DEMOCRACIA

Bolsonaro fez um ataque por dia à imprensa durante nove meses de governo em 2020

Entre janeiro e setembro deste ano, o governo de Jair Bolsonaro fez uma média de um ataque por dia à imprensa. Ao todo, foram 299 agressões em um período de nove meses. O levantamento foi realizado pela Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) levando em conta as falas públicas do presidente, além de postagens em redes sociais, lives, entrevistas e declarações oficiais.

O monitoramento aponta que Bolsonaro tentou descredibilizar a imprensa, pelo menos, 259 vezes. Em outros 38 casos o ataque foi feito diretamente à pessoa do jornalista, que estava em atividade, e em duas situações houve ataques contra a própria Fenaj, o que foi classificado como ataques a organização sindical.

No dia 23 de agosto, quando questionado sobre um depósito de R$89 mil na conta da primeira-dama, Michelle Bolsonaro, realizado por Fabrício Queiroz, que é suspeito de operar um esquema de “rachadinha” no gabinete do filho do presidente, atual senador e então deputado estadual pelo Rio de Janeiro, Flávio Bolsonaro, o presidente respondeu ao repórter: “Vontade de encher sua boca na porrada… seu safado”. A declaração causou uma grande reação nas redes sociais, com a repetição da pergunta por famosos e anônimos e serviu de mote até para a música Micheque, da banda Detonautas, que até esta quarta (14) tinha quase três milhões de visualizações no youtube.

A relação do trabalho jornalístico com os governos é sempre muito conflituosa, mas nessa dimensão como acontece no governo Bolsonaro, o trabalho do jornalismo é colocado como inimigo político. A Fenaj teve que ser reativa no sentido de fazer manifestações públicas sobre diversos tipos de agressões verbais que o presidente desempenhava contra o trabalho jornalístico. Nós entendemos as críticas dos governos às posturas editoriais dos veículos, mas o que o governo Bolsonaro ataca é a razão de ser do jornalismo, apurar as informações, levar isso à população. Enquanto presidente, ele deve ter seus atos publicizados de maneira transparente e ele está sempre questionando isso. O monitoramento, realizado com dados oficiais, aponta que Bolsonaro faz essas ações contra a produção jornalística, contra a prerrogativa do sigilo de fonte, contra todos os aspectos que fazem do jornalismo o mediador das informações. Ele diz que a imprensa mente, omite e, nesse contexto, se coloca como portador da verdade”, denuncia Paula Zarth Padilha, Diretora executiva da FENAJ e uma das responsáveis pelo monitoramento.

Em seu site, a Fenaj disponibiliza uma linha do tempo com as ocorrências e documentos correspondentes às agressões. O monitoramento continua sendo realizado todos os meses e divulgado trimestralmente.

O levantamento mostrou que o maior responsável pelos casos de violência contra os jornalistas é o presidente Jair Bolsonaro. No contexto da pandemia, ele redirecionou o discurso para atribuir ao jornalismo o pânico pelo coronavírus, ele nunca entra no mérito da gravidade da doença. Constrói uma narrativa de que o jornalismo é responsável pelo pânico da população, retirando do discurso dele a importância da gravidade da doença, a quantidade de mortos. Em 2020 tivemos episódios notórios, principalmente na porta do Alvorada, em que os jornalistas eram confinados em um cercadinho, obrigados a exercer seu trabalho naquele local para cumprir a função pública de dar transparência aos atos da presidência e algumas questões ocorreram. Bolsonaro xingava, chegou a levar um humorista para distribuir banana e chamou os jornalistas de urubus. Além de descredibilizar a imprensa, ele ataca profissionais jornalistas e veículos de mídia que ele nomeia. Com isso, ele estimula seus apoiadores a também atacar os profissionais e a questionar o trabalho desenvolvido pela imprensa. A Fenaj entende que essas narrativas do presidente são parte do seu governo de colocar a imprensa como inimigo político e não como uma das forças constitucionais que promovem o direito à população de acesso à informação”, critica Paula Zarth Padilha.

ONU

Mas, as agressões não ficaram restritas ao Brasil. Em seu discurso de abertura da 75ª Assembleia Geral da ONU, no dia 22 de setembro, Bolsonaro culpou os jornalistas do Brasil e demais países pelas consequências da pandemia do novo coronavírus.

Como aconteceu em grande parte do mundo, parcela da imprensa brasileira também politizou o vírus, disseminando o pânico entre a população. Sob o lema ‘fique em casa’ e ‘a economia a gente vê depois’, quase trouxeram o caos social ao país.”, disse Bolsonaro, quando o Brasil já ultrapassava as 100 mil mortes pela covid-19.

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