CIDADANIA

Carioca da gema, da favela e de raízes nordestinas

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No morro do Cantagalo, entre os bairros de Ipanema e Copacabana, o pequeno Antonio Carlos viu a vida pela janela até os 9 anos de idade praticamente preso dentro do barraco de madeira e teto de zinco onde morava com a mãe, o pai e um casal de tios. A mãe, uma alagoana dura, impedia a todo custo o contato do filho com os meninos e meninas da favela. Oriunda de uma família de posses em Penedo (AL), que da noite para o dia perdeu tudo o que conquistara com a plantação de arroz, dona Esilda Cruz Lélis não se conformava com a vida de miséria na favela carioca. Quando algum parente nordestino perguntava o endereço da família no Rio de Janeiro, Esilda respondia Ipanema e pronto.

As favelas surgiram na primeira metade do século 20 associadas à escravidão. Com a libertação dos escravos, como ninguém tinha dinheiro, as moradias foram criadas a partir das circunstâncias, como o próprio Dom Antonio explica:

– Com o fim da escravidão, os escravos estavam livres para morrer porque não tinham onde trabalhar nem morar. Muitos foram trabalhar no porto do Rio de Janeiro. Em frente a esse porto tinha um grande morro onde havia uma plantação de fava. Fizeram os primeiros barracos ali e, no local onde haviam favas, nasceram as favelas, por isso o nome. Depois o nome favela foi usado para qualquer conglomerado urbano que existisse no morro. E sempre associados à miséria, a algo negativo, ao malandro que, naquela época, usava no máximo uma navalha e jogava no bicho, não era ligado ao narcotráfico, que só começa na década de 1970.

A sombra da escravidão na família de dom Antonio nasceu bem antes da chegada ao Rio de Janeiro, nos anos 1950. Se a parte materna chegou a ganhar dinheiro com a agricultura em Alagoas, o lado paterno nem histórias têm para contar. Tudo o que dom Antonio sabe sobre o passado do pai é que seu bisavô foi um escravo criado por um frade. Como as famílias de escravos eram separadas na medida em que migravam de propriedade para propriedade, foi só o que o pai conseguiu guardar na memória.

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Embora o celibato tenha sido determinado pela igreja católica a partir do Concílio de Trento, no século 16, as exigências só chegam mais de 300 anos depois ao Brasil, o que não deixa de ser curiosa a presença de dois frades na formação da família de dom Antonio. Além do religioso que ajudou a criar seu bisavô, o tetravô do bispo por parte de mãe também era reconhecido como tal.

– Era muito comum naquela época encontrar padres que tinham famílias, havia certa compreensão da sociedade. Difícil era aceitar que padres tivessem filhos.

Trancado em casa e sem muito contato com os demais meninos e meninas da favela, Antonio Carlos sentiu quando passou a frequentar a escola, no pé do Morro. Naquela época, o garoto já dizia que seria padre e rezava, criando missas imaginárias e fazendo dos biscoito Maria, hóstias de brincadeira.

Uma lembrança curiosa que dom Antonio guarda dos tempos de colégio no Cantagalo é do ator Cláudio Marzo, protagonista da novela Véu de Noiva, produzida pela Rede Globo em 1969, que morava num prédio em frente à escola onde Antonio estudava em Ipanema. Ao mesmo tempo em que o artista dividia na televisão as atenções com a atriz Regina Duarte, quando saía para trabalhar era o foco das mães que buscavam os filhos no colégio:

– As mães não sabiam se olhavam para os filhos ou para o ator, que saía sempre do prédio numa baratinha. Ali eu comecei a conviver com pessoas diferentes, de culturas diferentes que não tinham uma tradição religiosa, e tive que aprender a lidar com essas diferenças.

Antonio venceu a timidez e o medo inicial dos colegas usando a cabeça. Estudioso, cuidava de tirar notas boas e ajudar os colegas, dos mais fracos aos valentões, a fazer os exercícios antes das provas. Dar cola estava fora de cogitação.

– As professoras, naquele tempo, eram verdadeiros zagueirões. Eu ajudava os valentões e conseguia a proteção deles. Foi uma fase de adaptação que venci pelo viés intelectual.

Da escola para casa, Antonio pouco encontrava com o pai, que chegara ao Rio de Janeiro depois de servir ao Exército, na ilha de Fernando de Noronha. Na capital carioca, Hermílio Lélis dos Santos trabalhou como faxineiro e vigilante até chegar ao posto de ascensorista. Nos tempos do Cantagalo, o emprego de vigilante não permitia muito contato nem com o filho caçula e muito menos com a filha mais velha, que ainda morava em Penedo (AL).

Em razão dessa distância, a figura masculina mais presente na vida de Antonio Carlos foi o tio João. E por causa dele, o garoto optou pelo Fluminense na hora decisiva de escolher o time de futebol do coração.

– Quando eu cheguei no colégio, a primeira coisa que me perguntaram foi sobre meu time, mas eu não sabia. Na volta para casa, perguntei qual era o time do meu tio João e ele disse que era Fluminense. Então eu virei tricolor e também anti-flamenguista. É que no barraco vizinho ao nosso, todo mundo era rubro-negro. E quando o Flamengo fazia um gol a família do lado soltava foguetes no telhado da gente. Agora imagina o que é um foguete num telhado de zinco ! Por causa disso eu digo que tenho um trauma com o Flamengo que nenhum psicólogo tira e nem eu quero que tire. Mas adoro essas brincadeiras.

Com o processo de remoção das favelas no Rio de Janeiro a partir do final dos anos 1960, as famílias do Cantagalo foram transferidas para o bairro de Jacarepaguá. Cansada e humilhada por morar no Morro, a mãe de Antonio juntou as economias que havia guardado, pegou marido, os filhos e alugou com uma casa no município de São Gonçalo, a segunda maior cidade do Estado. A mudança aconteceu em meio aos primeiros jogos da Seleção Brasileira na Copa do Mundo de 1970.

O detalhe é que uma das favelas que compunham o cenário do bairro de Jacarepaguá era justamente a Cidade de Deus, para onde migraram as famílias do Cantagalo. Quando decidiu morar em São Gonçalo, dona Maria apenas adiou o futuro endereço do filho caçula. É que 22 anos depois daquela mudança, o jovem Antonio Carlos se ordenaria vigário da paróquia da mesma Cidade de Deus, favela onde dona Maria passou os últimos dias da vida, cuidada pelos moradores pobres do morro, antes de morrer.

 

Adolescência longe da igreja até o encontro com a teologia da libertação

A escola foi a porta de Antonio Carlos para a rua. Se até os 9 anos de idade o barraco de madeira e zinco era quase uma prisão, o tempo da nova morada foi de mais liberdade. Assim, conheceu o escotismo, fez novos amigos e se distanciou afetivamente, por um período, da igreja:

– Mas só afetivamente porque minha mãe, como boa alagoana, continuava indo à igreja e ninguém era besta de dizer que não ia com ela (risos).

Os caminhos do Evangelho se colocaram novamente à frente do jovem Antonio Carlos de uma maneira não muito ortodoxa. Um dia, alguns primos decidiram entrar para o grupo de jovens da igreja e o convidaram a fazer parte. O objetivo, porém, ainda não era seguir os caminhos de Jesus Cristo, mas o das meninas que também integravam o grupo. A irmã de Antonio, por exemplo, é casada até hoje com o namorado que conquistou na turma.

A vida seguiu, Antonio passou a acompanhar os desdobramentos da ditadura militar como expectador e passou a se envolver mais com as questões da igreja voltadas para o lado social até que, em 1978, João Paulo II é eleito Papa e, dois anos mais tarde, o sacerdote polonês visita o Brasil:

Aquela passagem do Papa João Paulo II pelo Brasil foi muito impactante, primeiro porque era a primeira vez que um Papa visitava o país e a homilia dele, em Belo Horizonte, impactou a juventude. Eu já havia entrado para a Pastoral da Juventude onde a gente estudava os documentos da igreja para descobrir como ajudar na transformação dos nossos sonhos e da nossa utopia. E toda essa militância foi despertando a minha vocação e fui me reaproximando da igreja até entrar para o seminário, em 1983.

Uma das figuras centrais da igreja católica na Baixada Fluminense e da luta pelos Direitos Humanos naquele período foi fundamental para a formação política de dom Antonio. Perseguido pela ditadura militar, o bispo de Nova Iguaçu, dom Adriano Hypólito, chegou a ser sequestrado e torturado pelo regime em 1976. Dias após o ataque, dom Adriano foi encontrado despido num matagal com o corpo pintado de vermelho. O carro do “bispo vermelho”, como era chamado pelos militares, também foi destruído numa explosão próximo à Confederação Nacional dos Bispos, cuja sede ficava à época no Rio de Janeiro.

– Nos anos 1970, fazer a opção pelos pobres era ser confundido com comunista. Como havia uma polarização muito grande, era preciso optar por um lado e, obviamente, tínhamos um viés de esquerda.

A Congregação Missionários do Coração de Jesus, a mesma de Antonio Carlos, ajudou dom Adriano Hypólito a fundar o seminário Diocesano Paulo VI, na Baixada Fluminense.

– Entrei para o seminário no final de 1983. Um dia um padre me perguntou se eu nunca havia pensado em ser padre. Como eu estava pensando, achei que ele tinha visto alguma coisa em mim. Eu disse que tinha medo, mas ele insistiu para que eu entrasse para o seminário para fazer o discernimento. Se fosse isso, ficava. Quem não se identifica, deixa. Na perspectiva da fé, aquele que tem o chamado, vai aprimorando. Ninguém entra para o seminário para ser padre, você entra no seminário para discernir. E para mim foi um momento de graça.

 

O trabalho de formação com jovens marcou a trajetória de Dom Antonio Carlos, um bispo à procura de respostas novas para questionamentos contemporâneos

 

No seminário de Nova Iguaçu, os caminhos de Antonio Carlos se abriram. Ele entrou de corpo e alma nos estudos da filosofia e da teologia focada na América Latina. A preocupação no seminário, ele conta, era formar um pastor com visão crítica para acompanhar o povo naquele momento da história.

– Ainda estávamos sob o impacto das conferências dos bispos de Medelin, na Colômbia, e de El Pueblo, no México, que nos deram os pilares para a igreja profética. Foi um momento forte. Não devia ser muito fácil também para os padres que nos formavam porque éramos muito críticos. Na nossa cabeça funcionava a relação opressor versus oprimido, na qual os padres eram os opressores e nós, os seminaristas, os oprimidos. A igreja no Brasil vivia uma ebulição. Quem viveu a década de 1980 entende o que eu estou falando.

Os anos no Seminário, entre 1983 e 1986, ajudaram dom Antonio a entender um modelo particular de Igreja, de mundo e de sociedade, onde a utopia guiava os seminaristas:

– Era muito utópico. Talvez a crítica que a gente pode fazer à juventude hoje é a perda da utopia. De fato nós sonhávamos e imaginávamos que outro mundo estava surgindo e que nós éramos testemunhas. Somos fruto da nossa história.

Os seminaristas entraram em contato com a luta de frei Leonardo Boff em defesa da teologia da libertação e, àquela altura, Antonio Carlos não tinha mais dúvidas sobre o caminho que seguiria. Era o viés social da igreja que lhe conquistara.

– Era enxergar a fé como um farol que pudesse iluminar a vida e denunciar o que chamávamos de pecado social, que gerava morte, abrindo portas para que o ser humano pudesse caminhar para uma vida plena. Não fomos formados num contexto desencarnado. Era fé e vida.

Outro momento fundamental para a formação de dom Antônio foi o período do noviciado, quando entra em contato com os exercícios espirituais de Santo Inácio. Um texto assinado pelo padre Libânio, um jesuíta da Teologia da Libertação, mexeu tanto com dom Antonio que aquelas palavras o aproximaram definitivamente da espiritualidade Inaciana (de Santo Inácio).

– O texto dizia que “não importa se a sua experiência é da sacristia ou da luta porque, mais cedo ou mais tarde, se é experiência de Deus, você só precisa chegar onde chegou Tereza Dávila: só Deus basta.” Isso me impactou porque naquele momento eu pensei: “não é só Deus que me basta”. E aquilo me provocou e me aproximou da espiritualidade Inaciana.

Comparando a experiência na escola de Jesuítas com as ideias disseminadas hoje pelo papa Francisco, dom Antônio não vê diferença:

Muita coisa que o papa Francisco diz hoje e que, para alguns, é uma novidade, para nós, que fomos formados na escola dos jesuítas, não é tão novo assim. A gente já conhecia isso na faculdade.

Como todo padre, Dom Antonio fez as faculdades de filosofia e teologia. A formação como vigário ocorreu em 1992, dia de Nossa Senhora de Guadalupe, padroeira da América Latina, no mesmo ano em que a Igreja católica comemorava 500 anos da chegada ao continente.

– Não podemos pensar só em termos de Brasil, somos da Pátria grande, da América Latina.

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Rafael Duarte
Jornalista e autor da biografia "O homem da Feiticeira: A história de Carlos Alexandre"