CIDADANIA

“Banco com quebra-molas” afasta pessoas em situação de rua de praça pública em Maceió

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Por Wanessa Oliveira, da Mídia Caeté 

Um banco com quebra-molas. A imagem seria no mínimo inusitada se não envolvesse, em seu contexto, uma investida escancarada de afastar a população em situação de rua do espaço público, evitando que se deitem no local. A cena presenciada na Praça Jornalista Genésio Carvalho, situada na Gruta de Lourdes, em Maceió, gerou discordância e indignação entre os próprios moradores da localidade, e foi questionada também em razão de sua ilegalidade e de uma simbologia forte em torno da higienização social.

A situação tomou conta até mesmo das redes sociais quando alguns moradores dos condomínios, contrários à ideia, buscaram as redes. Os relatos são de que a insatisfação com a convivência das pessoas na praça foi expressa já há alguns meses, nas conversas virtuais de condomínio.

Uma das moradoras de um dos prédios situados no entorno da praça, que preferiu não se identificar, relatou que os conflitos já ocorrem há algum tempo e tiveram seu início com a própria noção de diversos moradores de que a praça é privada.

É que a partir de parceria com a Prefeitura de Maceió, a Praça Genésio de Carvalho foi reformada por uma construtora ainda em 2014.  “Esse ano a construtora sugeriu que os prédios se juntassem e cuidassem da praça. Não sei como funciona, mas a gente paga cinco reais no condomínio que seria para limpeza e manutenção da praça”, explicou uma moradora de um dos prédios, que preferiu não ser identificada. Desde então, a praça passou a receber manutenção e limpeza com reforço dos moradores.

“Mas agora, desde que se deu a pandemia, o pessoal voltou. Não sei se os mesmos de antes, mas tem uma ou duas famílias morando na praça. E a princípio os moradores do meu prédio começaram a falar no grupo do prédio que ‘isso era um abuso’, ‘que era muito perigoso’. E esses tipos de comentário. E ficavam ligando para polícia dizendo que estavam aglomerando na praça. Só que era bem cínico isso porque os próprios filhos iam jogar basquete na praça, e ninguém ligava para a polícia”, completou.

Em meio aos desconfortos desses moradores com a existências das pessoas em situação de rua na praça, houve mais um episódio. “Descobriram que tinha uma senhora na outra rua que alimentava o pessoal. E foram na casa dela dizer que parasse porque ‘eles estavam ficando viciados’. Não sei como se procedeu com a senhora, mas ela parou de alimentar eles”, relatou.

Moradora de uma casa na continuidade da rua, Clarissa Sampaio começou a distribuir espontaneamente alguns alimentos em frente a sua residência para pessoas que estavam em situação de fome, no início da pandemia.

“Tinham algumas pessoas que passavam aqui e já sabiam que eu iria entregar. Comecei a fazer as quentinhas. Depois de um tempo, pessoas que são moradoras daqui também começaram a trazer outros tipos de alimento, produtos de higiene, diversos suprimentos. Foi bem bonito. Uma mulher que eu nem conhecia, trazia sopa todos os domingos. Daí abri uma tenda aqui em frente e comecei a fazer distribuição”, relatou.

A ação de Clarissa chegou a ser divulgada também em uma página do Instagram:

Tenda instalada com suprimentos para pessoas em situação de rua. Foto: Instagram

Toda a situação já acontecia em meio aos conflitos de alguns moradores dos prédios contra pessoas que ficavam na praça.

“Dois síndicos dos prédios vieram até aqui e me pediram para parar de distribuir as quentinhas, porque algumas pessoas estavam derramando a sopa na praça e sujando tudo. E de fato tinha gente que fazia isso. Eu até sei quem são. Na hora eu falei que a praça estava suja, porque não tinha gente passando com o serviço de limpeza”, explica.

Um tempo depois, entretanto, Clarissa optou por interromper com as entregas. “Não foi em razão do que eles falara, mas vi que tinha algumas pessoas que estavam mesmo derramando. Daí pensei que não estavam mais nessa condição de fome e era hora de parar. Do mesmo jeito que coloquei a tenda, tirei”, conta.

Clarissa conta que desde então ficou em isolamento social e, apenas nesta terça-feira (1), ao passar pela praça, percebeu que os bancos estavam com levantamentos de cimento. “Eu estava em minha casa, distribuindo os alimentos numa área que é minha, e vieram pedir para que eu tirasse. Eu nem sei o que pensar ainda sobre o que fizeram com os bancos. Nem sei se podem fazer algo assim, ou se essa é de fato uma solução boa, porque poderíamos chamar a polícia caso víssemos algo acontecendo e até mesmo juntar os moradores para aguardar até a polícia chegar, mas não fazer isso com os bancos.  A praça é de todos nós, e ninguém veio até aqui para falar sobre colocar esses cimentos”, acrescentou.

Já de acordo com a moradora que não quis se identificar, o episódio mais recente que teria justificado a instalação dos ‘quebra-molas’ foi de que havia um casal fazendo sexo no banco. “Não sei quanto a veracidade disso, mas na mesma hora surgiu o assunto de tirar o banco da praça pra eles não ficarem mais lá. Quando foi essa semana fizeram o serviço de colocar umas divisórias de cimento pra impedir que deitassem”, conta.

Ao questionarem no grupo quem aplicou as divisórias, a resposta emitida pelo síndico foi a seguinte (colada na íntegra, incluindo as aspas em torno de pessoas:

Boa tarde pessoal foi autorizado por todos os síndicos em comum acordo estes obstáculos em especial neste banco da praça para evitar ”pessoas” a deitarem e etc pelo o abuso que estava provocando enfrente a nossa portaria e eu particularmente achei certíssimo, informo também que a tabela de basquete que já estar quebrada a cesta será concertada após o seu remanejamento para meio da praça proximo ao futvolei evitando diversos dissabores que já precenciados e reclamados, obrigado

 

Foto: Wanessa Oliveira

A Mídia Caeté procurou a Prefeitura de Maceió, por meio da Superintendência Municipal de Desenvolvimento Sustentável (Sudes), e responsável pelos cuidados com as praças. O órgão emitiu a seguinte nota:

“A Superintendência Municipal de Desenvolvimento Sustentável (Sudes) informa que não realizou nenhuma mudança na estrutura da praça Jornalista Genésio de Carvalho. Uma equipe de fiscalização será enviada até o local para avaliar e tomar as medidas cabíveis para solucionar os problemas.

“Fazer a limpa na praça”

Nas redes sociais, a situação repercutiu rapidamente. Em duas páginas do Instagram com perfis do bairro da Gruta, a discussão acalorada seguia entre os que são favoráveis a medida adotada, e os que entendem a gravidade da privatização do espaço público.

Na página do Instagram “Viver Gruta”, ainda no dia 8 de maio, uma postagem foi efetuada com objetivo de denunciar a presença das pessoas na praça. A página relatava existência de ameaça aos moradores e seguia afirmando que “A falta “do que fazer” na quarentena está deixando a pracinha da Gruta cheia de moradores.”

 

Postagem nas redes sociais ‘denuncia’ pessoas na praça Genésio de Carvalho. Foto: Instagram

Apesar do tom de denúncia ter sido corroborado por alguns, que reforçaram a existência de práticas de vandalismo, ameaça a moradores, outras pessoas que também se identificaram enquanto moradores apontaram órgãos com os quais poderiam ser feitas denúncias  e se indignaram com a ausência de empatia. Rebateram, entre outras coisas, lembrando o básico: a praça é pública e todos tem direito de ir e vir.  A quem cabe determinar quem tem direito a estar em uma praça?

 

Para a moradora do prédio, a investida em ‘fazer a limpa na praça’ é bem anterior ao episódio em que justificam como motriz para a colocação dos quebra-molas do banco. “Isso foi o mínimo sabe? Sugeriram tirar o banco. Uma vez o pessoal deixou um colchão la, e sugeriram descer e jogar o colchão dele no lixo. Eles falam no grupo como se não estivessem falando de pessoas e como se essa reação fosse natural”, comenta. “Querem fazer a limpa na praça”.

Rafael Machado, que representa o Movimento da População em Situação de Rua em Alagoas. Foto: Cortesia/Arquivo Pessoal

O coordenador nacional do Movimento da População em Situação de Rua, Rafael Machado, aponta o quanto a situação é recorrente. “Foram colocados em Belo Horizonte, mas foi retirado. Em outras cidades também. O movimento tem discutido, porque a sociedade não sabe propor algo que venha trazer garantia dos direitos da justiça social para a população em situação de rua. O que a sociedade sabe fazer é marginalizar cada vez mais essa população”, critica: “Não chamamos o que eles estão agindo nem de criminalização, mas de higienização. Quando não conseguem tirar de um jeito, querem tirar de outro”, relata.

Segundo Rafael Machado, o Movimento tem pautado as condições de vida da população nessas condições e não há participação desses grupos no debate. “Há sempre essas alegações. Claro que discutir moradias não discutem. Usam esse tipo de prática. Não vem para o debate, não contribuem. O problema hoje da população em situação de rua é falta de políticas públicas, assistência, saúde, trabalho, moradia, esporte e lazer. Nós do movimento lutamos para que essas políticas sejam efetivadas. Está na Constituição e é um direito do cidadão”, ressalta.

A construtora R. Pontes reforçou não ter tido qualquer participação sobre a decisão de instalação das divisórias nos bancos, ou quaisquer outras, desde a entrega dos prédios . A Mídia Caeté tentou contato com um dos síndicos dos prédios do entorno, mas não obteve êxito. Rafael Machado alertou que o Movimento está acionando a Promotoria de Direitos Humanos do Ministério Público Estadual.

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