OPINIÃO

Brazil: De Pasárgada a Niflheim ou como um povo cavou sua própria destruição

Considerado por vários organismos sanitários, sociais e econômicos mundiais, como um dos países que pior vem se debruçando sobre a pandemia e os efeitos cataclísmicos dela, o BraZil começa a recolher os cadáveres com mais resignação, pois os governantes locais, derrotados pela pressão dos empresários e pelo desleixo criminoso do governo central, se dobraram ao Ceifador e estão, por toda a parte, retomando as atividades econômicas, quando ainda se veem claramente as fragilidades de uma sociedade brutalmente desigual, em que são e serão os pobres a pagarem o alto custo perpetrado pela Covid-19.

Se debruçando unicamente pela economia, os resultados começam a aparecer e as projeções de encolhimento da economia já chegam a 9,1%, de acordo com FMI, diferente da projeção de – 5,3%, feita em abril. Muitos dizem que se as atividades econômicas não forem retomadas, esse percentual chegará a -11,0% em dezembro, daí a justificativa para a reabertura dos negócios. O Banco Central, em relatório divulgado dia 25, aponta para queda de 6,4%, com a perspectiva de recuo de 8,5% na atividade industrial e 5,3% no setor de serviços. Ocorre que, dentro do setor de serviços, o comércio deverá recuar, de acordo com o BC, nada menos que 10%.

Deve-se registrar, entretanto, que essa debacle econômica, embora acentuada pela pandemia, estava se verificando antes dela. O PIB de 2019 crescera pífios 1,1% (contra raquíticos 1,3% em 2018) e no primeiro trimestre desse ano, recuara 1,5%, ou seja, estávamos, mesmo sem a pandemia, caminhando para a recessão. A própria Fundação Getúlio Vargas, que se o governo pudesse chamaria Fundação Milton Friedman, anunciou que no segundo trimestre desse ano, poderemos ter uma queda avassaladora de 10,0% do PIB. Agora estamos na depressão econômica.

A equipe econômica de Guedes, cuja principal caraterística tem sido a “política econômica de cruzar os braços”, não move um músculo para enfrentar essa situação, recorrendo a medidas de pouco impacto, como é o caso da ajuda a estados e municípios, um mero paliativo de curto prazo; ou enrolando literalmente os micro, pequenos e médios empresários, num jogo de empurra-empurra com os bancos, que foram os principais favorecidos por essa pandemia. Nem com a divulgação, pelo próprio Banco Central, que os INVESTIMENTOS recuarão inacreditáveis 13,8% e o consumo das famílias em 7,4%. O apego quase insano à “Mão Invisível” de Smith, que é o ajustamento entre oferta e procura de preços via mercado, tornam o governo federal, o único com capacidade fiscal e tributária para impulsionar o investimento, público e privado, um mero espectador e sua recusa em agir é quase um ato criminoso.

Os efeitos no elo mais fraco da cadeia de relações sociais se tornaram mais claros, a partir da divulgação feita pelo IBGE, da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua – PNAD Contínua, que acompanha as flutuações trimestrais e a evolução, no curto, médio e longo prazos, da força de trabalho, e outras informações necessárias para o estudo do desenvolvimento socioeconômico do País. A divulgação, feita ontem, é de estarrecer.

A taxa de desocupação (12,9%) no trimestre encerrado em maio de 2020, cresceu 1,2% ponto percentual em relação ao trimestre de dezembro de 2019 a fevereiro de 2020 (11,6%), chegando a 12,7 milhões de pessoas (contra 12,3 milhões no trimestre anterior). Parece pouco, mas se olharmos que as PESSOAS OCUPADAS em relação ao trimestre anterior e verificar que caiu 8,3%, teremos o assustador número de 7,8 milhões de pessoas ocupadas a menos do que no trimestre anterior e, pela primeira vez desde que começaram a registrar essa pesquisa (em 2012) o nível de ocupação das pessoas aptas a trabalhar caiu abaixo dos 50,0% (49,5%), ou seja, criou-se um gigantesco exército de pessoas desocupadas.

As pessoas subutilizadas no mercado trabalho chegaram a estonteantes 27,5% da força de trabalho (contra 23,5% do trimestre anterior), revelando que nada menos que 30,4 milhões de pessoas vivem por um fio de se tornarem desocupadas e se submeteram a trabalhos de meio expediente, sem direitos e precarizados; os chamados desalentados, aqueles que desistiram de procurar emprego, aumentou 15,3% frente ao trimestre anterior, chegando a 5,4 milhões de pessoas.

As maiores perdas de postos de trabalho se deram nos setores de Alojamento e alimentação (-22,1%); Serviços domésticos (-18,7%); Construção (-16,4%); Comércio, reparação de veículos automotores e motocicletas (-11,1%) e a Indústria (-10,1%). Até o número de empregadores (cerca de 4 milhões) sofreu impacto, pois diminuiu em 377 mil pessoas que foram identificados como empregadores.

Os “economistas burlescos”, aqueles que vagam nas redes sociais emitindo “opiniões econômicas”, baseadas em crendices, desejos e devaneios; somados aos “economistas leitores de orelha de livro”, que andam com os manuais socados nas axilas, a ponto de amarelar as bordas dos ditos, se apressam em buscar postulados rocambolescos, para evitar se dobrar à realidade de que a economia brasileira entrou num buraco tão profundo que, para sair dele teremos que rever toda a política econômica implementada nos últimos 4-5 anos. Somos um país derrotado por nós mesmos.

Os quase 60 mil brasileiros que sucumbiram a Covid-19 e boa parte dos quase 791 mil recuperados, mas que estão tendo sequelas pesadas, tornaram-se números secundários dessa expiação que o país vivencia, pois as grandes redes de comunicação apreciam mais o patetismo do governo, do que a realidade dura que atinge principalmente os mais pobres, que muitos espertamente de “menos favorecidos”, escondendo a real causa de sua condição social. Sem ministro da Saúde, cujo ministério foi relegado a se tornar uma quitanda cheia de milicos fardados, batendo uns nos outros; sem uma equipe econômica minimamente preparada intelectualmente para analisar os desafios presentes; com as facções (lavajatistas, bolsonaristas, moristas) se engalfinhando em disputas pelos seus nichos de poder; e com os noticiários dando ênfase ao “cachorro fake”, é de se imaginar que o teatro dos horrores deverá promover novos atos nos próximos dias, semanas e meses.

 

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