OPINIÃO

Caminhadas pela cidade

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Ainda cultivo o hábito, quase em extinção numa época que as pessoas vão de carro até a padaria da outra rua, da caminhada. E o que deveria ser um prazer tem sido uma verdadeira tortura, não só pela tão falada insegurança, mas também pelo fato de inexistir na capital potiguar qualquer regulação quanto à acessibilidade das calçadas, muitas feitas para atender a comodidade da entrada de carros dos moradores daquela área, e não para os transeuntes cotidianos.

Para além dessas duas questões graves, mas que vejo que são mais estruturais, existe outro problema que só depende de competência da gestão municipal, até porque o natalense ainda deve lembrar o quanto nossa cidade era limpa e jardinada, coisa de 15, 20 anos atrás, então observar hoje a situação de imundice que tomou conta de Natal, seja nos bairros turísticos, seja nos periféricos, seja nos canteiros, alguns verdadeiros depósitos de lixo e metralha ao ar livre, as vezes em vias do porte da Hermes da Fonseca, choca qualquer um que tenha conhecido a realidade urbana dessa cidade até meados da década passada.

A herança maldita de Carlos Eduardo Alves, agora afastado pra tentar o governo do Estado contando com mais de 60% de reprovação do eleitorado natalense, de modo que até hoje não se sabe como se  elegeu esse senhor prefeito de Natal pela quarta vez e no primeiro turno, se estende por diversas áreas. Eu poderia aqui apontar os problemas em relação ao sucateamento da educação e da saúde do município, visto que ambas as pautas hoje mesmo eram destaque no RNTV, mas aí a gente entra numa zona nebulosa de justificação fácil quando se toca nesses temas. Com muita argúcia, os gestores municipais em uníssono remetem a culpa da situação calamitosa à crise financeira que o país vive nacionalmente. Ok, tem influência sim, mas o mesmo não pode ser dito sobre a limpeza urbana, visto que é algo que se faz somente com o orçamento municipal, até porque as taxas de limpeza urbana embutidas no IPTU são altíssimas. Então não me venha, Executivo municipal natalense, dizer que o estado de sujeira e abandono em que se encontra a cidade também é culpa da “crise nacional”, pois não é. É reflexo da ingerência e incompetência dos quatro mandatos de Carlos Eduardo Alves, em Natal.

As praças de Natal são lixeiros ao ar livre, é acumulo de montes de lixos por toda parte. Na região histórica e central de Natal a situação é ainda pior. O marco zero da cidade, referência histórica importante para todo Estado, a Praça André de Albuquerque Maranhão é de fazer vergonha a qualquer guia turístico que comece por ela seu tour. Além do lixo, de jardinagem dos canteiros nada resta, sequer os bancos, os assentos, existem mais. Fora o brasão histórico do obelisco central que foi retirado e sequer identifica o marco histórico que representa aquele local. O centro da cidade em geral, o Alecrim em especial, observa uma decadência que eu jamais vi em mais de 30 anos vivendo em Natal.

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Somente na avenida Barão do Rio Branco, artéria central de Natal, contei hoje mais de 15 estabelecimentos comerciais fechados. Fica difícil concorrer com os shopping e manter a vivacidade do comércio popular, quando os comerciantes e compradores andam por cima de tapumes sobre a lama, o esgoto, a água servida, em geral. São fezes de animais, as vezes humanas, lixo de todo tipo, esgoto e lama, em plena praça Gentil Ferreira e adjacências. O Alecrim é, hoje, um lugar insalubre, cuja última reformulação urbana decente foi feita ainda no mandato da ex-prefeita Wilma. Eu que já morei no  Alecrim nos anos 90 custo ver nesse bairro hoje a dinâmica, organização e vitalidade que sempre foram a marca do maior centro comercial popular do Rio Grande do Norte.

O Alecrim pede socorro, uma faxina por favor. Ponta Negra sofre com o irresponsável enrocamento, que além de não ter resolvido o problema da constante quebra do calçadão pelo mar ainda produziu o ambiente adequado e convidativo para as pragas urbanas que encontram abrigo entre as pedras, e nem resolveram o problema. Ao contrário, enfeiaram o visual e aumentaram os problemas com insetos e ratos na região. A qualidade do mar nas praias urbanas, já vai longe, é só uma lembrança que encantava turistas. Hoje nossas praias urbanas estão poluídas e não são mais aquele diferencial que Natal tinha o privilégio de ser uma cidade com ótimas praias urbanas.

E com todo esse legado terrível esse senhor se acha apto a governar o Rio Grande do Norte, é mole ?  Enquanto escrevo essas linhas leio que o MP do RN intimou o município a fazer concurso para docente devido ao déficit crônico de professores. Ao mesmo tempo assisto no jornal que não existem vacinas contra gripe na maioria dos postos de saúde da capital. Os problemas são tantos e tão evidentes que somente quem não caminha em Natal, somente quem não vive a cidade fora da sua bolha social é que pode realmente aprovar esses dois senhores gestores do RN e de Natal. Tenho confiança que dessa vez será diferente, o eleitor aprendeu finalmente sua lição de casa e Carlos Eduardo, assim como Robinson, será varrido da vida política natalense de maneira irreversível, pois Natal e o RN merecem gestores mais sérios, competentes e responsáveis que esses que estão aí.

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Historiadora e Militante LGBT

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