OPINIÃO

Barrar o fascismo em plena pandemia: luta nada vã

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Passadas duas semanas, desde que o esperado vídeo da reunião ministerial de 22 de abril fora divulgado, o Brasil não vivenciou a reviravolta em potencial na sua conjuntura como esperado por muitos, mas, longe de minimizá-lo, como o fizeram alguns analistas, amornado o caldo, é importante atentar para algumas considerações.

Ficou caracterizada a interferência na Polícia Federal claramente, como já muito comentado. Como também ficou caracterizada a subserviência do então Ministro da Justiça, inclusive ao não se posicionar em várias manifestações de seus colegas, durante a reunião, sobre passar por cima da legislação vigente, afrontar STF, interferir nas ações de governadores e prefeitos. Porém, o mais importante do vídeo não foi o motivo de sua divulgação – a tentativa do presidente interferir na Polícia Federal – foram as falas dos Ministros. O discurso daí emanado é chocante, é pavoroso, porque é a comprovação de que o alto comando do executivo é composto por um grupo mal intencionado em relação ao próprio país que governa e apartado da realidade da maioria do povo brasileiro. É o governo que age a serviço de um pequeno grupo de ricaços e detratores das políticas públicas. Isso não é novidade, mas a coisa muda de figura quando se veem e se ouvem esses sujeitos a portas fechadas, sem crivo nenhum. Não tem essa de patriotas. Nem de “educados”, como se autodefiniu o Ministro da Educação ao ver as vísceras expostas.

A agenda, constatou-se, não é somente o liberalismo anacrônico de Paulo Guedes, que “pôs a granada no bolso dos servidores públicos”, mas um projeto descarado de destruição do patrimônio brasileiro – cultural, educacional, histórico, ambiental. Por conseguinte, é a destruição do próprio povo brasileiro. É a agenda mais reacionária que se pode vislumbrar, acolhida por 25% da sociedade brasileira advinda da Casa Grande, aquela majoritariamente branca (claro que, aqui, a exceção é o presidente da Fundação Palmares, acometido da síndrome de capitão do mato, que brada e age contra seu próprio povo), endinheirada, racista, exploradora dos mais pobres, fascista. Embora certos analistas tenham afirmado que quem quer dar golpe não anuncia, é preciso dizer: no caso de Jair Bolsonaro, anuncia.

Numa reunião cuja pauta era discutir sobre a pandemia do Covid-19, nenhuma palavra sobre a curva vertiginosamente ascendente dos infectados pelo vírus e dos mortos pela doença. Para este tema, apenas o menosprezo rasteiro aos governadores e prefeitos que adotam medidas para conter a pandemia ou se desgastam desesperadamente com ela, como no caso de Manaus. Nenhuma solidariedade às vítimas e seus familiares. Nenhuma preocupação com a situação de vulnerabilidade dos mais pobres, cujos míseros R$ 600,00 de auxílio são dificultados diariamente.

Passadas duas semanas da divulgação desse vídeo, deixada à mostra a chaga aberta e infectada do staff presidencial, presenciamos outra configuração na sociedade brasileira. O STF parece ter acordado para o perigo da serpente que ajudou a criar por meio da conivência com essa parcela da elite brasileira, que derrubou uma presidenta sem crime de responsabilidade e prendeu um ex-presidente sem provas e sem trânsito em julgado. A manutenção da investigação sobre as fake News, que pode redundar na melhor saída para o país – a cassação da chapa Bolsnaro/Mourão com realização de novas eleições – e a votação unânime dos ministros contra a federalização da investigação do assassinato de Marielle e Anderson são derrotas relevantes impostas ao bolsonarismo. Somam-se a isso o manifesto assinado por 600 juristas em defesa da democracia, publicado em página inteira de jornais, e a nota do decano Celso de Mello, reproduzida por Monica Bergamo:

É preciso resistir à destruição da ordem democrática, para evitar o que ocorreu na República de Weimar quando Hitler, após eleito pelo voto popular e posteriormente nomeado pelo presidente Paul von Hindenburg como chanceler da Alemanha, não hesitou em romper e em nulificar a progressista, democrática e inovadora Constituição de Weimar, impondo ao país um sistema totalitário de Poder.

O ministro Celso de Mello deu o real nome à coisa: “ditadura abjeta” é o que querem. Mas, para além do judiciário e, muito mais importante, a população dá sinais de cansaço e impaciência. Dá sinais de que está lendo essa conjuntura e dela não está gostando. A combinação pandemia/isolamento social/descaso governamental/projeto autoritário está gerando reações antes impensadas no contexto de quarentena, dando o termômetro do que anda nas cabeças e nas bocas. As manifestações de rua em várias capitais, antifascistas e em defesa da democracia, protagonizadas pelas torcidas organizadas de vários clubes também são sinais para os partidos de esquerda e os movimentos social e sindical: mesmo no contexto de pandemia, são necessárias e urgentes estratégias de ocupação das ruas para barrar o fascismo. Nossas organizações tradicionais, antes protagonistas dos atos de massa, acuadas com a situação de isolamento social, parece não atentarem para o fato de que o bolsonarismo aproveita o vácuo para impor sua escalada autoritária também nas ruas. E busca, aí, naturalizar sua pauta de impor uma ditadura.

Essa disputa não é só de discursos, é, principalmente, de ação. Por isso, barrar a agenda recessiva de destruição de direitos do povo brasileiro passa pelo #ForaBolsonaroeMourão, mas, especialmente, pela anulação do fascismo na nossa arena política. Isso só será possível com um projeto de país que faça a sociedade brasileira voltar a acreditar que pode comer três vezes ao dia, desfrutar de arte e lazer, ter emprego, educação e saúde públicas de qualidade, sair e voltar viva para casa.

Se a população brasileira internalizar que esse país possível não é no Brasil de Bolsonaro, porque este aposta no caos social, o isolamento social será rompido. Não mais para esperar 600 reais na fila da Caixa Econômica, como já acontece, mas para a derrocada do presidente genocida e sua trupe. Temos uma faca de dois gumes, mas a realidade é que não podemos deixar passar nem a boiada, nem o fascismo.

A propósito, findado maio, somamos 29.314 vidas a menos em solo brasileiro.

Por estas vítimas, nada de silêncio! O grito é forte: fora Bolsonaro, fora Mourão e sua política genocida.

Fascistas não passarão.

 

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