OPINIÃO

Bolsonaro: Collor com armas

Nesses dias de temperatura máxima no cenário eleitoral, uma frase de Willhelm Reich nos faz refletir: “A verdadeira questão não é a de saber por que as pessoas se revoltam, mas por que não se revoltam.” O sentimento de obediência ao status quo é flagrante. Naturalizamos hábitos civilizatórios cotidianamente e o clima da eleição e da mídia tem contribuído para isso. Senão vejamos.

Como não se revoltar com um candidato quando afirma que “o problema da ditadura militar foi torturar, e não matar?” Como se acostumar, em pleno século XXI, com afirmações que dizem que as mulheres devem ganhar menos do que os homens? Como aceitar que uma parlamentar, em plena Câmara Federal, seja agredida com palavras do tipo: “não te estupro porquê você é feia”? Como aceitar um candidato afirmar que gostaria de ser pai apenas de filhos homens, mas que na última ele “fraquejou e nasceu mulher”?

Como ficar calado diante de gestos midiáticos simulando uso de armas apontadas para os adversários? Imagens do pai candidato e dos filhos são abundantes nas redes sociais. Tudo isso tem acontecido à luz do dia. A imprensa e a justiça parecem coniventes. O partido do Ministério Público que tem sido sempre ávido para punir a esquerda, sobretudo petistas, permanece pianinho. Silencia.

Como querer uma sociedade republicana e democrática quando atos incivilizados de um candidato a presidente se tornam normais no cotidiano de uma nação? Com Collor candidato e depois presidente, o povo brasileiro vivenciou outras incivilidades desta natureza. Era tido pela mídia como o herói dos descamisados e gritava em praça pública que tinha “aquilo roxo”. A diferença é que agora com Bolsonaro reatualiza-se não apenas o mito do machão e herói da moral e dos bons costumes, mas a de um sujeito que agride verbalmente e faz ameaças de agressões físicas. Como o fez no Acre, quando disse que fuzilaria petistas. Nas palavras do próprio coiso, “fuzilar essa petralhada aqui no Acre.”

Acostumar-se com atos desta magnitude é torná-los hábitos costumeiros e perigosos. É acostumar-se com a ‘banalidade do mal’ cotidiano e fazer da vida algo descartável tal como Eichmann, funcionário nazista responsável por matar judeus em câmaras de gás. Ele disse que apenas obedecia a ordens. O comportamento de manada visto nos últimos dias das eleições pode levar o país a tal ethos. O ódio ao diferente, destacadamente, através de Fake News e propagadas em redes sociais digitais como um contágio midiático, dão prova do comprometimento da democracia e do ressurgimento de práticas autoritárias herdeiras da ditadura militar.

O Brasil não fez seu acerto histórico com o seu passado autoritário. Diferente do Chile, Uruguai e Argentina que julgaram e condenaram os algozes das ditaduras, o Brasil permanece conivente com os mesmos. Não é à toa que a chapa melhor colocada nas pesquisas é formada por um capitão e um general. Se a política é lugar da ação, do diálogo e de milagres (não religiosos, mas da invenção e da novidade) e, também, o lugar de novos nascimentos, isto é, da não interrupção do fluxo da vida em sociedade, conforme Hannah Arendt, é preciso que evitemos a barbárie de uma concepção política baseada na “guerra continuada por outros meios”, como pontificou o general prussiano Clausewitz.

Ao contrário, devemos inverter sua máxima e transformar a guerra numa política por outros meios. A política é uma questão de diálogo, da emulação de opiniões contrárias e não uma arena ideológica na qual tenhamos que escolher entre gladiadores e ou matadores.

A arma da política deve ser o argumento e nunca a sua eliminação. Por essas razões é que não só ELAS devem dizer não a ELE, mas todos os homens e mulheres que não abrem mão da democracia e das liberdades individuais. Neste ano no qual a diva e filósofa feminista, Simone de Beauvoir, completa 120 anos de nascimento, derrotar o coiso é um imperativo civilizatório.

 

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Alex Galeno
Alex Galeno é cientista social, professor da UFRN e escreve às terças-feiras para a agência Saiba Mais

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