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Biografia revela as histórias contadas e as não contadas sobre Maurílio Pinto

Há sete anos, quando participou como convidado de um festival literário na praia de Pipa, o escritor e jornalista Fernando Morais foi taxativo diante da insistência de um repórter que o questionava sobre sua intenção de escrever a biografia do ex-senador Antônio Carlos Magalhães, sendo Morais um homem identificado com os ideais de esquerda, o que o mantinha ideologicamente bem distante do político baiano chamado por seus opositores de Toninho Malvadeza:

– Eu não admito que jornalista em lugar nenhum do mundo abra a boca para dizer que não se deve falar ou escrever sobre Antônio Carlos Magalhães porque, jornalisticamente falando, é um grande personagem, aliás, importantíssimo para quem quiser contar a história do Brasil.

Me lembrei das palavras de Morais endereçadas a um colega assim que foi divulgada a morte do ex-delegado de polícia Maurílio Pinto, aos 76 anos, sábado passado, em decorrência de problemas relacionados à diabetes. Em tempos de Fla-Flu ideológico e com a pauta da defesa dos Direitos Humanos ligada aos militantes de esquerda, Maurílio é um prato cheio para discussões acaloradas.

De tudo o que se disse de sábado para cá, é bem provável que seja tudo verdade. Da turma que fala bem pela convivência ou a estranha mania de procurar heróis em seres humanos aos que falam mal em razão de histórias muito mal contadas e pouco esclarecidas ainda hoje.

Adepto do clichê “bandido bom é bandido morto”, Maurílio despertava amor e ódio.

Como repórter, tive pouquíssimos contatos com o ex-delegado. Tão raros que não me deixam à vontade para ensaiar qualquer depoimento sobre ele.

Mas é inegável que Maurílio Pinto é um grande personagem.

Não foram poucas as vezes em que comentei com colegas de redação que ele daria uma boa biografia, dessas de deixar o leitor ávido pela próxima página.

Alguns jornalistas tentaram, colheram alguns depoimentos com o próprio ex-delegado, mas não levaram o projeto adiante.

Há pouco mais de um ano, porém, uma dupla de repórteres, com experiência no jornalismo policial, se debruça sobre a vida do mais respeitado e odiado policial do Rio Grande do Norte.

Paulo Nascimento e Rafael Barbosa, que já assinaram juntos a biografia sobre o mito Valdetário Carneiro, vêm se dedicando a contar a trajetória do último agente da polícia batizado de Xerife.

Maurílio foi acusado de chefiar um grupo de extermínio, entre outros crimes. (crédito: Paulo Nascimento)

A expectativa dos jornalistas é concluir o livro, que ainda não tem nome nem editora definidos, no primeiro semestre de 2019. Paulo e Rafael tiveram mais de 20 encontros com Maurílio Pinto durante o período, sempre aos sábados, com espaço de, no máximo, duas semanas entre eles. As entrevistas duravam em média três horas.

Sempre que chegavam, apesar da aparente debilidade, encontravam um entrevistado lúcido.

– Ele estava lúcido. Com alguma dificuldade para lembrar datas exatas, por exemplo, mas lúcido, conta Nascimento.

Todos os documentos guardados pela viúva, a maioria recortes de jornais, foram liberados para consulta.

“A gente está na fase de apuração, iniciada há pouco mais de um ano. Reunindo documentos, depoimentos. Tivemos mais de 20 encontros com Maurílio. Ele também deu acesso a todos os documentos que ele guardou. O trabalho segue agora com a coleta de mais depoimentos”, explica.

 Maurílio prometeu a Paulo e Rafael que retomaria os encontros assim que deixasse o hospital. Não houve tempo. Ao mesmo tempo, nenhuma pergunta ficou sem resposta, garante o jornalista.

– Ele não deixou nada sem resposta. Temos algumas lacunas que precisam ser preenchidas por outros participantes da história, diz.

É natural que sem a presença física de Maurílio Pinto, casos polêmicos como as acusações de que o ex-delegado chefiou um grupo de extermínio na cidade ou a de que foi o mandante da execução do advogado Gilson Nogueira, possam ser contados em detalhes agora, sem a pressão do próprio Maurílio.

Mas Paulo Nascimento nega que a morte do ex-delegado mude alguma coisa para quem vai contar a história.

– “Efetivamente a gente nunca sentiu nenhuma restrição por parte dele, que nunca se negou a contar nada. Pelo menos do ponto de vista dele. Mais ou menos como foi com Valdetário. E foi um acerto desde o começo a gente poder falar de tudo. Talvez agora fique mais fácil para outras pessoas, eu acho”, acredita o biógrafo.

Luiz Pedro, Otávio Ernesto (o dono da arma usada na morte de Gilson Nogueira), Maurílio Pinto e o hoje coronel Reis, então tenente. (crédito: reprodução)

 

O dia em que Maurílio foi preso por arruaça

Embora Paulo e Rafael ainda não tenham pensando na divisão do livro, por capítulos, a biografia seguirá uma cronologia definida. Maurílio Pinto é fruto da convivência com o pai, o coronel da PM Bento Manoel de Medeiros.

Em entrevistas à imprensa, o ex-delegado admitiu que o coronel Bento lhe pediu para que não seguisse na polícia após a aposentadoria do pai em razão dos inimigos colecionados durante a carreira.

– O grosso (do livro) é a carreira policial, sem dúvida. Mas é preciso falar da juventude porque a influência do pai é muito forte. E também porque a primeira vez que ele apareceu nas páginas policiais foi na juventude, sendo detido.

A história da prisão de Maurílio Pinto ocorreu no final dos anos 1950, no bairro do Alecrim. Além de passar um dia na cadeia, o homem que mais tarde viria a ser chamado de Xerife estampou uma das páginas dos Diário de Natal, o periódico mais lido da época:

– Ele foi detido por arruaça. Durante uma festa na Igreja de São Pedro, no Alecrim, envolveu-se em uma confusão com mais alguns amigos. Foi matéria do Diário de Natal e tudo mais. Dormiu na cadeia e só saiu no dia seguinte, quando pagaram a fiança.

O restante das histórias já contadas e, especialmente as não contadas, sobre Maurílio Pinto de Medeiro será publicada em livro.

E se tudo ocorrer como esperam os autores, lançada em 2019.

 

Rafael Barbosa, Maurílio Pinto e Paulo Nascimento: noite de autógrafos da biografia sobre Valdetário Carneiro: a fonte vai virar personagem
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Rafael Duarte
Jornalista e autor da biografia "O homem da Feiticeira: A história de Carlos Alexandre"

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