CIDADANIA

Câmara Municipal de Natal vai ter que adaptar estrutura para receber vereador cadeirante

Hoje (3) é o Dia Internacional da Pessoa com Deficiência, mas para quem enfrenta barreiras arquitetônicas e sociais, a luta é diária. Tércio Tinoco (PP) é o primeiro cadeirante e segunda pessoa com deficiência física a ocupar uma das vagas da Câmara Municipal de Natal, com 3.101 votos. Chegar lá não foi fácil e transitar pela casa legislativa hoje em dia, também não é. Em um prédio antigo e sem acessibilidade, o gabinete do parlamentar que assume no dia 1º de janeiro vai ficar no segundo andar, onde ele só consegue chegar através de uma plataforma lenta e que não permite o embarque simultâneo do cadeirante, sua cadeira e de um acompanhante.

“A plataforma até funciona, mas é muito lenta. Passei quatro minutos para descer do segundo andar para o térreo. Não é um elevador, é uma plataforma que suporta apenas 150kgs. A lei diz que deve haver um elevador e não uma plataforma. “Só eu peso 90kg, com a cadeira que são 20Kg, já vai 110Kg, se colocar outra pessoa, ultrapassa a carga. Nossa luta é, também, para que a Câmara vá para outro local que seja acessível. Aquele é um prédio histórico, muito antigo, até pode passar por adaptações, mas custaria R$ 1 milhão”, relata Tércio sobre as primeiras dificuldades da Casa que vai frequentar pelos próximos quatro anos.

Para facilitar a vida do agora vereador, a administração da Câmara Municipal de Natal ofereceu a Tércio um gabinete no térreo, a cinco metros de distância da vaga dele no estacionamento. Proposta que foi recusada pelo parlamentar.

“Eu recusei e decidi ficar no segundo andar para forçar a Câmara a colocar um elevador. Pra mim seria mais cômodo, mas não penso só em mim e se eu aceitasse não fariam a acessibilidade no primeiro, nem no segundo andar. Nós pedimos para toda a Câmara, até o andar da TV Câmara. Eles vão ter que quebrar uma laje. Ou quebra ou sai de lá, porque se eu não dou entrevista, nenhum vereador vai dar. Tenho o mesmo direito de todos”, conta Tércio que demonstra uma postura firme e obstinada de quem precisou enfrentar muitos embates na vida. Para quem nunca chegou a percorrer toda a estrutura da Câmara Municipal de Natal, a TV Câmara fica no último piso do prédio localizado na esquina da rua Jundiaí com a Avenida Campos Sales, no Tirol, por onde só se chega através de uma escada estreita.

Tércio antes do acidente que o deixou tetraplégico / Foto: cedida

Um mergulho de piscina mudou a vida do vereador eleito

Quem vê só o fim da estrada, não faz ideia do caminho que Tércio Tinoco precisou percorrer para chegar até aqui. Era pra ser só mais um dia de diversão durante um passeio na cidade de Açu, onde moram os parentes do pai. Mas, foi no dia 25 de dezembro de 2005, num inocente mergulho na piscina, que Tércio ficou tetraplégico aos 18 anos. Ao pular, ele bateu com a cabeça no fundo da piscina e perdeu os movimentos na mesma hora. Sem conseguir retornar à superfície para respirar, Tércio ainda se afogou e ficou sem batimentos cardíacos por 15 minutos:

“Pulei vizinho a um toboágua em um clube onde estávamos. Travei a respiração e não lembro de mais nada. Eu morri por 15 minutos, bati na porta de Deus e ele mandou eu voltar porque ainda tinha muita coisa pra fazer por aqui! Um primo meu veio, me desvirou, colocou na borda da piscina, fez respiração boca a boca, massagem e nada. Depois veio um rapaz da Petrobras que entendia de primeiros socorros e foi o único que fez a respiração com o meu nariz fechado. Todos os outros fizeram com ele aberto e todo o ar que entra pela boca, sai pelo nariz. Depois de 15 a 18 minutos eu coloquei muita água pra fora e o coração voltou a bater novamente. Me pegaram de todo jeito, colocaram numa caçamba de uma caminhonete e me levaram pro hospital de Açu. Chegando lá não tinha colar cervical, não tinha nada, só o médico, que me colocou no soro, pegou um barbante, um papelão do meio de rua, amarrou no meu pescoço, me botou na ambulância com o motorista e me mandou direto pra Natal”, relembra Tércio.

A tetraplegia implica na perda dos movimentos dos braços, troncos e pernas. Para quem aos 18 anos era independente e tinha acabado de ser aprovado no vestibular para o curso de administração, aceitar se tornar uma pessoa dependente de outras levou tempo. Foi um processo longo e difícil que passou, inclusive, pela depressão:

“Quando me acidentei tinha sido aprovado no vestibular, mas acabei não cursando. Os primeiros anos de qualquer pessoa que sofre um acidente não são fáceis, ainda mais para uma pessoa de 18 anos que era independente em todos os sentidos, de repente, estar em uma cadeira de rodas e dependente de tudo. Foi uma reviravolta muito grande na minha vida e na da minha família. Hoje, ainda sou dependente de um auxiliar ou de uma pessoa da família. Nos dois primeiros anos é muito crítico, a gente enfrenta depressão… nesse começo há dois caminhos a seguir: ou você se afunda chegando até a tentar ao suicídio ou se agarra a Deus para ter força. Eu me agarrei a Deus para seguir minha vida, não há outro caminho. De 80% a 90% do nosso corpo é cabeça né, não é algo fácil, tenho alguns amigos com 15, 20 anos de lesão que nunca se aceitaram. Hoje eu tiro de letra, estou bem tranquilo”, relata.

Cinco anos depois da lesão, em 2010, Tércio finalmente ingressou na universidade e se formou em Administração de Empresas em 2014. Foi a partir daí que ele passou a ajudar a instituição que tinha sido tão importante pra ele. Ainda em 2008, Tércio foi atleta do tênis de mesa da Sociedade Amigos do Deficiente Físico (Sadef). Ele participou de campeonatos regionais e nacionais, chegando a ficar em quarto lugar no Campeonato Brasileiro e só deixou o esporte por causa dos estudos.

Tércio como atleta de tênis de mesa da Sadef / Foto: cedida

Sociedade Amigos do Deficiente Físico ganhou um administrador 

Até então, Tércio Tinoco só tinha participado da Sadef como atleta. A contribuição como gestor veio depois de dois convites recusados. No terceiro, já depois de formado, ele decidiu ajudar a instituição que estava afundada em dívidas, com o salário do único funcionário atrasado e até carro usado no transporte tinha sido vendido para uma sucata.

“Tinha 20 atletas na época e duas modalidades. Assumi em 2014, conseguimos pagar todas as dívidas, pedimos muita ajuda. Saímos de uma instituição falida para hoje sermos o maior e melhor clube do norte e nordeste. Passamos de um para 35 profissionais, nos 25 anos de história da Sadef nunca houve área médica e hoje temos 3 médicos (ortopedista e clínico geral), nutricionista, psicólogo, fisioterapia, academia de halterofilismo, tênis de mesa, refeitório, auditório, dormitório, uma webrádio e 20 salas, além da aquisição de veículos, reboque”, contabiliza Tércio sobre os anos à frente da Sadef.

Durante esse tempo, o agora vereador também fundou o projeto Natal Praia Inclusiva, que funciona todo sábado e domingo na praia de Ponta Negra, desde 2017. O projeto disponibiliza cadeiras anfíbias que flutuam na água e permitem às pessoas com deficiência física ter um contato direto com o mar, além da prática de esportes como caiaque, vôlei, futebol, tudo gratuito e com a assistência de monitores.

Política

A política só entrou na história de Tércio depois de muitos “nãos” quando o presidente da Sadef pedia patrocínio ou ajuda para a instituição.

“Notei que com a política as portas poderiam se abrir. Um exemplo, é que a própria Câmara Municipal de Natal não tem acessibilidade, mas a partir do próximo ano vai ter porque hoje tem um vereador eleito cadeirante, se não fosse isso, a acessibilidade demoraria anos. Outro exemplo é a Prefeitura de Natal, que não tem acessibilidade. Já pedimos ao Prefeito Álvaro Dias para colocar um elevador. No próximo ano vamos usar nosso mandato para fiscalizar, em conjunto com o Ministério Público, tanto a acessibilidade, quanto na inclusão social e a fiscalização de empresas para que elas cumpram a cota de pessoa com deficiência. Infelizmente, não há fiscalização hoje”, lamenta Tércio.

A cota para pessoas com deficiência estabelece que a cada 100 funcionários, as empresas reservem 2% das vagas para pessoas com deficiência. Essa cota aumenta em 1% para cada 100 novos funcionários.

Detran

Tércio foi o 1º tetraplégico a ter carteira de motorista no Rio Grande do Norte, claro, depois de muita luta e três horas de argumentação com o médico responsável pelo laudo do Detran. Ele tirou a habilitação três anos de pois do acidente, no ano de 2008. Para renovar a carteira, foi preciso colocar o médico no carro e dar uma volta para que ele acreditasse que Tércio era capaz de dirigir. O carro é adaptado para cadeirantes com o freio e o acelerador controlados pelas mãos.

Antes do acidente, Tércio namorou alguns meses com a esposa atual. Eles e reencontraram depois de nove anos, retomaram o namoro e já têm 4 anos de casamento / Foto: cedida

Curiosidade

Se você chegou até o fim da reportagem, deve estar com uma pulga atrás da orelha para saber quem foi a primeira pessoa com deficiência física a ocupar uma das cadeiras da Câmara Municipal de Natal. Se trata de Maria Queiroz Baía, primeira mulher parlamentar com deficiência física do Brasil. Ela tinha 26 anos quando foi eleita e atuou pelo MDB entre os nãos de 1977 a 1981.

Clique para ajudar a Agência Saiba Mais Clique para ajudar a Agência Saiba Mais
Artigo anteriorPróximo artigo