CIDADANIA

Brasil perde a ternura de Mery Medeiros, um dos últimos remanescentes das Ligas Camponesas no RN

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O Brasil perdeu o escritor, militante comunista, ex-dirigente sindical, ativista dos Direitos Humanos e defensor da democracia e das liberdades Mery Medeiros da Silva. Ele morreu na quarta-feira (8), aos 77 anos, vítima de infarto, em Nova Cruz, município do interior do Rio Grande do Norte para onde a família havia se mudado há pouco tempo em razão da pandemia do novo Coronavírus. Deixa a esposa Dorinha e o filho Jean. Nos últimos meses, Mery já vinha apresentando problemas na memória. O velório e sepultamento acontecem nesta quinta-feira (9), em Nova Cruz.

Mery Medeiros era um dos últimos remanescentes no Estado potiguar das Ligas Camponesas, o principal movimento rural de enfrentamento aos militares durante a ditadura. Ao lado do amigo e ex-deputado Floriano Bezerra, mobilizou trabalhadores no campo e fundou sindicatos e associações que fortaleceram a luta dos agricultores e agricultoras no setor rural. Aos 16 anos de idade, já era orador da Liga e conviveu com Francisco Julião, fundador e expoente do movimento:

– Aos 16 anos de idade ele já era orador das Ligas Camponeses. É um cara que acompanhava Floriano Bezerra, que já era deputado e foi fundador das Ligas no Rio Grande do Norte. Às vezes você pode ser um líder, mas é muito difícil você ser uma cara que constrói pontes. E Mery foi esse cara”, destaca Roberto Monte, amigo que atuou ao lado de Mery Medeiros na Associação Norteriograndense de Anistiados Políticos.

A amizade entre Roberto e Mery tem aproximadamente 30 anos. Dono do maior arquivo sobre política, democracia e direitos humanos no Rio Grande do Norte, Roberto reverencia o amigo e o reconhece como “uma enciclopédia”. Através de Mery, Monte conheceu detalhes e bastidores das histórias das Ligas Camponesas e se aproximou de vários personagens que dedicaram a vida às causas sociais. A retribuição vinha também através da pesquisa.

Um passeio marcante para Roberto Monte foi a ida com Mery Medeiros ao arquivo público do Estado, onde o militante teve acesso a documentos pessoais que ele não ainda não tinha. Uma das visitas aconteceu na companhia de Anacleto Julião, filho de Francisco Julião, ícone maior das Ligas Camponesas. Monte registrou o momento e pela primeira vez publica as fotos do reencontro de Mery com parte de sua própria história:

–  Através de Mery tive acesso também a Carlos Lima, a Ubirajara Macêdo… essa ida de Mery ao arquivo público do Estado foi demais. Ele viu documentos que nem sabia que existiam. E Mery era uma enciclopédia, lembrava de episódios, de datas, tinha tudo gravado na memória”, conta.

Mery Medeiros ao lado de Anacleto Julião, filho de Francisco Julião e fundador das Ligas Camponesas (foto: acervo Roberto Monte)

Natural do distrito de Regomoleiro, em São Gonçalo do Amarante, Mery Medeiros dedicou a maior parte da vida à luta em defesa da democracia e dos Direitos Humanos. Dirigente do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), foi preso quatro vezes pelos militares durante a ditadura e reconhecido como o principal porta-voz de familiares e desaparecidos políticos. Seguiu na luta pela Anistia, se engajou na campanha pelas eleições Diretas e teve papel destacado no resgate da memória das lutas populares.

– Nessa luta em defesa dos anistiados, é preciso ter paciência com os familiares porque envolve questões muito barra pesadas de violência, tortura. E Mery era um cara tranquilo, paciente, nunca levantava a voz, mantinha sempre o mesmo tom. Ele parecia uma um avó que eu tinha. Quando eu precisava de algum caminho, eu procurava essa minha avó porque ela sempre me apontava. O Mery era assim, eu sempre o procurava quando precisava de alguma coisa e ele sempre foi muito generoso”, lembra Monte, que dividiu a direção da associação dos anistiados com Mery e Antônio Capistrano.

Último registro de Mery Medeiros em público, durante o 2º turno da campanha presidencial de 2018 (foto: arquivo Roberto Monte)

Ternura e delicadeza

Além da paciência e da generosidade, Mery tinha a admiração das pessoas que conviveram com ele em diferentes etapas da vida. O padre Fábio Santos, outra referência na defesa dos Direitos Humanos na região Nordeste, destaca o legado deixado pelo militante comunista:

– Mery Medeiros é sobretudo, para mim, um ícone da ternura e da delicadeza, esse homem das ligas camponeses, da luta sindical, dos movimentos populares e sociais e também nas comunidades. Nos conhecemos no Centro de Direito Humanos e Memória popular, nas caravanas de Direitos Humanos e de Cidadania, nas terras potiguares. Esse lutador pelos direitos civis, econômicos, políticos, sociais e ambientais. É um místico, poeta, de uma sensibilidade belíssima. Tive o prazer de acolhê-lo junto com Roberto Monte aqui em Recife. Ao nosso querido companheiro a minha homenagem e também uma palavra de solidariedade de conforto, de carinho e ternura aos familiares, amigos e companheiros que sonham os mesmos sonhos e as mesmas lutas. Mery Medeiros é um exemplo de dignidade”, afirmou.

Jornalista e pesquisadora na área de Memória, Justiça e Verdade, Jana Sá ressalta que a contribuição de Mery é para o futuro.

– Fica o exemplo de valentia, persistência e comprometimento em contribuir na construção de um futuro, onde as liberdades, em suas expressões mais amplas, sejam a tônica frente as graves e massivas violações de direitos humanos. Lutador das Ligas Camponesas, Mery Medeiros foi preso político durante a ditadura militar de 1964. Sua notável experiência deverá servir de impulso a pôr em prática as lições aprendidas, abraçar a luta contra a impunidade e levar a consolidação da democracia no Brasil”, diz.

Mery participa de debate com estudantes da UFRN ao lado dos jornalistas Emanoel Barreto e Jana Sá (foto: acervo Jana Sá)

Em nota, o PCdoB no Rio Grande do Norte lembrou que o Mery Medeiros “nunca esmoreceu, nunca baixou a cabeça e nunca se curvou. Manteve a retidão, defendendo as ideias de justiça e liberdade, convicto de que os brasileiros precisam de uma pátria livre e soberana”.

“Sejamos cultos para sermos livres”, afirmou Mery Medeiros ao receber o título de cidadão natalense

Em 2001, Mery Medeiros recebeu o título de cidadão natalense na Câmara Municipal e, no discurso de agradecimento, lembrou a trajetória contra a opressão e em defesa das liberdades democráticas:

“Creio que o capítulo mais importante nessa minha caminhada tenha sido mesmo a minha luta contra a Ditadura Militar de 1964. Estive preso de forma intercaladas em Recife, Fortaleza e Natal por pertencer aos quadros do antigo Partido Comunista Brasileiro. E acrescento que a cultura foi muito atingida pelas ações da Ditadura”, disse na ocasião e registrado em texto-homenagem pelo amigo Antônio Capistrano.

Ficha de Mery Medeiros na época de estudante por “atos subversivos” no auge das lutas camponesas f(oto: acervo Roberto Monte)

Como poeta e escritor, fundou a Sociedade dos Poetas Vivos e Afins ao lado do jornalista Paulo Augusto e lançou obras engajadas, a exemplo de Das Evocações e dos Esquecidos (1999) e Lições de Democracia e Cidadania (2006). Mery não tinha curso superior, mas fazia questão de valorizar a leitura e a escrita como alicerces na construção de todas as democracias.

‘‘Escrever é um ato de cidadania. Eu não sou formado, mas sempre me atrevi a escrever. É preciso que os jovens leiam, pois a leitura liberta. Sejamos cultos para sermos livres”, disse.

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Rafael Duarte
Jornalista e autor da biografia "O homem da Feiticeira: A história de Carlos Alexandre"

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