OPINIÃO

Capital doente

No princípio, a notícia da morte do médico que alertara o surgimento do novo mal, um especialista que havia mantido silêncio sobre um alerta por pressão somente para evitar prejuízos à economia e à sociedade, percebi que estabeleceria ali o sinal de algo torto que essa ordem mundial do capital impôs às relações humanas, ao menos para mim. O que está exposta na chaga dos interesses econômicos, estes quase sempre acima dos valores éticos e de interesses coletivos essenciais. Ocorre que em detrimento da fragilização do lucro que sistematicamente vem excluindo a valorização da qualidade de vida de maiorias para a garantia do crescimento no poderio de poucos, sofre agora a infecção de um vírus que inverte a condição tradicional desses pressupostos.  Mas a doença que vem minando a pirâmide social de cima para baixo deu outro tom à lógica de mercado que admite nas entrelinhas, a de que é normal as chagas que arrasem as classes “inferiores” da pirâmide. O lucro adoeceu, a estrutura econômica mundial imergiu no risco real de desmoronar, não pelas bases, mas pelo topo.

O que isto aponta? A condição de ressignificação dos parâmetros de influência e poder das coisas das ciências humanas com as ciências exatas e econômicas. O poder do vírus pode ruir a estrutura de privilégio protetivo quase sempre arrogante e despreocupado com os que orbitam suas cúpulas.

Sendo estruturante o impensável arranjo de reflexos sobre a economia mundial, que ainda é imensurável, perigoso e preocupante a qualquer um da esfera terrestre. Porém, é importante entender que o vírus que adoeceu o privilégio parece exigir que todos experimentem o isolamento social comum apenas aos que não prescindem de acessos especiais do poder econômico. Pobre quase não vai a grandes aglomerações, não vai a Europa, não está nas salas presidenciais e não é comum ser visto nas regiões de clima frio.

Estamos diante da reinvenção da lógica no poder e suas relações com a humanidade orquestrado por um vírus. Se o grande capital adoecido em seus tutores for parando, será preciso muito empenho para tentar salvar-se, não que importe em tudo de sua lógica de manutenção, seus detentores e seus trabalhadores. Eles sucumbirão aos milhares se a pirâmide desmoronar. O que nos chama para o esforço conjunto da sobrevivência das estruturas independente do nosso lugar.

Estar diante de um mal mundial sem vacina e tratamento eficiente coloca seres humanos em pé de igualdade, afinal o dinheiro só compra o que está à venda.

E neste exato momento, quem não tem muito, está no Nordeste e nos lugares fora do eixo do mais abastados. Ainda só, está, (se é que pode se dizer assim), nas condições de privilégio vigente nesse novo cenário.

Esperemos que se possa entender a urgência. O sentido da solidariedade humana se impõe agora e é imprescindível nesta batalha que toma todos os cantos e todos os povos sem distinção, afinal a economia pode sofrer de forma subjetiva e diferenciada, mas a humanidade a qual de fato adoece fisicamente continua por ser a mesma e toda a vastidão desse planeta.

Aqui nas terras tupiniquins vejo algumas pessoas argumentando a prioridade de atenção em salvar São Paulo por ser a central do poderio econômico. A narrativa que se ampara essencialmente nos valores capitais e de mercado, justificável apenas por esta lógica, mas equivocada, fatia por interesses econômicos um caso de saúde pública e relações humanitárias por princípio elementar, com vastos efeitos econômicos sim, mas não na origem da questão a se atacar. Estes ainda imersos na ilusão que basta salvar o poder, sem entender que é parte do organismo social e, sem espírito nacional, não há cura quando o remédio é nossa capacidade de união.

A febre no organismo de mercado que já acena pela escassez, a exploração irresponsável na cobrança de altos valores nos testes para COVID19 e os aumentos abusivos em insumos para higiene afim de garantir lucros sobre um cenário de pandemia vai expondo que este vírus é capaz de despertar outros males encubados nas condições de sensibilidade e humanidade. Desafiando nossa capacidade de cura não só para o coronavírus.

 

 

 

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