OPINIÃO

Brasil: barata vendendo chinela

Em tempos de fake news temos assistido a situações inusitadas. O absurdo virou referência. Vivemos um tempo no qual o personagem kafkiano Gregor Samsa seria um habitante da lógica instalada no país. É um tempo no qual o futuro ministro das Relações Exteriores tem afirmado que a culpa da miséria do mundo são o globalismo e o marxismo. Esta bizarrice deveria ser frontalmente contestada, entretanto, passa a ser tagarelada na mídia e nas rodas políticas como algo normal. A idiotia da frase é tanta que ignora a primeira mundialização e transformações econômicas e culturais iniciadas por Cristóvão Colombo em 1492. Um retrocesso civilizatório dada a incultura e conotação ideológica numa futura política externa do Brasil.

O absurdo segue a lógica do eleito e chefe do ministro bizantino, que tem dito pérolas próprias de uma idade média no decorrer de sua trajetória política, como por exemplo: “Seria incapaz de amar um filho homossexual” (2018), “Vamos fuzilar a petralhada aqui do Acre”. “Já que gosta tanto da Venezuela, essa turma tem de ir para lá” (2018).

As eleições de 2018 foram paradigmáticas de concepções como tais, além de instituir o rumor, o boato e a mentira como verdades. A pessoa neste regime de mentira como verdade não questiona e reproduz a manada. Exemplo cabal foi a propagação de mensagens sobre “kit gay” que seria distribuído nas escolas, caso o candidato da chamada esquerda fosse eleito. O WatsApp foi o meio mais eficaz deste tipo de comunicação. Virou uma espécie de casta emocional de grupos na qual mensagens escritas, de áudio e imagens contagiaram a vida social. Uma falta de parcimônia e respeito diante do que conquistamos como direitos humanos e reconhecimento das minorias. Sem falarmos da semiótica de campanha que mobilizou símbolos bélicos, sobretudo, a partir das mãos que simulavam armas. Curiosamente inverteram o sentido comunicacional do conhecido “L” de Lula para uma arma de fogo.

Devemos resistir a este cenário obscurantista. O livro será arma preventiva ao ignorancídeo generalizado. Nestes tempos de Twitter, Facebook, Instagram e WatsApp, muitas vezes, para que o absurdo e a mentira se tornem verossímeis, usam mensagens curtas e descontextualizadas. É impossível pensar nesta lógica. É preciso que recuperemos a ruminação da leitura como aeróbica para os neurônios e façamos dos espaços de cultura (bibliotecas, livrarias, museus, cinemas, teatros) as casamatas da criatividade e da rebeldia. Professores e artistas deverão ser protagonista e não poderão se curvar diante do soberano e de seus auxiliares incultos. Caso contrário, presenciaremos baratas fazendo propaganda de chinelas, conforme palavras de um colega ao analisar o Brasil atual.

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Alex Galeno
Alex Galeno é cientista social, professor da UFRN e escreve às terças-feiras para a agência Saiba Mais

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