DEMOCRACIA

Bolsonaro faz ameaças e não desce do palanque na posse

Mesmo depois de escândalos com laranjas e denúncias de caixa dois durante a campanha, o combate à corrupção continua no discurso do novo presidente, Jair Bolsonaro (PSL). A fala oficial do representante da extrema-direita durante a posse dele e do vice, o general Hamilton Mourão, nesta terça-feira (1º), deu continuidade ao pouco que ele falou no processo eleitoral, incluindo os controversos combate à criminalidade, com liberação do porte de armas, e à ideologia nas escolas, inibindo o pensamento crítico.

“Vamos unir o povo, valorizar a família, respeitar as religiões e nossa tradição judaico-cristã, combater a ideologia de gênero, conservando nossos valores. O Brasil voltará a ser um país livre de amarras ideológicas”, ameaçou.

A fala durou 10 minutos e contou com apelo ao Congresso Nacional, onde esteve por 28 anos como deputado federal, e a quem acenou, quando ao assinar termo de posse disse “tô casando com vocês”.

“Aproveito este momento solene e convoco, cada um dos Congressistas, para me ajudarem na missão de restaurar e de reerguer nossa Pátria, libertando-a, definitivamente, do jugo da corrupção, da criminalidade, da irresponsabilidade econômica e da submissão ideológica”, disse, afirmando que juntos realizarão reformas estruturantes nas contas públicas.

Presidente do Congresso Nacional, senador Eunício Oliveira (MDB-CE) sinalizou de forma positiva. Fez elogios à eleição de Bolsonaro, ao dizer que representa a esperança do povo brasileiro e ressaltou a importância do diálogo na política.

“Estão hoje nesta Mesa os representantes máximos dos Poderes de nossa nação. E esses poderes, independentes e harmônicos, deverão trabalhar, juntos, para o bem deste país. Isso porque, quando as regras vigentes não permitirem que se faça o que o senhor eventualmente pretenda, será necessária alteração legislativa pelo Congresso Nacional, com o controle de constitucionalidade do Supremo e a permanente fiscalização do Ministério Público”, disse o presidente do Congresso.

A “democracia” também ressurgiu dos conflitos com os opositores. Apoiador confesso da ditadura brasileira e tortura, Bolsonaro foi continuamente acusado de ser uma ameaça à democracia. Desta vez a palavra é usada por ele a seu próprio favor. “Uma de minhas prioridades é proteger a democracia brasileira”, disparou.

No segundo discurso, de 9 minutos, no Palácio do Planalto, voltou a flertar com o autoritarismo e disse que seu governo irá “restabelecer a ordem” no país e “se libertar do socialismo”, da “inversão de valores” e do “politicamente correto”.

Chegou ao ponto de dizer que a bandeira só será vermelha (se referindo a cor que representa a esquerda) se for de sangue. Ao mesmo tempo, falou de paz e prosperidade ao povo.  

Ele disse ainda que a prioridade é proteger “pessoas de bem” e dar direito de defesa a elas e aos agentes de segurança.

Em vários momentos mencionou Deus e a família e conclamou os brasileiros a lutarem contra ideias contrárias ao modelo familiar que ele reconhece, em um discurso moralista e excludente.

“Não podemos deixar que ideologias nefastas venham a dividir os brasileiros. Ideologias que destroem nossos valores e tradições, destroem nossas famílias, alicerce da nossa sociedade. E convido a todos para iniciarmos um movimento nesse sentido. Podemos, eu, você e as nossas famílias, todos juntos, reestabelecer padrões éticos e morais que transformarão nosso Brasil”.

Surpresas

Mas nem tudo que aconteceu durante a cerimônia estava no script. Mesmo com os avisos de boicote à imprensa, os profissionais não esperavam o péssimo atendimento que relataram por parte do cerimonial. “É uma posse diferenciada e todos têm que entender isso, disse uma assessora, de acordo com a jornalista Mônica Bergamo.

De fato, houve muitas novidades durante esta tarde na capital federal. O desfile no início do rito também era uma dúvida para quem acompanhava. Dois esquemas de segurança foram montados para que Bolsonaro desfilasse pelas ruas de Brasília com a primeira dama, Michelle Bolsonaro.

Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Ag Brasil

A primeira opção era em carro blindado e a alternativa escolhida foi o desfile aberto no Rolls Royce, conversível preto que pertence à República desde 1952.

O filho a quem o presidente chama de Pitbull, o vereador do Rio de Janeiro Carlos Bolsonaro (PSC), acompanhou o cortejo sentado atrás do casal, tal como um cão de guarda. Carlos atuou diretamente na Comunicação da campanha presidencial vitoriosa e o fato de estar no carro representa também a influência que tem sobre o pai.

Foto: Marcelo Camargo/Ag. Brasil

A primeira-dama também teve seus minutos de destaque. Fez um discurso público em Libras, no parlatório do Palácio do Planalto, para demonstrar engajamento em causas com pessoas com deficiência.

A quebra de protocolo incluiu uma intérprete que chorou lendo o discurso de Michele. E ainda beijos da primeira-dama no marido.

As demonstrações de respeito e consideração do novo presidente param na família. Jair Bolsonaro não aplaudiu o anúncio de alguns integrantes da seleta mesa de cerimônia, entre eles o vice-presidente General Mourão, que teve voz apenas durante o juramento e o fez gritando.

Confira a íntegra do discurso de Jair Bolsonaro no Congresso Nacional:

Senhoras e Senhores,

Com humildade, volto a esta Casa, onde, por 28 anos, me empenhei em servir à nação brasileira, travei grandes embates e acumulei experiências e aprendizados, que me deram a oportunidade de crescer e amadurecer.

Volto a esta Casa, não mais como deputado, mas como Presidente da República Federativa do Brasil, mandato a mim confiado pela vontade soberana do povo brasileiro.

Hoje, aqui estou, fortalecido, emocionado e profundamente agradecido, a Deus pela minha vida e aos brasileiros, por confiarem a mim a honrosa missão de governar o Brasil, neste período de grandes desafios e, ao mesmo tempo, de enorme esperança.

Aproveito este momento solene e convoco, cada um dos Congressistas, para me ajudarem na missão de restaurar e de reerguer nossa Pátria, libertando-a, definitivamente, do jugo da corrupção, da criminalidade, da irresponsabilidade econômica e da submissão ideológica.

Temos, diante de nós, uma oportunidade única de reconstruir nosso país e de resgatar a esperança dos nossos compatriotas.

Estou certo de que enfrentaremos enormes desafios, mas, se tivermos a sabedoria de ouvir a voz do povo, alcançaremos êxito em nossos objetivos, e, pelo exemplo e pelo trabalho, levaremos as futuras gerações a nos seguir nesta tarefa gloriosa.

Vamos unir o povo, valorizar a família, respeitar as religiões e nossa tradição judaico-cristã, combater a ideologia de gênero, conservando nossos valores. O Brasil voltará a ser um país livre de amarras ideológicas.

Pretendo partilhar o poder, de forma progressiva, responsável e consciente, de Brasília para o Brasil; do Poder Central para Estados e Municípios.

Minha campanha eleitoral atendeu ao chamado das ruas e forjou o compromisso de colocar o Brasil acima de tudo, e Deus acima de todos.

Por isso, quando os inimigos da pátria, da ordem e da liberdade tentaram pôr fim à minha vida, milhões de brasileiros foram às ruas. Uma campanha eleitoral transformou-se em um movimento cívico, cobriu-se de verde e amarelo, tornou-se espontâneo, forte e indestrutível, e nos trouxe até aqui.

Nada aconteceria sem o esforço e o engajamento de cada um dos brasileiros que tomaram as ruas para preservar nossa liberdade e democracia.

Reafirmo meu compromisso de construir uma sociedade sem discriminação ou divisão.

Daqui em diante, nos pautaremos pela vontade soberana daqueles brasileiros: que querem boas escolas, capazes de preparar seus filhos para o mercado de trabalho e não para a militância política; que sonham com a liberdade de ir e vir, sem serem vitimados pelo crime; que desejam conquistar, pelo mérito, bons empregos e sustentar com dignidade suas famílias; que exigem saúde, educação, infraestrutura e saneamento básico, em respeito aos direitos e garantias fundamentais da nossa Constituição.

O Pavilhão Nacional nos remete à “ORDEM E AO PROGRESSO”.

Nenhuma sociedade se desenvolve sem respeitar esses preceitos.

O cidadão de bem merece dispor de meios para se defender, respeitando o referendo de 2005, quando optou, nas urnas, pelo direito à legítima defesa.

Vamos honrar e valorizar aqueles que sacrificam suas vidas em nome de nossa segurança e da segurança dos nossos familiares.

Contamos com o apoio do Congresso Nacional para dar o respaldo jurídico aos policiais para realizarem seu trabalho.
Eles merecem e devem ser respeitados!

Nossas Forças Armadas terão as condições necessárias para cumprir sua missão constitucional de defesa da soberania, do território nacional e das instituições democráticas, mantendo suas capacidades dissuasórias para resguardar nossa soberania e proteger nossas fronteiras.

Montamos nossa equipe de forma técnica, sem o tradicional viés político que tornou nosso estado ineficiente e corrupto.
Vamos valorizar o Parlamento, resgatando a legitimidade e a credibilidade do Congresso Nacional.
Na economia traremos a marca da confiança, do interesse nacional, do livre mercado e da eficiência.

Confiança no compromisso de que o governo não gastará mais do que arrecada e na garantia de que as regras, os contratos e as propriedades serão respeitados.

Realizaremos reformas estruturantes, que serão essenciais para a saúde financeira e sustentabilidade das contas públicas, transformando o cenário econômico e abrindo novas oportunidades.

Precisamos criar um ciclo virtuoso para a economia que traga a confiança necessária para permitir abrir nossos mercados para o comércio internacional, estimulando a competição, a produtividade e a eficácia, sem o viés ideológico.
Nesse processo de recuperação do crescimento, o setor agropecuário seguirá desempenhando um papel decisivo, em perfeita harmonia com a preservação do meio ambiente.

Da mesma forma, todo setor produtivo terá um aumento da eficiência, com menos regulamentação e burocracia.
Esses desafios só serão resolvidos mediante um verdadeiro pacto nacional entre a sociedade e os Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, na busca de novos caminhos para um novo Brasil.

Uma de minhas prioridades é proteger e revigorar a democracia brasileira, trabalhando arduamente para que ela deixe de ser apenas uma promessa formal e distante e passe a ser um componente substancial e tangível da vida política brasileira, com o respeito ao Estado Democrático.

A construção de uma nação mais justa e desenvolvida requer a ruptura com práticas que se mostraram nefastas para todos nós, maculando a classe política e atrasando o progresso.

A irresponsabilidade nos conduziu à maior crise ética, moral e econômica de nossa história.

Hoje começamos um trabalho árduo para que o Brasil inicie um novo capítulo de sua história.

Um capítulo no qual o Brasil será visto como um país forte, pujante, confiante e ousado.

A política externa retomará seu papel na defesa da soberania, na construção da grandeza e no fomento ao desenvolvimento do Brasil.

Senhoras e Senhores Congressistas,

Deixo esta casa, rumo ao Palácio do Planalto, com a missão de representar o povo brasileiro.

Com a benção de Deus, o apoio da minha família e a força do povo brasileiro, trabalharei incansavelmente para que o

Brasil se encontre com o seu destino e se torne a grande nação que todos queremos.

Muito obrigado a todos vocês.
BRASIL ACIMA DE TUDO!
DEUS ACIMA DE TODOS!

Foto: Lula Marques

Leia também o discurso proferido no Palácio do Planalto:

Amigas e amigos de todo o Brasil,

É com humildade e honra que me dirijo a todos vocês como Presidente do Brasil.
E me coloco diante de toda a nação, neste dia, como o dia em que o povo começou a se
libertar do socialismo, da inversão de valores, do gigantismo estatal e do politicamente correto.

As eleições deram voz a quem não era ouvido.
E a voz das ruas e das urnas foi muito clara.
E eu estou aqui para responder e, mais uma vez, me comprometer com esse desejo de
mudança.

Também estou aqui para renovar nossas esperanças e lembrar que, se trabalharmos
juntos, essa mudança será possível.

Respeitando os princípios do estado democrático de direito, guiados por nossa
Constituição e com Deus no coração, a partir de hoje, vamos colocar em prática o projeto que a
maioria do povo brasileiro democraticamente escolheu, vamos promover as transformações de
que o país precisa.

Temos recursos minerais abundantes, terras férteis abençoadas por Deus e um povo
maravilhoso.

Temos uma grande nação para reconstruir e isso faremos juntos.

Os primeiros passos já foram dados.

Graças a vocês, eu fui eleito com a campanha mais barata da história.

Graças a vocês, conseguimos montar um governo sem conchavos ou acertos políticos,
formamos um time de ministros técnicos e capazes para transformar nosso Brasil. Mas ainda há
muitos desafios pela frente.

Não podemos deixar que ideologias nefastas venham a dividir os brasileiros. Ideologias
que destroem nossos valores e tradições, destroem nossas famílias, alicerce da nossa sociedade.
E convido a todos para iniciarmos um movimento nesse sentido. Podemos, eu, você e
as nossas famílias, todos juntos, reestabelecer padrões éticos e morais que transformarão nosso
Brasil.

A corrupção, os privilégios e as vantagens precisam acabar. Os favores politizados,
partidarizados devem ficar no passado, para que o Governo e a economia sirvam de verdade a
toda Nação.

Tudo o que propusemos e tudo o que faremos a partir de agora tem um propósito
comum e inegociável: os interesses dos brasileiros em primeiro lugar.
O brasileiro pode e deve sonhar. Sonhar com uma vida melhor, com melhores condições
para usufruir do fruto do seu trabalho pela meritocracia. E ao governo cabe ser honesto e
eficiente.

Apoiando e pavimentando o caminho que nos levará a um futuro melhor, ao invés de
criar pedágios e barreiras.

Com este propósito iniciamos nossa caminhada. E com este espírito e determinação que
toda equipe de governo assume no dia de hoje.

Temos o grande desafio de enfrentar os efeitos da crise econômica, do desemprego
recorde, da ideologização de nossas crianças, do desvirtuamento dos direitos humanos, e da
desconstrução da família.

Vamos propor e implementar as reformas necessárias. Vamos ampliar infraestruturas,
desburocratizar, simplificar, tirar a desconfiança e o peso do Governo sobre quem trabalha e
quem produz.

Também é urgente acabar com a ideologia que defende bandidos e criminaliza policiais,
que levou o Brasil a viver o aumento dos índices de violência e do poder do crime organizado,
que tira vidas de inocentes, destrói famílias e leva a insegurança a todos os lugares.

Nossa preocupação será com a segurança das pessoas de bem e a garantia do direito de
propriedade e da legítima defesa, e o nosso compromisso é valorizar e dar respaldo ao trabalho
de todas as forças de segurança.

Pela primeira vez, o Brasil irá priorizar a educação básica, que é a que realmente
transforma o presente e o futuro de nossos filhos e netos, diminuindo a desigualdade social.

Temos que nos espelhar em nações que são exemplos para o mundo e que por meio da
educação encontraram o caminho da prosperidade.

Vamos retirar o viés ideológico de nossas relações internacionais.
Vamos em busca de um novo tempo para o Brasil e os brasileiros!

Por muito tempo, o país foi governado atendendo a interesses partidários que não o dos
brasileiros. Vamos restabelecer a ordem neste país.

Sabemos do tamanho da nossa responsabilidade e dos desafios que vamos enfrentar.

Mas sabemos aonde queremos chegar e do potencial que o nosso Brasil tem. Por isso vamos dia
e noite perseguir o objetivo de tornar o nosso país um lugar próspero e seguro para os nossos
cidadãos e uma das maiores nações do planeta.

Podem contar com toda a minha dedicação para construir o Brasil dos nossos sonhos.
Agradeço a Deus por estar vivo e a vocês que oraram por mim e por minha saúde nos
momentos mais difíceis.

Peço ao bom Deus que nos dê sabedoria para conduzir a nação.

Que Deus abençoe esta grande nação.
Brasil acima de tudo, Deus acima de todos. 

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Isabela Santos
Isabela Santos é jornalista e repórter da agência Saiba Mais

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