DEMOCRACIA

#BrequedosApps: Entregadores por aplicativo lutam por reajuste nas taxas e mais proteção em Natal

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Aos 39 anos de idade, Maciel Medeiros sustenta a esposa grávida e dois filhos pequenos com o dinheiro que recebe trabalhando como entregador, vinculado a cinco aplicativos diferentes em Natal. Alterna o trabalho de motoboy com os serviços de instalação de portão elétrico, que faz como bico.

A esposa de Maciel não trabalha. A família mora no bairro Pajuçara, na Zona Norte, região mais populosa da capital. Por mês, arrecada entre R$ 950 e R$ 1.500 com os serviços de entrega. Chega a trabalhar 12 horas seguidas por dia no mês em que os boletos aumentam de tamanho. Nesse período, expõe a ele e à família ao Coronavírus, que já matou mais de mil pessoas no Rio Grande do Norte e adoeceu mais de 30 mil potiguares.

Maciel é uma das lideranças do movimento de entregadores vinculados a aplicativos em Natal. O grupo não é ligado a partido político nem a nenhum Sindicato. Nesta quarta-feira (1º), trabalhadores desse setor em todo o país organizam protestos contra as empresas que usam os aplicativos para explorar terceirizados negando-lhes direitos.

Em Natal, os entregadores se reúnem, a partir das 20h, na lateral do ginásio Nélio Dias, na Zona Norte. A paralisação nacional nasceu nas redes sociais e dominou a lista de assuntos mais comentados do twitter na manhã de hoje. Os trabalhadores que aderiram à greve desligaram os aplicativos. Para os que quiserem apoiar a causa, é pedido que, além de divulgar a greve, as pessoas não peçam comida ou qualquer outro produto por aplicativo ao longo do dia.

Pelas contas de Maciel baseadas nos códigos que identificam cada entregador nos aplicativos, trabalham nas ruas de Natal mais de 15 mil entregadores de moto cadastrados em alguma empresa e outros 2 mil de bicicleta. Nessa conta não entram os motoristas de carros. Para ele, é tudo muito novo.

– O movimento nasceu na internet, não tem vinculo partidário nem com sindicato. Quem está à frente sou eu. Às 20h vamos fazer um ato no ginásio Nélio Dias. É uma greve nacional e estamos nos organizando em grupos de whats aap . Pelo que senti, vai dar mais de 100 pessoas entre entregadores de aplicativos e outros freelancers. Mas não dá pra mensurar até porque é o primeiro ato da gente. Estaremos lá, com carro de som, uma faixa para fazer intervenções, falas e explicar para a sociedade a nossa pauta”, conta.

Maciel Medeiros é uma das lideranças do movimento em Natal que surgiu nas redes sociais (foto: arquivo pessoal)

A pauta dos entregadores é nacional. Entre as reivindicações estão o reajuste na taxa de quilômetro rodado, que atualmente varia, em média, de 50 centavos a 1 real por Km. Eles também querem o fim dos bloqueios indevidos. Por outro lado, também consideram injustos os sistemas de pontuação das plataformas.

Por entrega, o entregador recebe, a depender da demanda de pedidos e profissionais disponíveis, entre R$ 2 (dinâmica baixa) e R$ 6 (dinâmica alta). Nesse valor estão embutidos a taxa paga para pegar o produto com o fornecedor, o preço por quilômetro rodado até o cliente, e a quantia paga assim que o consumidor recebe o produto.

– Varia de aplicativo. São muitos problemas. No Uber eats, por exemplo, a gente ainda tem que andar com dinheiro para passar o troco. Só no Ifood a gente não pega em dinheiro, é tudo pelo aplicativo”, conta.

Medeiros faz uma lista de problemas no trabalho como entregador via aplicativo. As empresas não fornecem alimentação nem horário de descanso. Há situações em que os clientes são o problema.

– Tem cliente que recebeu, diz que não recebeu só para receber de novo. E desconta na gente. Não recebemos nenhum tipo de ajuda. A gente está reivindicando também seguro contra roubo e até auxílio-pandemia, até porque muita gente ficou de fora desse auxílio-emergencial do Governo Federal. Alguns pagam MEI (Microempreendedor Individual) para o caso de acidentes. Mas nem sempre dá”, lamenta.

O entregador demonstra preocupação com a saúde dele, dos colegas e das famílias dos trabalhadores. Nas ruas, os motoboys ficam expostos ao contato direto com pessoas desconhecidas. Cada um se protege como pode. A Uber chegou a distribuir álcool em gel, mas insuficiente para toda a demanda. Já o Ifood, explica, não amparou os empregados.

– Eles não entram com alimentação, combustível nem manutenção da moto. EPIs, máscaras, protetor facial, é tudo do nosso bolso. A UBER chegou a distribuir 20 ml de álcool em gel e só. Estamos expostos. Às vezes quando saio de uma entrega fico sabendo pelo twitter que aquela cliente estava contaminada. E fico com medo pela minha família. Tanto que quando chego em casa vou direto para o quintal tomar banho para só então entrar em casa”, conta.

 

 

 

 

 

 

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Rafael Duarte
Jornalista e autor da biografia "O homem da Feiticeira: A história de Carlos Alexandre"

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