CULTURA

Caicoense vence laboratório que incentiva a produção de cinema no interior do Nordeste

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O realizador audiovisual caicoense Raildon Lucena venceu a edição virtual do Laboratório Jabre voltado para roteiristas que, em 2020, abriu pela primeira vez a seleção para projetos de Alagoas, Pernambuco e Rio Grande do Norte, além da Paraíba, no extremo oriental nordestino. Em razão da pandemia, o Jabre aconteceu entre 15 e 20 de junho, no formato virtual.

O nome do projeto faz referência ao pico do Jabre, ponto mais alto da Paraíba e proximo de Matureia, cidade com cerca de seis mil habitantes situada a 330 quilômetros de João Pessoa.

Raildon venceu a seleção com o roteiro “Lives”, que trata da solidariedade em tempos de pandemia de Covid-19. Como vencedor do laboratório, o Jabre dará suporte técnico ao filme, que deve ser rodado somente após a pandemia. Os apoios acontecem por meio de parcerias, sem recursos financeiros:

“O Jabre é uma referência para nós que fazemos o audiovisual no interior do Nordeste. E essa edição digital contemplou, além da Paraíba, roteiristas de Alagoas, Pernambuco e Rio Grande do Norte. A essência do Jabre é a colaboração. Além de termos contato com profissionais experientes do audiovisual, também tivemos facilitadores que nos ajudaram a construir cenas e desenvolver melhor nosso argumento. Então, projetos como o Jabre são fundamentais para democratização do audiovisual e despertar o nosso espírito de contadores de histórias”, destaca Lucena.

Raildon Lucena (esq) é o idealizador do festival Curta Caicó (foto: Divulgação)

Participar de um projeto de fomento ao audiovisual no interior nordestino não chega a ser novidade para o potiguar. Ele é o criador do festival Curta Caicó, que em pouco tempo se tornou referência na região do Seridó e vai para a 3ª edição em 2020, prevista para acontecer em agosto, também no formato virtual em razão das determinações de isolamento social.

Além de “Lives”, o laboratório selecionou “Dance” de Jorja Moura (Recife/PE) em segundo lugar e, “Cicatriz” de Felipe Guimarães e Raphael Barbosa, (Maceió/AL), em terceiro. A escolha e a classificação dos roteiros é definida pelos próprios participantes a partir de uma imersão coletiva.

Laboratório mudou eixo de produção do audiovisual na Paraíba

Laboratório do grupo do Jabre de Roteiro 2016 (foto: Divulgação)

Idealizado em 2011 pelo cineasta paraibano Torquato Joel, o laboratório Jabre mudou o eixo de produção e reconhecimento de curtas-metragens na Paraíba. Atualmente, a maioria dos filmes produzidos no estado premiados em festivais Brasil afora não está mais em João Pessoa e Campina Grande.

– O Jabre tem resultados impressionantes. O laboratório fez com que os meninos saíssem país afora com seus filmes. As produções do interior hoje são muito mais premiadas que em João Pessoal e Campina Grande. A relação é de 90 a 100 prêmios para o interior e 10 ou 20 para João Pessoa e Campina Grande”, conta orgulhoso.

Os filmes rodados a partir de roteiros selecionados pelo Jabre já repercutiram em festivais do Chile, EUA e Europa.

Até 2019, o projeto era voltado apenas para candidatos a realizadores da Paraíba. Torquato decidiu ampliar esse ano para o chamado extremo oriental nordestino após uma edição em Alagoas. Antes da pandemia do novo Coronavírus, o laboratório acontecia presencialmente ao longo de quatro dias consecutivos, geralmente numa pousada oferecida em parceria com o projeto.

O distanciamento social obrigou Joel a adaptar o formato. A edição do Jabre em 2020 as atividades foram conjuntas, privilegiando uma metodologia coletiva de criação, contando com a presença de facilitadores que mediaram o processo de construção dos roteiros em subgrupos.

– O princípio básico é a imersão 24 horas ao longo de 4 dias pra estabelecer vínculos, relações e criar afetos para colaborar de forma coletiva. A presença física era importante Eu imaginei que (virtual) não teria rendimento, mas foi muito interessante. Fizemos as atividades à tarde, 14h às 18h, com convidados sobre narrativas clássicas, (Sandra Luna), rupturas de linguagens (Marcelo Ikeda) e, no terceiro dia, trouxemos o Bertrand Lira para falar sobre diálogos no cinema”, destacou.

O Laboratório Jabre nasce em 2011, mas é fruto de outro projeto realizado por Torquato Joel: o Viação Paraíba, iniciado em 2006, que já trabalhava com a interiorização do cinema no Estado vizinho.

Na época, o cineasta promovia mini-cursos de diferentes linguagens relacionadas ao cinema e à formação crítica com o intuito de despertar o interesse de jovens e novos realizadores, além de apresentar o público de cidades do interior à arte do curta-metragem:

– Nas cidades percebi que o projeto ativava pessoas. Depois, veio o laboratório Jabre para trabalhar uma área especifica do processo de fazer cinema, que é o roteiro. Mas vieram também outras áreas, como fotografia, atuação e tenho planejado fazer também de som, edição, direção. O foco está nos jovens do interior da Paraíba, mas esse ano, como fiz laboratório semelhante em Alagoas, fui muito instigado a fazer o laboratório virtual e abrir para outros estados”, conta

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Rafael Duarte
Jornalista e autor da biografia "O homem da Feiticeira: A história de Carlos Alexandre"

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