OPINIÃO

Bolsonarismo: a política do ressentimento

Ressentimento, como nos ensina Nietzsche, é muito diferente de simplesmente sofrer uma ofensa ou violência e ficar “remoendo” a “mágoa”. Ressentimento é uma maneira de ver o mundo e de avaliar as relações.

O cerne da postura ressentida é sempre se definir a partir da negação de um outro. Se sofro, é por culpa de um outro. Minha ação é uma reação ao outro. Meu prazer não é desfrutar o que possuo, mas ver o outro perder o que tem ou impedir a todo custo que possua também o mesmo que eu. A postura ressentida “diz não a um ‘fora’, um ‘outro’, um ‘não-eu’ – e este Não é seu ato criador. Esta inversão do olhar que estabelece valores – este necessário dirigir-se para fora, em vez de voltar-se para si – é algo próprio do ressentimento (…) sua ação é no fundo reação”.

Politicamente, o ressentimento tem algumas facetas possíveis. Pode comparecer ao lado das classes mais baixas, quando não se permitem admitir que gostariam de desfrutar também do poder de consumo e dos privilégios das classes mais altas e assumem uma postura moralista que culpa o rico pela pobreza e estabelece como ideal político absolutamente fundamentado por algum ideal abstrato e supostamente absoluto de Justiça, que os ricos percam o que têm. Em tempos passados, a capitalização desse ressentimento parece ter desempenhado um importante papel na ascensão e expansão da Igreja Católica, com o ideal de que, para as classes mais baixas essa “reparação” moral virá no “reino dos céus” – uma espécie de “vingança imaginária” contra os “maus”.

Pelo lado dos grupos mais privilegiados da sociedade, o ressentimento pode se manifestar como desejo de – e mobilização para – impedir que o outro possa desfrutar das riquezas e privilégios que possuem. Ainda que ele não as queira retirar de ninguém, mas apenas obter também, por outras vias, acesso a estes mesmos gozos.

Quando as mulheres lutavam pelo seu direito de voto, lutavam pelo direito de acesso a um privilégio há muito desfrutado pelos homens, sem nada pretender tirar deles – já que nunca se requisitou que os homens perdessem seu direito ao voto. E mesmo assim, houve grande mobilização dos homens através de todo tipo de estratégia política e argumento furado – incluindo teorias científicas supostamente sérias sobre a incapacidade feminina para a participação política – para impedi-las de atingir seus objetivos.

No Brasil, com a abolição da escravidão, houve toda uma mobilização dos brancos para impedir que os negros ex-escravizados e descendentes de ex-escravizados tivessem acesso a qualquer direito social disponível. E por aí podemos compreender a pouca disposição das classes mais altas para aceitar qualquer distribuição de renda que, apesar de estar longe de torná-las significativamente mais pobres, certamente torna as pessoas mais pobres significativamente mais ricas.

Nossas classes médias merecem um capítulo à parte na expressão da postura ressentida. Afinal, a base de sustentação eleitoral e ideológica do bolsonarismo está nas 53% de famílias brasileiras com renda entre 2 e 10 salários mínimos (Entre as 20% de famílias com renda inferior a 2 salários mínimos, Bolsonaro perdeu). Há uma parcela das nossas classes médias que se identifica imaginariamente com as elites e julga que por possuir um apartamento relativamente bem situado com um carro relativamente novo na garagem – ambos financiados em 30 anos – é verdadeiramente rica. A verdade é que mesmo as classes médias mais bem estabelecidas, com seus salários mensais de 5 a 10 mil reais, ainda se encontram matematicamente muito mais próximas dos 900 reais mensais do salário mínimo do que dos mais de 170 mil mensais dos verdadeiramente ricos.

Essa parcela da classe média entra em colapso nervoso a cada vez que observa uma melhora significativa nas condições econômicas das classes mais baixas. O caso é de fácil compreensão. Ao encontrar as classes mais baixas nos aeroportos, nas seções do mercado e nos shoppings que eram antes reservados às classes médias, as fronteiras entre classe média e classe baixa ameaçam desaparecer, obrigando as classes médias a encarar a realidade da sua pobreza material e quebrando a ilusão da identificação imaginária com as classes mais altas. Esse fenômeno, aliado à insatisfação que tende a se seguir a uma melhora significativa das próprias condições de vida – o que leva a um aumento das expectativas – explica boa parte do “ódio” desses setores das classes médias ao PT.

Além disso, o bolsonarismo vê em qualquer movimento de contestação dos valores sociais dominantes, uma forma de “vitimismo” injustificado, uma subversão da ordem e da segurança, uma terrível ameaça à estrutura social ou uma aberração que desvia a “natureza” humana. Estes grupos privilegiados e ressentidos negam então o presente em nome de um passado ideal, numa postura nostálgica e conservadora.

Essa postura está presente em todo tipo de discurso nostálgico que hoje circula. Aquele que diz que na ditadura todos viviam bem, em paz, segurança e estabilidade, num mundo livre de corrupção. Obviamente, uma ilusão, já que o mundo nunca foi assim, em qualquer tempo ou lugar, quanto mais sob a mira dos fuzis de uma ditadura. Aquele que diz que no passado os casamentos duravam para sempre, sem levar em conta que isso ocorria por que a relação era de violência e opressão do homem sobre a mulher, que mesmo sendo traída e violentada de qualquer maneira, simplesmente não podia requerer um divórcio. Aquele que diz que no passado os alunos respeitavam os professores, sem levar em conta que a escola aplicava castigos físicos como palmatória e ajoelhar no milho. Aquele que sonha, portanto, com um passado ideal em que “tudo e todo tinham o seu lugar”, tudo estava em ordem, tudo era seguro, tudo estava em paz. Trata-se de uma projeção para o passado da fantasia de onipotência. E de um grande ressentimento contra o presente em que há, sim, movimentos de contestação desses valores e padrões sociais que hoje já não mais se sustentam – graças a Deus, ou, como diria Nietzsche, à morte de Deus.

Bolsonaro se tornou um receptáculo para todo tipo de ressentimento nostálgico. Não por acaso procurou de todas as formas, durante a campanha, apresentar-se como o “homem” por excelência, o “branco” por excelência e o “hétero” por excelência. Como já advertia Nietzsche, a vitória do ressentimento custa caro.

 

 

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Diogo Bogéa
Diogo Bogéa é doutor e mestre em Filosofia Pela PUC-Rio. Graduado em História pela UERJ-FFP. Professor de Filosofia e Psicanálise na UERJ. Autor de “Oficina de Filosofia”, escreveu também "Metafísica da vontade, metafísica do impossível: a dimensão pulsional como terceiro excluído".