DEMOCRACIA

Bolsonaro faz discurso ideológico, paranoico e mentiroso na ONU

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Do portal Mídia 4P

O presidente Jair Bolsonaro abriu, na manhã desta terça-feira, 24, os debates gerais da 74ª Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova York. Pressionado pela má repercussão que o seu governo acumulou em nove meses, especialmente após as queimadas na Amazônia, Bolsonaro chegou vestindo um colar indígena. Mas, em seu discurso de meia hora, fez mais do mesmo: destilou sua paranoia com o socialismo, atribuiu os problemas enfrentados pelo país à esquerda, elogiou a sua gestão, exaltou Moro, citou a Bíblia, classificou a cobertura da mídia sobre o seu governo como mentirosa e não perdeu a chance de mandar uma indireta ao presidente da França, Emmanuel Macron, e nem de bajular Donald Trump.

“Apresento vocês ao novo Brasil, que ressurge depois de estar à beira do socialismo”, disse logo nos primeiros minutos de fala. “No meu governo, o Brasil vem trabalhando para reconquistar a confiança do mundo, diminuindo o desemprego, a violência e o risco para os negócios por meio da desburocratização, desregulamentação e pelo exemplo”, acrescentou.

Bolsonaro disse que o país esteve próximo do socialismo, o que o colocou em grave recessão econômica, com corrupção generalizada, altas taxas de criminalidade e “ataques ininterruptos aos valores familiares”. Elogiou seu governo por ter parado de contribuir com a “ditadura cubana”, através do fim da cooperação com os médicos cubanos, que segundo o presidente faziam trabalho escravo no Brasil. Ele ainda culpou o socialismo pela crise na Venezuela e elogiou o exército brasileiro pela operação de acolhimento aos venezuelanos, “elogiada internacionalmente” segundo ele. Bolsonaro ainda destacou o trabalho que vem desenvolvendo com os americanos quanto a crise no vizinho sul-americano.

O presidente do Brasil não esqueceu de citar o Foro de São Paulo, segundo ele uma conspiração de Fidel Castro, Lula e Hugo Chávez para espalhar o socialismo pela América Latina. “Ainda continua vivo e tem que ser combatido”, alertou.

Economia reagindo e Amazônia intacta

Bolsonaro disse que o objetivo do seu governo é se aproximar de outros países que se desenvolveram e consolidaram as suas democracias. Ele também defendeu o livre mercado, afirmando que não é possível haver liberdade política sem liberdade econômica. “O livre mercado, as concessões e as privatizações já se fazem presentes hoje no Brasil”, anunciou à plateia, garantindo que a economia brasileira está reagindo. “A abertura, a gestão competente e os ganhos de produtividade são objetivos imediatos do nosso governo”, ressaltou.

O presidente ainda garantiu que o governo dele tem compromisso com a preservação do meio ambiente e o desenvolvimento sustentável, sendo o Brasil, segundo ele, um dos países que mais protege o meio ambiente. “A Amazônia está praticamente intocada”, afirmou, responsabilizando o clima da época e os índios pelas últimas queimadas. Disse que o país não vai aumentar as áreas indígenas demarcadas e que a visão de uma única liderança indígena, Raoni, não representa os índios como um todo, servindo a interesses internacionais na Amazônia, com a cumplicidade de pessoas apoiadas por ONGs.

Ele ainda classificou como sensacionalista a cobertura da mídia internacional sobre as queimadas na Amazônia e mandou uma indireta a Macron. “Um ou outro país, em vez de ajudar, embarcou nas mentiras da mídia e se portou de forma desrespeitosa e com espírito colonialista”, criticou.

Repercussão nas redes

Entre memes, clipes de melhores momentos do discurso e vários comentários de aprovação e principalmente de desaprovação, algumas personalidades comentaram, em suas redes sociais, o conteúdo do pronunciamento do presidente brasileiro.

A surpresa ficou por conta do governador de São Paulo, João Dória (PSDB), que à coluna de Mônica Bergamo classificou a performance de seu ex-aliado nas eleições de 2018 e possível adversário em 2022 como inadequada, inoportuna e de péssima repercussão internacional. “O mundo inteiro repercutiu pessimamente a intervenção do presidente na Assembleia Geral da ONU (…) faltou bom senso e faltou humildade”, disse.

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influencer e diretor jornalístico da Rádio Jovem Pan, Felipe Moura Brasil, fez piada com a fala de Bolsonaro. “O socialismo está dando certo na Venezuela. Todos estão pobres e sem liberdade”, atribuindo as aspas ao presidente. Outro apoiador do governo, Luciano Hang, elogiou o presidente porque “apresentou o novo Brasil”. “Ressurgimos das cinzas após estar à beira do comunismo. Estamos no caminho certo”, disse o dono da Havan.

Para o professor de Relações Internacionais da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Oliver Stuenkel, a China se beneficiará desse discurso do presidente brasileiro: “Quanto mais o Brasil se isolar do Ocidente, onde a sociedade civil o considerará um vilão global pelo restante da sua presidência, mais Pequim se beneficiará dessa oportunidade para aprofundar os laços”, opinou. Na avaliação do jornalista Ricardo Noblat, os filhos do presidente estiveram por trás desse pronunciamento. “Discurso de um radical, até aqui, que a ONU não esperava ouvir. (…) O ´gabinete do ódio´ (Carlos Bolsonaro e garotos como ele) ditou o tom do discurso e venceu mais uma vez”, afirmou em sua conta no Twitter.

Aos políticos de esquerda só restaram a vergonha e a indignação com a fala de Jair Bolsonaro. O deputado federal Marcelo Freixo (PSOL-RJ) criticou a falta de postura enquanto presidente da nação e disse que Bolsonaro se comportou como um líder fanático que só se dirige aos seus seguidores. “É um falso patriota. Mentiu no discurso da ONU, ofendeu o cacique Raoni e os indígenas, atacou a imprensa. Confirmou ao mundo que é inimigo da democracia”, enumerou Freixo. A deputada federal e líder da Minoria na Câmara dos Deputados, Jandira Feghali (PCdoB/RJ), foi irônica. “A gente até acha Trump moderado depois de ouvir Bolsonaro”, escreveu em sua conta no Twitter.

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