TRANSPARÊNCIA

Estudante da UFRN relata momentos de terror durante tentativa de linchamento por bolsonaristas pro-voto impresso em Natal

Um grupo de pelo menos quatro simpatizantes do presidente Jair Bolsonaro atacou na terça-feira (13) a chutes e pontapés o estudante do curso de Publicidade e Propaganda da UFRN  Yuri Arley de Jesus Lima, 24. O jovem retornava para casa após uma visita ao filho pequeno, quando foi insultado e agredido pelos bolsonaristas que participavam de um ato em defesa do voto impresso na passarela da Governadoria, no bairro Potilândia.

O ataque aconteceu por volta das 16h. Um Boletim de Ocorrência foi registrado na delegacia de Lagoa Nova. Leia aqui.

Yuri não vestia nada que indicasse posicionamento político. Mesmo assim, ouviu que deveria “voltar para Cuba”, foi chamado de “vagabundo” e recebeu um empurrão. O universitário respondeu aos xingamentos e foi atacado por pelo menos quatro pessoas, sendo alvo de chutos e socos.

Os agressores chegaram a acusá-lo de roubo e Yuri precisou desbloquear o próprio celular para provar que o item pertencia a ele. Um dos integrantes do grupo ainda chegou a ameaçá-lo com um estilete. Em meio às agressões, o estudante conseguiu chamar a polícia, que veio até o local, mas se recusou a tomar qualquer medida alegando que não haviam testemunhas para a situação relatada por ele. Um policial concluiu por conta própria que o universitário estava sendo usado como “massa de manobra”.

Ele explicou a situação e pediu para ir à delegacia junto com os agressores para prestar esclarecimentos. De acordo com o relato do estudante, os policiais negaram o socorro, o acusaram de ter provocado as agressões e o aconselharam a buscar o 5º Distrito Policial, em Lagoa Nova.

Arley foi então a delegacia e registrou o Boletim de Ocorrência, relatando a agressão. Mas chegando lá, voltou a ser orientado a não reagir a nenhuma situação do tipo. Além disso, não ainda não houve identificação formal de nenhum dos agressores. Nesta quarta-feira, 14, o estudante fez exames de corpo de delito para registrar a série de hematomas no corpo.

A agência Saiba Mais conversou por telefone com o estudante Yuri Arley de Jesus Lima. Confira o relato:

Eu estava na casa da minha esposa, a gente tem um filho, tinha vindo deixar alguns mantimentos, ver meu filho, que sempre passo o final de semana com ele. Quando estava retornando para casa, que fica próximo passarela da Governadoria, em Potilândia, fiz o habitual e atravessei a passarela. Sempre pego um ônibus, desço na parada, atravesso a passarela e vou pra minha casa. Só que ontem estava acontecendo um ato pró Bolsonaro e pró  voto impresso. Eu estava passando quando eles começaram a gritar ‘vai pra Cuba’, ‘sai daqui, vagabundo’…

Começaram a mandar eu acelerar o passo pra descer da passarela rápido. Enquanto eles só gritavam, tudo bem, só que um cara me ofendeu e me empurrou e num momento de bravura insano ou de burrice mesmo, comecei a responder e a tentar ofendê-lo de volta, só que mal deu tempo de começar a falar e já fui espancado, já começaram a me agredir com vários socos no rosto.

Um dos manifestantes me ameaçou com o estilete, ele tirou o estilete da bolsa, o outro tava com a bolsa de lado, fez menção a puxar uma arma, como se fosse ir dizendo tipo, sai daqui se não você vai morrer. E começou a juntar muita gente em cima da passarela. Eram três caras me batendo no rosto. Quando meu óculos voou do meu rosto, quebrado, eles pisaram em cima. Estava com fone de ouvido e não sei nem onde foi parar.

E aí, nesse momento, percebi que se não corresse, eu ia morrer. E tentei correr. Só que, quando eu tentei fugir, um dos caras começou a me perseguir e eu pensei  que, se fosse para casa, ele descobriria onde moro. Então tentei partir pra cima dele e começamos uma briga, mas ele me imobilizou. Começou a parar mais gente e ele disse que eu estava assaltando ele. Nesse momento, pegaram meu celular e, no momento que eu fui tentar recuperar, tomei vários chutes na cabeça, chute na boca, de gente nem sabia o que estava acontecendo.

 Perguntaram onde eu morava, meu nome, pegaram minha carteira, pegaram meus documentos e eu não conseguia me defender porque era muita gente, eu tentava me defender de um e tomava do outro lado a gente pisando na minha costela. Uma senhora ficou pisando na minha perna e me ameaçando, dizendo que se eu não saísse, eles iam me bater mais. A todo momento, eu só tomar pancada de todo lado e tentava me defender, me explicar, só que ninguém escutava. E quanto mais eu tentava me explicar, mais errado parecia que estava, levando chute, pisão, soco…

Quem é o estudante agredido

Natural do Crato, no Ceará, o estudante reside em Natal há 2 anos, onde veio para cursar a graduação em Publicidade e Propaganda na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Yuri explica nunca ter enfrentado nenhuma situação parecida e agora têm medo de sair de casa e sofrer alguma retaliação.

“Teve um momento em que eu só fechei o olho pedi para morrer, porque eu estava apanhando de tanta gente que eu não sabia se eu ia aguentar. Só fechei o olho e deixei rolar. Vai que eles descontando a raiva em mim, eles saiam e me deixavam em paz. Então, teve um momento que eu só fechei o olho e chorei”, conta.

 

 

Clique para ajudar a Agência Saiba Mais Clique para ajudar a Agência Saiba Mais
Artigo anteriorPróximo artigo

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *