OPINIÃO

Bolsonaro e Neymar: Inspiradores de paixões quase medievais 

É batata, como diria Nelson Rodrigues. Qualquer pessoa que postar em rede social ou comentar algo, ainda que banal ou leve, sobre o presidente Jair Bolsonaro ou o futebolista Neymar Júnior, receberá imediatamente respostas dos admiradores destes dois.

Admiradores foi um eufemismo. Apaixonados. A relação que Jair e Neymar desenvolveram com as pessoas que os admiram tem todas as características da paixão romântica, algo medieval mesmo. São sentimentos irracionais, desprovidos de qualquer senso crítico e percepção de realidade. Não aceitam o contraditório e tampouco crítica ao objeto da paixão.

O curioso é que o (des)presidente e o craque de futebol se metem em confusões o tempo inteiro. Na verdade, geram as confusões. Ambos são faladores, boquirrotos e prepotentes. Mitômanos mesmo, cada um a sua maneira. Jair já disse que  não estupraria uma deputada porque ela não merece, já comparou quilombolas a gado, já disse que ia fuzilar a petralhada etc etc. Neymar já saiu no tapa com adversários diversas vezes, é acusado de sonegar milhões de reais, foi acusado de estupro, brigou fisicamente com companheiros de time, saiu de maneira conflituosa do time que dizia que amava, já passou uma Copa do Mundo mais tempo rolando no gramado em performance do que jogndo bola etc etc.

Ainda assim nada deles pode ou deve ser questionado ou ser algo de reflexão crítica por parte dos admiradores, digo, apaixonados. Bolsonaro apoia manifestações que pedem o fechamento do STF e Congresso? Ah, nada de mais, cada um tem direito a apoiar o que quer. Neymar é acusado de estupro? Ah, a moça é aproveitadora, quer dinheiro e aparecer. Bolsonaro e Neymar sempre estão certos a priori, sem reflexão do que fizeram ou falaram. Paixão incondicional.

Nas postagens que faço sobre Bolsonaro, os bolsonaristas vem evitando comentar, seja por terem se afastado de mim, seja por constrangimento mesmo. Já os posts onde crítico o futebolista brasileiro sempre despertam paixões inflamadas. O curioso é que quem critica Neymar nos comentários parece ter lido as notícias sobre ele e parece acompanhar o futebol internacional. Já quem defende Neymar não apenas passa que não leu as reportagens como também não acompanha os campeonatos, e sim apenas Neymar, e de forma difusa, vaga.

Lembro que nas vésperas da Copa de 2018, postei uma crítica a Neymar e um político parnamirinense amigo meu comentou de maneira inflamada que o brasileiro era craque e iria ganhar a Copa e eu era injusto e antipatriota. Comentei com ele que Kane, De Bruyne e Hazard, por exemplo, vinham jogando muito mais que o brasileiro e ele quase me crucificou. Percebi que o amigo simplesmente não assistia aos campeonatos. Meses depois na Copa, Kane foi o artilheiro e chegou à semifinal e, como lembramos, De Bruyne e Hazard ajudaram a Bélgica a eliminar o Brasil de Neymar com facilidade. Problema da paixão irracional é que ela quase sempre é confrontada com a realidade.

Realidade no Brasil atualmente é a situação da Amazônia e Pantanal em processo de queimadas e destruição, o que vem indignando a comunidade internacional. E a Economia que não cresce, a inflação que parece bater à porta. E para os apaixonados ou nada disso está acontecendo ou não é causado pelo governo Bolsonaro.

Sobre presidentes e futebolistas, o curioso é que, fazendo um paralelo com 2002, há dezoito anos atrás, por exemplo, tínhamos Lula presidente eleito do Brasil e Ronaldo Nazário (aka Femômeno) ganhando Copa do Mundo sendo artilheiro e craque, mas nem um nem outro despertava paixões tão incondicionais mesmo com os êxitos obtidos. Lula mesmo com os índices de aprovação e fazendo a Economia brasileira disparar (não é paixão nem opinião minha, são dados) sempre recebeu críticas até mesmo no partido e da Esquerda, e mesmo os apaixonados por ele apontavam possíveis críticas aqui e acolá, como a insistência do petista em se aliar ao PMDB. Já Ronaldo, mesmo já campeão do Mundo, não foi poupado do fracasso na Copa de 2006 e era tratado com frequência como “gordo” e “decadente” mesmo ainda em ótima média de gols. Enfim, eram admirados sem sem paixões incondicionais.

Claro que isso pode ser um sintoma dos tempos. Vivemos tempos, mais que líquidos, mas, complexos, midiáticos e de pós-verdade. Figuras mitômanas e manipuladoras como Trump estão no poder. Redes sociais – terreno onde Neymar e Bolsonaro são mestres – ditam o ritmo social mais que discursos, atos ou mesmo os fatos á vista de todos.

Mas, é preocupante. Paixão irracional é bacana de se curtir em filmes e livros, seja Romeu e Julieta ou Abelardo e Heloísa. Na vida real, a irracionalidade custa caro. Na verdade, está nos custando. É sem questionar e sem levar em consideração os fatos que construímos falsos mitos (ops) e permitimos que democracias morram.

 

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