OPINIÃO

Bacurau: ´Filme-porrada` que é cinema de qualidade, e não militância!

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A primeira cena de “Bacurau”, ao som de “Não identificado”, cantada por Gal Costa, mostra a terra vista do espaço. Redonda. Como se para avisar o espectador do que somos, na verdade, poeira de estrelas, mas que serve como alerta em tempos de gente que acredita que á Terra é plana. A partir da câmera que do espaço sideral (citado na canção) desce a Terra, chegamos a cidade de Bacurau, “no oeste pernambucano” e “daqui a alguns anos”, como avisam os caracteres.

Uma das primeiras cenas mostra a comunidade chorando a morte da matriarca Dona Carmelita. Com diálogos inteligentes, música, cortejo e uma breve confusão. Tudo nas cenas evidencia os saberes populares. Em cenas seguintes, foco em um professor ensinando alunos tanto capoeira como localização no Google Maps. Sim, estamos diante de um filme que fala em conhecimento, popular e tecnológico. Não obstante o isolamento geográfico de Bacurau, os personagens tem telefones celulares, wi-fi e internet.

Essa primeira faceta do filme (e do roteiro), além de ser bem vinda em tempos de obscurantismo, prepara o terreno para a sequência de mudanças de narrativas que virão. O longa transita com facilidade e nenhum pudor pelo drama, suspense, ficção-científica, aventura até desaguar em um faroeste, algo admitido pelos diretores Kléber Mendonça Filho e Juliano Dornelles.

A parte final do filme, justamente do faroeste, vem gerando polêmicas e críticas extremadas, tanto nos elogios como nas alfinetadas, O curioso é que boa parte das críticas, dos dois lados, provém de possíveis pontos de partida equivocados. E de um inevitável, mas perigoso, prisma político (como tudo hoje no país, a bem dizer).

Muitos aplausos e exaltações se dão por uma suposta “convocação” que o filme faz à luta e ao confronto. Não faltam militantes de Esquerda que celebram o filme como o ponto de partida “para a revolução”, seja lá o que isso queira dizer.

Em contrapartida, há quem faça cara feia para o filme por ver nele um “viés esquerdista”. Claro que considerar “esquerdismo” pessoas pobres se defendendo de pessoas ricas fortemente armadas diz mais sobre a pessoa que faz a análise do que sobre o filme (sim, estamos falando em mal disfarçado elitismo).

Há um terceiro viés nas críticas, de um certo exotismo, de cobrar do filme mais do que é natural para um filme oferecer, como o que foi feito por Durval Muniz aqui mesmo neste Saiba Mais, gerando, por vez polêmica e mais críticas, a favor e contra. Não obstante a reconhecida capacidade intelectual de Durval e relevantes reflexões do seu texto, há um aspecto no tocante à liberdade criativa que gerou (e não só a mim) certo incômodo: nos dois textos de Durval, ele critica o fato do filme “não unir a Esquerda” e prestar um enorme desserviço para a necessária elaboração de um novo imaginário político”.

Mas, espera aí, onde que roteiristas/diretores de filmes de ficção autorais tem obrigação de prestar serviços para a elaboração de um novo imaginário político” ou não ajudar na “desqualificação da política”? Filmes não tem obrigações sociais como partidos políticos, poder público e mesmo ONGs. Filmes podem ser entretenimento ou reflexão, a priori, são o que seus autores desejarem. Cobrar que um filme (ou qualquer outra expressão artística) tenha uma função x ou y sócio-política não faz sentido nenhum.

A outra polêmica que vem despertando debates acalorados é a questão da violência. Considero alguns dos prismas pela qual a violência tem sido analisada bem non-sense. Escreveram que a violência, por ser gráfica em algumas cenas, remete a Tarantino. Ou que o teor violento do filme é resultado do Governo Bolsonaro. Em nada o filme parece sofrer influência do norte-americano de “Kill Bill” e “Pulp fiction”. A violência de Tarantino quase sempre é gerada pela vingança e é fetichizada. Em “Bacurau” a violência nasce da necessidade de autodefesa.

Sobre o filme ser uma resposta direta a Bolsonaro, a cronologia joga tal argumentação apaixonada por terra. O filme foi rodado em 2018, antes mesmo da eleição, e seu roteiro escrito entre 2016 e 2017. Fosse Haddad o presidente, o filme seria o mesmo e teríamos que achar outras analogias para sua violência.

Mas, me causou espanto o número de críticas (inclusive de Durval) à suposta violência extrema do filme. Posto que o ponto de partida do roteiro (a partir de agora seguem spoilers, aviso para quem não assistiu!) é a cidade ser atacada por um grupo de estrangeiros que mata pessoas por esporte, a comunidade só teria duas opções: aceitar passivamente a morte ou reagir, e essa reação só poderia ser na mesma proporção. Sim, claro que as metáforas e analogias em relação à carência de autoridades (o prefeito Tony Junior é uma caricatura proposital e esperta do político demagogo de interior) para defender os cidadãos podem e devem ser feitas, mas, como nos faroestes clássicos, a necessidade de reagir para continuar vivo (em um lugar sem lei) é o leitmotiv da trama.

Algumas sim, são sim, extremamente violentas. Mas, é intrínseco do cinema a catarse com a plateia. O regozijo coletivo (e aplausos em algumas sessões) em relação a cabeça de um homem voando com um tiro de carabina não se dá porque somos todos sádicos e temos sede de sangue, mas, pela sensação catártica em ver alguém até então pacífico se defender de pessoas que poucas cenas antes haviam matado, entre outras, uma criança.

O roteiro bem construído deixa claro nas primeiras cenas que em Bacurau a comunidade vive uma espécie de socialismo prático, com alimentos sendo divididos entre a população de acordo com as necessidades de cada um e até mesmo o uso de psicotrópicos, que deixam parte da população em uma espécie de “viagem”.

Este aspecto da reação na mesma medida, da proporcionalidade da violência aplicada parece ter sido deixada de lado por muitos críticos, que preferiram se dedicar ao aspecto político como se o filme fosse justamente um tratado político, coisa que como refletimos no começo, o filme não é!

União das Esquerdas, necessidade da construção de um novo imaginário político, retomada do diálogo, claro, tudo isso é necessário para reconstruirmos nossa frágil democracia e tentarmos saída deste país fraturado, mas, para Lunga, Pacote, as crianças e idosos de Bacurau, a necessidade urgente é sobreviver. E responder à violência gratuita (tema inclusive de muitos filmes europeus e americanos nos últimos dez anos) com mais violência (às vezes chocante, mas, não gratuita – já que defesa – e nem desproporcional).

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Em relação à polêmica e criticada cena das cabeças cortadas na escada da igreja, a referência aí não é a Tarantino ou as manchetes dos jornais de 2019, mas sim Gláuber Rocha e as fotos do bando de Lampião após a morte deles. Dívida histórica? Talvez. De qualquer maneira é um direito dos roteiristas/diretores enveredarem por esse lado. Cobrar uma solução alternativa na narrativa me parece uma invasão à liberdade criativa que me perturba quase tanto como as censuras dos Bolsonaros e Crivellas do nosso cotidiano.

Sim, “Bacurau” em sua mistura de gêneros, solução final e excessos é um “filme-porrada”. Mas, não é militância ou tem qualquer obrigação de pautar  uma Esquerda que se acomodou em redes sociais em detrimento das ruas. O filme é cinema de qualidade, não ganhou Prêmio de Júri em Cannes por acaso e vai ganhar ainda outros prêmios internacionais. Porque é, essencialmente, cinema dos bons.

A mensagem que ele desprende permite diversas interpretações, a gosto do espectador, embora a mais evidente seja a da reação, da não-inércia. O que não significa militância. Significa que os diretores quiseram dar um soco na cara de quem assiste o filme e que ele fosse exaustivamente debatido. Nos dois aspectos, eles conseguiram.

 

 

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