OPINIÃO

Capítulos de uma desobstrução ideológica

Hannah Arendt, em uma entrevista de 1964 para o programa de televisão de Günter Gaus, lembra que não foram os membros do partido nazista que chocaram a comunidade de judeus alemães em 1933, quando Hitler tomou o poder.

Qualquer judeu minimamente instruído e antenado com as coisas do mundo já sabia há tempos que os nazistas eram seus inimigos e o que representaria, para a Alemanha, a chegada de Hitler ao governo. Isso não era novidade alguma.

O que realmente chocou a comunidade de judeus alemães, de acordo com a memória de Arendt, foi a adesão de pessoas íntimas de seu círculo de amizades ao regime de Hitler.

Vizinhos, colegas de trabalho, conhecidos e até amigos próximos, que sempre haviam sido cordatos e gentis com os judeus alemães, tratando-os como membros da nação e não como uma “doença social a ser exterminada”; subitamente “saíram do armário” e aderiram à histeria ideológica nazifascista.

Esse foi o verdadeiro choque.

Descobrir que o nazismo não era um desvio de um bando de canalhas, mas uma força latente que esteve sempre dormente em potência na sociedade alemã e que eclodiu, como uma infecção política, quando o agente etiológico hitlerista emergiu do submundo das cervejarias de Munique para o debate político nacional; esse foi o grande choque para a comunidade de judeus asquenazes, acostumados a acreditar que o esclarecimento de Kant e Hegel os salvaria do antissemitismo atávico da Europa cristã.

Guardadas as devidas ressalvas históricas (para não cair em anacronismos), nós, que somos classificados como “esquerdistas” (não importando o que isso realmente signifique) sentimos a mesma coisa em 2018 quando Bolsonaro foi eleito presidente do Brasil.

Subitamente, como os judeus alemães do tempo de Arendt, nos pegamos cercados por gente de nosso círculo íntimo que “saiu do armário” e aderiu a “nova política bolsonarista” assumindo os signos e símbolos nazi-fascistas do seu discurso, sem nenhum pudor ou vergonha.

Quatro anos após desse choque, entrando nesse ano eleitoral de 2022, após a catástrofe de um governo que não apenas investiu na destruição sistemática das instituições democráticas, mas que apostou na normalização do absurdo e acabou fomentando um genocídio epidemiológico sem precedentes na historia recente do país, aliado a um retrocesso socioeconômico brutal; a gente volta a sentir no ar do ano novo a brisa leve da mudança.

A impressão que temos hoje é que, se as recorrentes obstruções intestinais do presidente não o levarem a óbito antes das eleições desse ano (o que para muitos seria motivo de júbilo) a extrema direita nazifascista sofrerá uma derrota contundente no Brasil.

O problema é que, no país do eterno futuro, terra em que o escritor judeu austríaco Stephan Zweig escolheu para se matar, a confiança no respeito pelos resultados eleitorais é sempre uma questão de fé (basta lembrar de 2016).

Além do mais nunca é bom esquecer que o bolsonarismo, assim como o hitlerismo, é apenas um saco vazio, um ícone de uma obstrução ideológica contra reformista que sempre busca interromper o fluxo da história quando esse corre na direção de transformações reais nas relações de poder cristalizadas.

Na Alemanha foi preciso uma guerra total que levou o país às portas da destruição absoluta e obrigou a “fina flor da burguesia berlinense” a se prostituir com soldados russos e norte americanos em troca de algumas latas de salsicha, para que a nação compreendesse o dano que a obstrução ideológica do nazismo provocou.

O reacionarismo bolsonarista, que flerta com as mesmas potências do genocídio e da necropolítica que alimentaram o ideário de Hitler, é uma obstrução ideológica de mesmo gênero.

Constirpações políticas desse tipo, tal qual o mal que ameaça implodir com as tripas presidenciais neste verão de influenza e ómicron, são presenças constantes nas sociedades modernas.

É por isso que precisamos continuar permanentemente atentos e nunca baixar a guarda, especialmente diante das curtas euforias causadas pelas pequenas vitórias que conquistamos.

Limpar a merda fóssil do fascismo é uma tarefa constante e sempre tão urgente quanto a desobstrução das vias da história. Um exercício permanente de utopia que serve para fazer com que o passado nunca venha a nos parecer mais sedutor que o futuro.

Clique para ajudar a Agência Saiba Mais Clique para ajudar a Agência Saiba Mais
Artigo anteriorPróximo artigo
Pablo Capistrano é professor, escritor e filósofo. Escreve às quintas-feiras.