OPINIÃO

‘Cabeça de Papeiro’

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Dia 7 de setembro fatídico.  O verde e amarelo me causando ojeriza. As figuras dantescas, serviçais do demônio, juntas num palanque que mais parece a representação de um quadro de Portinari ou repetição, em imagens, dos escritos de Dante. E eu aqui, olhando para ‘Cabeça de Papeiro’, desse filho de uma infeliz mãe, vestido de verde e amarelo, boné verde e amarelo, dentro de seu carrão último tipo, com adesivo de apoio, total, à bandidagem da lava-jato. Me abaixo, me escondo, fujo dele. E ele passa, vai se juntar aos dementes que atenderam ao chamado da besta fera num dia tão emblemático que, ao contrário do que eles pensam, não temos nada a comemorar.

Esse bolsominon demente, que chamava carinhosamente de ‘Cabeça de Papeiro’, me assusta hoje, e um dia, vejam bem, ele já foi meu herói. Eu, desgraçado, desinfeliz, tristemente, conheço sua história, eu já fui teu fã um dia.  Bicho desabunitado, filho da puta, das pernas tortas, dos pés de papagaio, deformados, cheios de nódolos, ainda resquícios dos sapatos apertados que, muitas vezes arranjavas com terceiros sem nem querer saber do número. Tu, desinfeliz, para mim, era a mais completa imagem que eu fazia de uma pessoa vencedora, desafiadora, que , sem condição, sem boa alimentação, jogado, sobrevivendo numa casa de estudante que mais parecia uma prisão, desbancara os riquinhos concorrentes, os filhotes dos papais protegidos da ditadura maldita que hoje tu defende.

‘Cabeça de Papeiro’, você, desalmado, era, para mim, o meu norte, o exemplo de que lutar nesse país doente, exemplo de vilania e desigualdade, valia a pena e que um dia, mesmo sendo filho de um porteiro e de uma lavadeira lá da periferia de Caicó, o sujeito lutador poderia se tornar alguém, se formar, ensinar, trabalhar de cabeça erguida num emprego conquistado em concurso sem precisar do “empurrão” de canalha nenhum da política. Por isso, me dá esse nó nas tripas ao te ver fazer apologia ao maldito que, os iguais a ele no passado recente, te obrigaram a passar fome, humilhações, quase te obrigando a desistir da luta, pois não ofereciam condições mínimas para quem queria estudar.

E você bem sabe, ‘Cabeça de Papeiro’,  quantos e quantos, alguns bem próximos teus, primos, irmãos, irmãs,  sucumbiram, perderam a fé, a força, se entregaram às drogas, enlouqueceram, perderam a razão, e até a vida,  derrotados pela máquina maldita, essa mesma máquina que está voltando mais destruidora de esperanças do que nunca. Juro, eu nem queria acreditar que te veria assim, quase enlouquecido,  juntamente você , defendendo esses monstros, teus algozes do passado, os ladrões de sonhos, os repulsivos criminosos promotores da desigualdade, que quase te fizeram voltar, de mala e cuia, cabeça baixa, envergonhado para um subemprego em sua terra, que faria do ato de encher a cara de cachaça nos finais de semana único  objetivo de vida. Aí, me pergunto: como pode, o que se passou para essa transformação?

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‘Cabeça de Papeiro’, eu gostava do teu sorriso. Eu gostava das tuas histórias, mesmo quando, loucamente, vinhas defender Eurico Miranda. Eu perdoava, entendia como coisa do fanatismo do futebol, mas comecei a conhecer o teu lado obscuro. Com tristeza detectei a tua tristeza. Minha nossa! A tua maravilhosa vitória não adiantou. Vi que havias te transformado numa pessoa amarga, reacionária, discriminadora e até racista, mesmo com a mistura evidente de índio e negro na tua genética. Teu sorriso era de dentes pra fora, tua alegria era falsa movida aos dias que exageravas na cerveja, pois  teu coração, infelizmente, foi contaminado e  tomado pelo ódio, recalque, e o que o pior: por  uma raiva insana direcionado aos mais humildes, aos desinfelizes, àqueles que, você, já foi um dia.

Deixei de falar contido ‘Cabeça de Papeiro’. Não quero mais ouvir tua voz e nem ocupar o mesmo espaço teu, seria briga certa, desavença, maquerença, como diria meu irmão Edmundo. Você tem  ódio do Lula, teu igual e tudo que ele representa. Como pode isso? Tu também vieste puxando uma cachorrinha lá do sertão e hoje quando fala do partido que te ajudou a formar teus filhos, a fazê-los doutores, vencedores, bons partidos, motivo de orgulho, quando falas ou ouves o nome do presidente que fez do Brasil um país de esperanças renascidas, de orgulho recuperado, mesmo que por pouco tempo,  teus olham ensombreiam, sua voz se torna um esgar e sei, tenho certeza hoje,  que serias bem  capaz de seguir à risca o que manda teu mito, teu mestre, teu presidente, o metralhador de petistas.

Então, ‘Cabeça de Papeiro’, chego a conclusão de que tens ódio de mim, fujo do teu contato, esqueço teu endereço, atravesso a rua, passo para o outro lado, mudo de calçada, se esbarrar contigo vou fingir que não vi, vou me desculpar sem te encarar. Até porque, não mais te conheço.

 

 

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Edmo Sinedino
Edmo Sinedino é jornalista, ex-jogador de futebol e escreve aos domingos

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