OPINIÃO

Carnaval de protesto? 

Leilane Assunção escreve às quintas-feiras, na agência Saiba Mais
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A maior festa popular do Brasil terminou e, como se diz por aqui, o ano vai começar agora, visto que “no Brasil o ano só começa mesmo depois do carnaval”. De fato, chegamos ao fim do primeiro dos três divisores de águas que esse ano terá, sendo os próximos a Copa do Mundo e logo depois as eleições presidenciais. Um fato que marcou o carnaval 2018 foi a retomada com toda força do conteúdo crítico e satírico da intervenção social que a festa pretende realizar na sociedade brasileira. Suas origens na Antiguidade oriental dão conta que se trata de uma festa donde eram aceitas as subversões dos papeis sociais clássicos (data possivelmente desse período a inversão dos papeis sociais de gênero durante o carnaval com os homens vestindo-se de mulheres, por exemplo). Historicamente foi mais uma daquelas festas pagãs que o cristianismo tentou primeiro combater e depois (visto o fracasso do combate) incorporar ao seu repertório litúrgico. O ritual da missa da quarta-feira de cinzas é testemunha desse fato. 

No Brasil a existência da festa data desde o período colonial, quando ainda se chamava entrudo, sendo difícil precisar cronologicamente o momento do século XIX no qual operou-se a mudança e popularização do nome da festa, de entrudo para carnaval. O fato conhecido e registrado de diferentes modos pelas fontes históricas do período é que o carnaval assumiu na sociedade brasileira um sentido de sátira da sociedade, de crítica dos padrões estabelecidos, a partir do humor especialmente, que gradativamente se tornaria marca da festa no país. 

O samba, simbolicamente datado de 1916, e suas antecessoras marchinhas, já se destacavam pelo seu potencial uso como instrumento de insatisfação social, cumprindo portanto uma função social primeira da arte que se materializa na máxima: “a arte imita a vida”. O formato atual de desfile das escolas de samba como símbolo do carnaval iniciou-se em 1932 e bem rapidamente se impôs como formato hegemônico, inclusive pelo fato de ter sido abraçado pela política cultural nacionalista do varguismo como símbolo cultural tipicamente brasileiro, sendo desde então utilizado como porta-estandarte da cultura brasileira mundo afora. Para termos noção, segundo o historiador Sergio Cabral (pai do infame ex governador do Rio preso),  em 1937 realizou-se uma transmissão radiofônica ao vivo diretamente do Morro da Mangueira para a Alemanha Nazista (não temos registros de quais seriam as impressões nazistas, mas devemos deduzir que não eram das melhores conhecendo o ideal racial ariano-alemão, e atribuímos tal intercâmbio meramente aos interesses politico-ideológicos relativamente afins entre os dois regimes de exceção em questão). 

Já, portanto, desde a década de 30, as escolas de samba e seus desfiles são usados não só como manifestação mais acabada do carnaval, como também símbolo de identidade cultural do país como um todo com todas as consequências de curto e longo prazo desse processo. 

Durante muito tempo tal formato de carnaval permitiu por exemplo uma excessiva sexualização do corpo da mulher, especialmente da mulher negra brasileira (aquela estigmatizada pelo estereótipo racista da mulata, a mulher boa de “sexo, quente e disponível”) com os efeitos que hoje conhecemos, de que o Brasil é o 5º país que mais mata mulheres no mundo. 

Neste carnaval de 2018 havia algo de novo no ar. Algo que vem se processando há um certo tempo, uma mudança de atitude do povo brasileiro em relação a determinados temas e que tem muito a ver com o clima de empoderamento dos movimentos sociais na luta pelos direitos das “minorias” (a maioria na verdade, demograficamente falando, é minoria apenas do ponto de visto politico ou mesmo moral), bem como a crítica do contexto do Golpe de Estado de 2016. 

O assédio sexual e o estupro de mulheres passou a ser seriamente discutido nos últimos anos, e o debate saiu dos muros das universidades e das Ongs e ganhou as ruas especialmente neste carnaval, que entra para a história como o mais crítico e consciente dos últimos anos. Dezenas de hastags, memes, adesivos e dizeres como “respeita as mina” e “não é não” começavam a reivindicar o direito ao corpo, o direito à folia, por parte das mulheres, sem que isso represente licença para que seus corpos e direitos básicos sejam violados.   

Até a grande imprensa começa a se render. A Rede Globo, apesar do golpismo, decidiu de uns dois anos pra cá, finalmente, vestir a garota globeleza e diversificar a chamada tão conhecida de todos os brasileiros, que antes só contemplava o samba e agora passeia de maneira mais plural pela diversidade regional e musical do país, um primeiro passo no reconhecimento de que mudar padrões de comportamento antigos, mas em desacordo com os Direitos Humanos pelos quais lutamos hoje é não só necessário, como possível. 

Por falar na Rede Globo, não teve preço nesse carnaval ver a emissora golpista ter suas chamadas ao vivo Brasil afora constantemente interrompidas pelo povão em tempo real  gritando “golpista”, “vai dar PT” e “fora Temer”. No sambódromo carioca, a disputa pela narrativa do Golpe e da corrupção também estava colocada. Nada mais apropriado, visto que se a arte imita a vida, o carnaval como manifestação artística da cultura brasileira não pode se eximir  de retratar um sentimento que hoje é geral na sociedade brasileira, na esquerda e mesmo na direita. A verdade é que há uma insatisfação com o cenário de corrupção que sabemos hoje está entranhada visceralmente na sociedade brasileira. 

As 5 primeiras escolas na apuração Beija-flor, Paraíso do Tuiuti, Salgueiro, Portela e Mangueira trouxeram enredos considerados engajados, com evidentes críticas a políticas sociais do Brasil e do mundo de hoje. Porém, das cinco escolas citadas, poderíamos dizer que três assumiram uma visão de mundo mais à esquerda, enquanto que outras duas, apesar da narrativa de crítica social, se postam, politicamente, num campo de possibilidades mais próximo dos “coxinhas”, vejamos. 

A Portela foi brilhante ao abordar o fato de que somos todos imigrantes ou foram nossos pais e avós, a partir da história dos judeus, que viveram na Recife de Maurício de Nassau e foram expulsos pela intolerância religiosa portuguesa, vindo mesmo a participar da fundação da maior cidade receptora de imigrantes da história do mundo, Nova York, que hoje é curiosamente um dos destinos mais interditados do globo para imigrantes graças às políticas de Donald Trump. No último carro, a referência aos refugiados do Mediterrâneo morrendo em seus botes pela chance de uma vida melhor foi um ícone do respeito ao ser humano sem teto e sem direito a viver em paz. O Salgueiro foi brilhante ao apostar no empoderamento feminino. A história das mulheres negras foi lindamente contada e valorizada, ponto para a escola de Andaraí. E finalmente a vice campeã, Paraíso do Tuiuti, pela qual até eu portelense e tenho certeza a maior parte do Brasil, torceu nessa quarta de cinzas.  

A Tuiuti foi ousada, corajosa e pôs o dedo na ferida, pois a corrupção não é algo abstrato, não palpável ou identificável, muito ao contrário, e hoje cada vez mais sabemos quem são os corruptos, quem são os responsáveis pela situação calamitosa que vive o país. Ao nomear os corruptos, ao identificar em Temer e sua quadrilha os assaltantes do país, Tuiuti foi muito mais longe que a tão aclamada e agora campeã Beija Flor, e também passou longe do oportunismo da Mangueira. 

A Mangueira só entrou nessa crítica porque se sentiu diretamente atingida com os cortes que o Prefeito evangélico do Rio fez nas subvenções estatais aos desfiles (o que é uma tremenda estupidez, como se o carnaval não gerasse mais receita que despesa para o Rio, afinal gostemos ou não mas trata-se do maior espetáculo artístico anual ao vivo do planeta). Mas não esqueço e não perdoo o apoio que a Velha Guarda da Mangueira deu para Aécio Neves na campanha de 2014. A Mangueira também está se eximindo da sua responsabilidade com a cidade do Rio, visto que o atual prefeito que ela critica (com toda razão, mas nenhuma “moral”) só está onde esta graças, dentre outras coisas, ao apoio da própria Mangueira, de acordo com  matéria disponível no site do PRB (partido do atual prefeito do Rio). O Presidente da escola campeã de 2016, Chiquinho da Mangueira, falou em quebra de preconceito. “Senador, a Mangueira este ano foi 10! O preconceito contra o senhor foi quebrado quando o senhor esteve na Liga e assumiu compromissos com o carnaval, uma das coisas mais sérias que tem no Rio de Janeiro. Meu compromisso nesse segundo turno é com o senhor, eu sou 10! A Mangueira é 10! O mundo do samba é 10!”, resumiu Chiquinho. 

Aí é bom em Mangueira:  “faz a merda”, ajuda a eleger o cara da Universal que cortou a grana da carnaval, mas agora ele “não presta mais né” ?. Coerência, a gente não vê por aqui. O caso da Beija Flor é ainda pior. Se a própria proposta de carnaval apresentada pela escola já é bem questionável, somente do ponto de vista artístico (levar alas inteiras sem fantasia, usando roupas do cotidiano, fere o conceito de carnavalização – visto que a arte imita a vida mais não é ela mesma). A crítica social deve, portanto, ser feita de maneira alegorizada, metaforizada, e não literal. E atribuo a vitória meramente ao lobby midiático poderoso em cima dessa escola, além da comoção causada pela representação (pobre em termos de conceito de arte) quase que literal de assassinatos em plena passarela do samba. 

A crítica da corrupção que fez a Beija-flor é típico da crítica “coxinha”. A corrupção aparece como algo abstrato, acima de nós, que nos atinge mas não sabemos de onde vem, diferente da Tuiuti que aponta o dedo para o Executivo federal em alto e bom som. A Beija-Flor não direciona claramente sua crítica e prefere ficar comodamente na posição de ganhar os louros da crítica da corrupção, mas sem o fazer de modo totalmente claro e comprometido com a verdade. 

Verdade inclusive que não é o forte pelas bandas da Escola de Nilópolis. Apesar do lindo passado de crítica social engajada dos tempos do saudoso e genial Joãozinho Trinta, hoje a Beija Flor foi abraçada e celebrada pela narrativa coxinha do Golpe e da Lava-jato. A Beija-Flor não é eximia crítica de corrupção, afinal, deveria ter feito alguma crítica ao governo de Guiné Equatorial, uma das ditaduras mais antigas e duras da África que há décadas explora e oprime um povo, mas que a azul e branco de Nilópolis não teve escrúpulo de exaltar num carnaval campeão em 2015 sem realizar absolutamente nenhuma crítica ao governo do pequeno e ditatorial país africano. Claro né, sem dúvida os R$ 10 milhões de reais que a escola recebeu do Governo de Guiné Equatorial tiveram poderoso efeito sobre a postura política (ou ausência dela) que caracterizou a homenagem que fez a escola ao governo da Guine-Equatorial. 

Mais grave ainda, como diz o ditado popular, quem tem teto de vidro não deveria atirar pedra nos outros. São bem conhecidas as históricas associações entre bicheiros e escolas de samba (talvez menos fortes hoje do que no passado, mas persistem tais relações). Mas poucas escolas podem se envergonhar de ter sua história manchada por um presidente (Anísio Abrãao David, atualmente de honra, apesar de honra ser o que mais falta a tal senhor) acusado e condenado com vastas provas por corrupção e lavagem de dinheiro em associação com quem? Os Marinho. Olha que coincidência não é ?  No conteúdo da sentença, afirma a juíza que “o grau de organização da quadrilha é impressionante, com escritório montados para a exclusiva prática de corrupção, que contam com funcionários próprios, específicas datas do mês para pagamento mensal da corrupção e onde foram encontrados milhões de reais em espécie escondidos em paredes falsas”. E Neguinho da Beija-Flor, um cara que passou pela Ditadura, por Sarney e Collor, por FHC e tudo mais, mas que só aprendeu a criticar, a opinar sobre política para cantar um samba satírico ao ex presidente Lula, alguém que ele, hipocritamente, diz respeitar. 

Então assim, que me desculpem os fãs da escola de samba Beija-Flor, muitos dos quais sequer estão cientes de tudo isso que agora escrevo, mas considerei a vitória da Beija-Flor a vitória da narrativa coxinha sobre o Brasil. Mais uma vez, tal como nos protestos de 2013, os fascistas se apropriam da pulsão popular por mudanças, da crítica da realidade social do momento para produzir a ideia de que são engajados e preocupados com a país, mas as ações dizem outra coisa. Vitória com V maiúsculo mesmo, teria sido pela primeira vez uma escola que veio do grupo de acesso ter alçado o campeonato. E ainda mais com a narrativa “certa” sobre a corrupção, com nomes e sobrenomes que deveriam um dia se tornar sinônimo de corrupção no dicionário: Michel Temer. 

Concluo colocando mais um tijolo no eterno debate sobre o potencial de crítica ou de alienação representado pelo carnaval. Para uns, “pão e circo” para anestesiar a população, para outros, momento por excelência de extravasar o cotidiano promovendo sua crítica. Para mim, um pouco de cada. Sem dúvida, se tivéssemos os números do carnaval em pessoas engajadas na política cotidiana teríamos outro país. Então o problema não é as pessoas protestarem no carnaval, mas o fato de a maioria só o fazer nesse momento. 

Vamos levar a irreverência, a sátira e a crítica pelo ano. Não vamos deixar tal narrativa esvaziar-se na quarta feira de cinzas, não é só mais um carnaval, é o começo de uma tomada de posição crítica que terá seu desfecho final (positivo assim espero) nas eleições presidenciais desse ano. 

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Historiadora e Militante LGBT