OPINIÃO

Bolsonaro e a síndrome do Dick Vigarista

A comparação não é ideia minha, já vi gente boa pelo Brasil e pelas redes afora fazerem a analogia a seguir, o que pretendo é estendê-la mais um pouco para uma análise e reflexão. Lembra do Dick Vigarista, o vilão do desenho animado “A corrida maluca”, que fazia imenso sucesso nos anos 70 e 80? Recorda que ele trapaceava a todo momento na tentativa de vencer a corrida e sempre perdia, já que seus planos davam errado?

Pois é. E a mesma geração que se divertia com a animação, também percebia algo óbvio: Muitas vezes Dick liderava a corrida e estava bem próximo da vitória, mas preferia parar para sabotar os adversários. Aí a coisa dava errado e ele se dava mal, como é para ser nos desenhos animados.

Parece com algum político e algum governo que você conhece? Sim, claro. Bolsonaro sofre a síndrome de Dick Vigarista. Para muito além de ser o vilão da história, dos maus modos, do comportamento agressivo, da estética de mau gosto.

O fato, para desespero dos amigos progressistas mais passionais e exaltados, é o governo Bolsonaro tinha imensas chances de dar certo. Começou com o apoio do “mercado”, dos grupos financeiros, do Congresso e com mídia complacente com a torpeza do recém-empossado presidente. A esquerda estava desarticulada, Lula ainda preso, Ciro sob o efeito da viagem a Paris, militância em estado de entorpecimento, o sentimento de “tiramos o PT” forte em parte considerável da população, cenário internacional cauteloso, mas à espera do que viria.

Sim, o governo Bolsonaro poderia ter dado certo. Poderia. Se Bolsonaro não fosse realmente Bolsonaro, o ogro imbecil que conhecemos há muitos anos. Se não tivesse filhos disfuncionais. Enfim, se ele realmente fosse um personagem, como imaginavam mercado, mídia e mundo político, que imaginavam poder “passar um verniz” no tiozão fascista.

Voltemos a Dick Vigarista. Com tudo a favor dele, espaço em Davos e na ONU, mídia ainda complacente, Bolsonaro resolve não administrar, não presidir (o que equivaleria a ganhar a corrida). Prefere parar (o que efetivamente fez) para destruir os adversários, que, a rigor, estavam a quilômetros dele na corrida. Neste parada para reunir sua claque fanática, começam a surgir crises na relação política política com o Congresso, insatisfação no STF, guerra com a imprensa (o que, evidentemente, motiva mais pautas investigativas e contundentes) e por fim uma pandemia.

Mesmo com a Economia minguada, contradições diversas, ministros bizarros e ineficiência, a pandemia colocou nas mãos do Dick Vigarista brasileiro a chance de, mais uma vez, liderar a corrida e ganhar de maneira limpa. Bastava Bolsonaro ter admitido a gravidade da doença, colado em Trump e nos principais líderes mundiais, seguido as recomendações da OMS e do bom senso e trabalhado pelo isolamento (que, a priori, até beneficiaria ele, pois evitaria manifestações de rua contra seu governo). Poderia agora estar com números administráveis e sem ter politizado a doença (o que é inadmissível) não daria espaço para a esquerda confrontá-lo.

Mas, para Dick Vigarista, como sabemos, não basta ganhar (ou a chance de vencer). Tem que deixar os adversários para trás, humilhá-los, destruí-los. Portanto, Bolsonaro não poderia ficar do mesmo lado da corrida que Macron, Merkel e Fernandez. Ou dialogar de forma civilizada com os governadores (aliados ou adversários). Sua claque, seus fanáticos de verde e amarelo e fúria, pedem mais que a corrida, sangue, inimigos destruídos. E Bolsonaro sempre lhes oferece isso.

Hoje, colhe os frutos do seu (des)governo: Investigações em diversas frentes, crises eternas com STF e Congresso, crescente desaprovação popular e um pária mundial. Bolsonaro achava que era um Johhny Bravo (o que nem significa muita coisa). Mas, sempre foi só o Dick Vigarista. Que sempre perde a corrida tentando trapacear.

 

 

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