OPINIÃO

Bibliotecas Já! Bibliotecas Sempre!

Leio na Tribuna do Norte, a propósito da reabertura do Memorial Câmara Cascudo, a alegre notícia de que, finalmente, a Biblioteca Câmara Cascudo vai reabrir também. Desde que cheguei a Natal, em 2010, nunca pude desfrutar daquele equipamento cultural, fundamental na vida de qualquer cidade ou estado. Ao ler a chamada no jornal local, suspiro de satisfação, já me me imaginando a flutuar entre livros, revistas e documentos de seu acervo.

Mas minha alegria não dura mais que o tempo de um espirro. Está lá para quem quiser comprovar (http://www.tribunadonorte.com.br/noticia/memorial-reabre-sem-acervo-definitivo/421212): ainda em agosto acontece, supostamente, o 1º. Seminário de Bibliotecas Públicas do RN, “mas, segundo Amaury Júnior, o acesso ao público se dará um pouco mais à frente”. Ou seja: a biblioteca vai reabrir mas não vai reabrir.

A notícia da Tribuna me remete, imediatamente, a um artigo publicado em julho na Folha de São Paulo e cujo título é “Nunca se escreveu tanto, tão errado e se interpretou tão mal” (disponível em https://www1.folha.uol.com.br/empreendedorsocial/2018/07/nunca-se-escreveu-tanto-tao-errado-e-se-interpretou-tao-mal.shtml). O artigo, assinado por Otávio Pinheiro, traz dados da pesquisa Indicador de Analfabetismo Funcional, do Instituto Paulo Montenegro e da Ong Ação Educativa, que aponta que apenas 22% dos brasileiros que chegam às Universidades têm plena condição de compreender e se expressar. E mais: dentre os universitários, 4% podem ser considerados analfabetos funcionais, ou seja, sabem ler e escrever, mas não estão plenamente aptos a interpretar e produzir textos com proficiência (não leem nas entrelinhas, não têm senso crítico etc.).

Evidentemente, não se trata de fazer equivaler criticidade com formação escolar e universitária. Já vi muito Patativa do Assaré por aí, bem como já esbarrei em muita gente metida a doutor que em suma não passa de um ignorante. Mas é inegável que uma formação sólida (de opinião e de caráter) passa necessariamente pela leitura, de mundo e de livros. E é aí que cumprem seu papel as bibliotecas. Como exigir que uma sociedade leia e escreva adequadamente se não há políticas públicas de incentivo a isso, políticas essas que passariam, necessariamente, pela manutenção, divulgação e uso das bibliotecas?

As bibliotecas estão no mundo muito antes da Bíblia de Gutenberg, de 1455, considerado o primeiro livro impresso no Ocidente, ou mesmo do rolo Sutra do Diamante, da China do século IX, considerado o texto impresso mais antigo, quando os livros eram até então dispostos em papiros e pergaminhos, as primeiras formas de papel.

Tod@s já pelo menos ouvimos falar na célebre Biblioteca de Alexandria, fundada na metade do século III a. C., durante os reinados dos reis egípcios Ptolomeu I Soter e Ptolomeu II Filadelfo. A biblioteca fazia parte de um complexo que dispunha de museu, jardim, sala de jantar comunitária, teatro e sala de leitura, e no seu apogeu chegou a contar com um acervo de meio milhão de rolos. A famosa biblioteca teria sido destruída no ano de 273, quando Alexandria foi capturada pelo imperador romano Aureliano.

A mesma história de ganância e ignorância, como se vê, repete-se, tantos séculos depois. De um lado, o conhecimento tenta resistir, do outro, o lucro fácil e o poder pequeno se impõem sobre nós, populações. E por mais que os livros estejam aí, convivendo com o advento da internet e das malhas digitais de transmissão da informação, nas livrarias e sebos, as bibliotecas, como centro de difusão e de formação cultural, parecem sempre estar nos suspiros finais. E isso pode ser verificado por meio de uma constatação banal: em qualquer rincão perdido no mapa, é possível achar, muito facilmente, um templo religioso ou uma casa de show. Agora procure uma biblioteca…

E como desgraça pouca é bobagem, logo depois recebo a notícia de que lá em Campinas, na biblioteca do Instituto de Estudos da Linguagem da UNICAMP, um espírito de porco (com todo respeito aos suínos) pichou mesas e telas de computador com suásticas, slogans racistas e ameaças brutais (vai ter massacre #columbine). Só uma expressão me ocorre para definir tal acontecimento: lástima total.

Acho que por isso me amarro em livros como “Ficções”, de Jorge Luís Borges, ou “O Nome da Rosa”, de Umberto Eco, porque eles retratam uma luta histórica de resistência das bibliotecas, desde há muito destruídas, fechadas, vandalizadas, vilipendiadas. No nosso caso aqui em Natal, queria acreditar sinceramente que a promessa do diretor da Fundação José Augusto não fosse só mais uma promessa vazia, dessas típicas de épocas de campanhas eleitorais. Mas prefiro mesmo é me aproximar do lema das barricadas anarquistas: “sejamos realistas, peçamos o impossível”.

Bibliotecas já! Bibliotecas sempre!

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