeridas pelo doutor: esterilização dos anormais, segregação dos deficientes, educação eugênica obrigatória nas escolas, testes pré-nupciais e consentimento de divórcio caso fosse comprovado defeito hereditário em um dos lados. As mulheres ocupavam o cargo de procriadoras e já se alertava para o perigo que um possível movimento feminista poderia provocar.

Houve congressos para disseminar o movimento de eugenia tendo na linha de frente o famoso radialista Roquete Pinto e destacado escritor Monteiro Lobato como seu ferrenho defensor que, inclusive, chegou a escrever e lançar em 1926 o livro “O Presidente Negro”, estória que ocorria nos Estados Unidos no hipotético ano de 2228, quando um líder de pele escura era eleito e todos os brancos se reuniam, exigindo a esterilização em massa do povo preto.

O proprietário do jornal “O Estado de São Paulo”, Gilberto Mesquita, o fundador da renomada Faculdade de Medicina de São Paulo, Arnaldo Vieira de Carvalho, o imortal, jurista e sociólogo Oliveira Vianna, eram alguns dos que defendiam e promoviam a eugenia e que nem o Movimento Modernista combateu; apesar de não aderir ao projeto, fez vista grossa.

No período ocorriam concursos de beleza para crianças nos quais as vencedoras eram as que melhor representavam a sociedade eugênica, todas brancas e bem nascidas. Ser pobre ou ‘de cor’ era um defeito, uma imperfeição a ser corrigida.

Antes que negacionistas refutem e chamem de fake news fatos como estes, é só dar uma olhadinha no artigo 138 da Constituição de 1934. O mesmo relata como deveres da União, Estado e Municípios estimular a “educação eugênica” entre jovens e adultos – defendendo a exclusão social e segregação racial como meios para evitar “reproduções indesejadas”.

Essa pseudociência afirmava que a solução para o Brasil era, definitivamente, embranquecer. Essa cultura foi incutida de forma estrutural em nossos princípios, endossada por proeminentes personalidades, sendo tolerada e nunca severamente combatida.

Mas a segregação definitiva proposta pelo médico Kehl não foi adotada de forma incisiva no Brasil. Muitos dos participantes acreditava ser benéfica a miscigenação racial. No entanto, não se iluda: a parte benéfica ressaltada era de diluir, apagar os traços de predominância negra e indígena, embranquecendo o povo brasileiro. Portanto, é necessário revisitar os arcabouços técnicos que norteiam os temas raciais do Brasil.

É necessário pesquisar sobre a Sociedade Eugênica São Paulo, ler “A cura da fealdade” do Doutor Kehl, consultar o Boletim da Eugenia, publicado em 1929, buscando o lado oculto de figuras públicas do período. Vejam o lado “negro” da História do Brasil. Depois disso tudo assimilado, se é que dá pra assimilar, é bom sentar e conversar. Desvendando o passado, remodelando o presente para mudar o futuro. É impossível continuar apostando nesses dados viciados e nessas cartas marcadas que dominam vidas negras e que tentam ditar seus princípios. É preciso escurecer as ideias e colocar em negrito as perspectivas do povo preto. Para mim, nosso futuro tem que ser como café: quanto mais preto, melhor.

Andreia Souza é preta, Artivista, mãe solo de Aysha & Gu, idealizadora do Movimento Mulheres na Contramão, Co-fundadora da Frente Nacional Mulheres na Política e aluna do RenovaBR, do Vote Nelas e d’A Tenda das Candidatas.

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