OPINIÃO

Bacurau e o Brasil possível

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“[…] Marisa Letícia… Marielle… João Pedro Teixeira.”

A cena final de “Bacurau” é nossa história. Nos nomes, a força das coisas. Do movimento. Da ação política. Nomear é dotar de poder. Do poder transformador que abala as estruturas do poder opressor.

O camponês que liderara as ligas camponesas nos anos 1950 e fora assassinado por latifundiários, em 1962.

A militante dos direitos humanos, negra, advinda da periferia, vereadora, assassinada pelas milícias em 2018.

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A mulher operária, fundadora do Partido dos Trabalhadores, ex-Primeira Dama do país, morta em 2017, em decorrência da perseguição de uma parcela da justiça, acoloiada com a mídia e com empresários a seu companheiro, ex-presidente do país, maior líder popular da América Latina, a si mesma e a sua família.

As Marias, as Margaridas, os Josés, os Joões, as Franciscas, os Severinos, as Severinas, os Gaudêncios, os anônimos e as anônimas assassinados pelas mãos mais que visíveis do Estado-latifundiário-policial-especulador-entreguista.

Num retrospecto do filme, começando pelo fim, a metonímia expressa pelos caixões enfileirados é a saga de indígenas, trabalhadores rurais e urbanos, periféricos, mulheres, negros, LGBTs, num país de cabras marcados para morrer.

O sertão de Bacurau, síntese do Brasil de hoje, é também sua antítese. É a distopia, mas as metáforas no filme construídas desenham uma utopia. E ela se impõe nos corpos que reagem. Como já disse Guimarães Rosa, em outro sertão, “sertão é onde manda quem é forte, com as astúcias. Deus mesmo, quando vier, que venha armado!”

As astúcias reveladas em Bacurau são macabramente tramadas:

1. um grupo orgânico de americanos liderado por um velho de origem alemã, sobre os quais transparece outro poder maior que somente se expressa por meio dos aparelhos de ouvido que usam vinte e quatro horas por dia. Nesse grupo, o discurso e a prática do mal banalizados, típicos de uma sociedade anômica que vê sempre no outro o inimigo a combater.

2. Uma dupla intermediária do sul do país, um homem e uma mulher que se acham parecidos com os americanos e para quem trabalham, na missão de exterminar a pequena cidade. Importante registrar como, a partir desse núcleo, os diretores do filme “sambam” no ethos, arraigado no sul/sudeste, de superioridade em relação ao resto do país. Assim como estampam, por meio de um documento retirado da carteira do sulista, a denúncia da trama real que enredou o maior líder popular do país e o levou à prisão. O sulista descartado pelos americanos é assessor do Tribunal Regional Federal da 6ª Região.

3. Um prefeito que é uma junção das antigas oligarquias com o atual chefe de estado brasileiro a serviço dos americanos, demagogo, bobalhão, metido a playboy, que age para cortar o acesso da população de Bacurau ao seu maior bem – a água.

Essa tríplice aliança, americanos-membros do judiciário-chefe do executivo, retira a pequena cidade do mapa, limita sua sobrevivência precarizando os serviços públicos, veta-lhe o acesso direto à água, deixando-a dependente de um carro-pipa e assassina gratuitamente seus moradores aos poucos.

Mas o diabo, prestes a dar o golpe fatal do extermínio em massa, tropeça na pedra do caminho.

A sagacidade veloz de quem é forjado no barro do sertão, nas arranhaduras dos xique-xiques, nas dificuldades da vida prenuncia o perigo.

E é assim que Deus ao sertão vem armado contrapor o diabo.

As roupas de adultos e crianças manchadas de sangue estendidas no varal – outra marca forte em que os diretores retomam o símbolo das brigas de famílias no sertão, subvertendo sua simbologia, pois aqui não anunciam trégua – são o indício da disposição para enfrentar a guerra deflagrada.

E os invasores se deparam com o sertão desnudo, com suas origens indígenas; com a mulher inteligente e valente; com negros, negras, caboclos em posição de luta; com o homossexual que subverte o estereótipo de frágil e encarna o titã em fúria ao ver o ataque aos seus. Sertão que se revela forte na manchete do jornal que vale pelo implícito – Bacurau fora terra de coiteiros do bando de Lampião, não de cabuetas a serviço de coronéis. Sertão cujos nativos, mesmo os empurrados para o crime, não perdem o senso do porquê terem sido apartados de sua terra.

“Sertão é onde o pensamento da gente se forma mais forte do que o poder do lugar”, não é, velho Rosa?

Então!… Deus veio armado. Porque é guerra.

O espírito da comunidade que se une, evocando sua ancestralidade, transforma-se no poder que resiste e enfrenta a barbárie.

O pensamento se torna ação política.

“É só o começo”, como ameaçara o velho colonizador e usurpador, aprisionado pela gente de Bacurau dentro de um poço.

Mas a comunidade não se entrega. Ela é meio e fim.

E vencerá.

 

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