OPINIÃO

Boulos, o vencedor  

Guilherme Boulos, do PSOL de São Paulo, foi um dos grandes vencedores desta eleição.

Não, não estou viajando nem brincando de Poliana. Tampouco quero trabalhar aqui com “vitórias morais” à moda dos filmes épicos de Hollywood onde o mocinho ainda que morto, esquartejado, torturado, sai como “vencedor” pelo prisma moral.

Aqui neste espaço se trabalha com números e fatos, racionalidade e cérebro.

Portanto, vamos aos números. Boulos teve 2.168.109 votos (40,62% dos válidos) no segundo turno, contra os 3.169.121 votos (59,38%) do vitorioso Bruno Covas.

Sim. Números não mentem. Mas podem ser observados sob contextos.

O contexto que me interessa é que Boulos, aos 38 anos e em um partido de Esquerda ainda recente e em processo de consolidação, chegou ao segundo turno na maior cidade do Brasil e da América Latina contra candidatos com densidade eleitoral e experiência (Celso Russomano), candidatos de Direita (Joice Hasselman e Arthur do Val) e candidato do partido que já chegou à Prefeitura por três vezes e que elegeu dois presidentes da República nos últimos 20 anos (Jilmar Tatto, do PT).

Mais que isso, conquistou tal feito sem recursos financeiros de dimensão e contra o candidato já no cargo e apoiado pelo governador e pelo partido que domina o Governo do Estado há 25 anos (PSDB).

Ainda mais que isso e que os números. Boulos mostrou que é possível fazer política com uma forma de comunicação direta com o eleitorado, dinâmica, moderna, sintonizada com as novas mídias e com a tecnologia.

A campanha de Boulos, assumidamente progressista, aceitou dialogar com os diferentes. Aceitou ser questionada e oferecer respostas. Respostas diretas, não frases feitas que vitimam a Esquerda por vezes nem uma ideologização sem pé na realidade.

Venho debatendo isso há meses com pessoas queridas e mesmo com gente no espectro político oposto: parte do eleitorado não quer saber de debates ideológicos ou bandeiras de luta teóricas. Lula Livre é uma pauta nobre, mas o jovem urbano quer saber sobre emprego, cultura, educação e segurança básica, como sair de casa e saber que vai voltar para ela.

Boulos assimilou essa tenência. Percebeu mais rápido a possibilidade de novos ventos e se antecipou à parte dos medalhões da Esquerda que parecem petrificados em uma maneira de fazer política que tende a morrer.

Ironicamente, a Extrema-direita bolsonarista que entendeu o mecanismo das redes sociais em 2018 e com elas elegeu Bolsonaro, também se perdeu nesta eleição, debruçada sobre uma “guerra cultural” inexistente e um peso ideológico desconectado com a realidade urbana. Tanto que associar Boulos à Cuba, Venezuela não impediu que ele tivesse dois milhões de votos. O paulistano não tem medo de guerrilheiros cubanos mas sim de não conseguir emprego e do aumento do preço das tarifas de ônibus.

Boulos pode ser a tal renovação da Esquerda que tanto vem sendo falada em um cenário ainda dominado por Lula, cuja importância histórica não se discute nem em sonho, mas, que para parte do eleitorado, principalmente mais jovem, faz parte da “política tradicional” tanto quanto José Sarney ou Renan Calheiros. Lembremos que toda uma geração nasceu com Lula e o PT já no poder.

Enfim, a votação maiúscula de Boulos assustou, sim, a Direita e mostra um caminho para a Esquerda. Não que Boulos tenha chances reais de ser eleito presidente em 2022, até mesmo uma candidatura dele eu consideraria sem noção e sem chances reais, mas, o caminho está apontado, enquanto conteúdo e forma. Boulos perdeu, mas, venceu, saiu gigante da campanha. Esperemos o desenrolar dos acontecimentos.

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