OPINIÃO

Bolsonaro: O Rei Lear tupiniquim sem nobreza, sem auto-crítica e sem Cordelia

Gênio maior das letras da Humanidade para muita gente, eu incluso, William Shakespeare vem servindo há quase quinhentos anos como parâmetro e analogia para uma infinidade de casos e fatos do comportamento humano. É de praxe comparar acontecimentos e posturas com situações e personagens de “Hamlet”, “Romeu e Julieta”, “Sonhos de uma noite de verão”, “Otelo” etc.

Muito natural, portanto, que em uma conversa com amigos tenhamos tentado encontrar similaridades entre “Reai Lear”, um dos colossos do bardo inglês, e o Governo Bolsonaro, que de colossal não tem nada, mas se mostra uma tragédia.

O ponto de partida da analogia é que ambos os poderosos, Lear e Bolsonaro, tem três filhos/filhas e a relação entre eles desencadeia tudo de mal na história.

O plot de “Rei Lear” é bem conhecido: o rei convoca suas três filhas, Goneril, Regan e Cordélia, e os maridos das duas primeiras, os duques de Cornwall e Albany respectivamente para, por causa da idade, repartir o reino entre as três, em função da quantidade de amor que elas sentem pelo pai. Goneril e Regan se desdobram em adulações, enquanto a caçula Cordelia diz que ama o pai como uma filha deve fazê-lo e pronto. Por isso, é deserdada pelo pai. A partir daí as duas filhas em posse do reino batalham entre si e esquecem o pai, que em meio a uma quase loucura se dá contra da própria arrogância e soberba e do falso amor das filhas, excetuando justamente Cordelia.

Certo, convenhamos que a saga do clã Bolsonaro é menos majestosa, mas, permite lá suas analogias. O “mito” se sente um rei e não um presidente, isso já pudemos perceber. E não se furta a ter os três filhos políticos (herdeiros, para ele) sempre gravitando em torno de suas ideias e particularidades. Sabemos que Eduardo e Flávio dizem amém para qualquer decisão e posicionamento do pai, sem questionamentos, com a adulação tão cara a Regan e Goneril, afinal, há um império (eleitoral, inclusive) a herdar e é de bom tom não contrariar as esquisitices do velho pai.

Mas há o caçula (na política, diga-se). Carlos, diferentemente dos irmãos mais velhos, é questionador e insubmisso. Talvez ame o velho pai mais que os irmãos interesseiros (como Cordelia amava mais Lear que as irmãs), e paradoxalmente aceite o conflito com o progenitor, independente do que possa perder. Pelo menos essa é a dinâmica que vemos do Carluxo no Twitter, onde é um misto de metralhadora verbal, Nostradamus e bomba-relógio.

Mas, alto lá. As analogias entre o clã Bolsonaro e Lear começam a terminar por aqui. Carluxo não é Cordelia. Não tem a serenidade de se afastar e silenciar para mostrar a razão e o amor ao pai.

Tampouco, Bolsonaro é Lear. O inglês, vendo o caos, se reencontrou consigo mesmo e percebeu que havia sido arrogante e tolo, vaidoso e precipitado. Bolsonaro, traições e problemas à parte, não consegue sair de sua bolha mental e tudo indica que jamais sairá. Não consegue fazer auto-críticas e embora tenha, como Lear, bobos da corte a seu redor, não consegue ouví-los.

Mas, diga-se de passagem que o bobo da corte de Lear era um sábio. Os de Bolsonaro são limitados e arrogantes, e se auto-declaram filósofos ou ocupam ministérios.

Como vai acabar a saga de Bolsonaro/Lear não se sabe ainda. Talvez sem o reino, como na peça. Talvez em conflito com os filhos.

O que se sabe é que o Brasil atual é uma tragédia shakespereana.

 

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