OPINIÃO

Bom dia, loucura !

Era uma manhã bonita de sol e de um céu azul bem anil. Ele ia andando apressado por uma calçada no centro da cidade quando de repente estancou o passo e pensou: vou morrer.

Tentou retomar o passo, sentindo-se um pouco desequilibrado, e achando tudo ao redor muito esquisito. Que estranheza era aquela? Estaria ele com a visão turva ou era impressão sua? E por que o coração parecia acelerar cada vez mais?

Parou novamente. Meu Deus, estou sem ar, estou sem ar…

Encostou-se em um muro. Precisava manter a calma, tinha que se recompor… As pessoas passavam à sua frente indiferentes, sem ver e muito menos se doer com sua agonia.

Mas por que essa angústia súbita assim? Estava tão bem, tão normal há poucos minutos…

Andou um pouco mais, tentando respirar fundo enquanto seguia a caminho de uma praça nas proximidades. Achou um banco vago e sentou-se procurando não cair. Nenhum vendedor de água ali perto. Seria um pico de pressão alta? Seria um surto de ansiedade?

Desabotoou dois botões da camisa e tentou controlar a respiração ofegante.

Vou morrer, pensou novamente.

Foi quando chegou uma senhora e sentou-se ao seu lado.

– Bom dia!

Ele a olhou meio de soslaio, tentando solfejar uma resposta. Ela não se deu por achada e nem perdida e prosseguiu, muito simplesmente:

– É assim mesmo, meu filho, quando ela chega, haja coração!

Ele aí olhou diretamente para ela, que se pôs a lixar as unhas distraidamente. Era uma senhora já pelos seus setenta anos. Vestia roupas velhas e puídas, mas que conservavam um certo ar de dignidade. Uma saia longa de um vermelho meio desbotado e uma camisa de crochê que em algum dia remoto fora branca.

– Ela quem? – ele quis saber, até mesmo para tentar esquecer seu mal-estar.

– Ela, homem de Deus! – respondeu meio enfadada, sem parar com a lixa de unhas.

Ele observava o movimento ao redor, sentindo-se acalmar aos poucos. A senhora ao lado exalava um cheiro misto de sabonete antigo com cigarro que era estranhamente bom.

A mulher então parou com a lixa, virou-se para ele e encarou-o, decidida:

– Ela está sempre por aí, rondando tudo e todos. E se a gente deixar, ela záz! engole a gente!

– O que fazer, então? – ele perguntou, achando a cena divertida e sentindo a respiração voltar ao normal.

A mulher levantou-se, aprumando a velha saia:

– Você simplesmente dá bom dia e segue em frente.

E foi embora do jeito como chegou. Com o céu ainda azul.

Bem anil.

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