OPINIÃO

Carnaval Sem Partido

Todo carnaval tem seu fim na quarta de cinzas, certo? Ah, mas não foi isso que aconteceu com o evento de 2019 na capital do Rio Grande do Norte. O Carnaval Multicultural promovido pela Prefeitura do Natal movimentou a cidade em vários polos e trouxe artistas de grande relevância para atrair a população a ocupar os espaços públicos, estimulando a economia. Algumas atrações, no entanto, deram o que falar. Artistas contratados resolveram manifestar opiniões pessoais e posicionamentos firmes contra o presidente da república e isso desagradou demais o fã-clube do chefe do país.

Os mais indignados eram alguns moradores dos bairros de Tirol e Petrópolis que logo ganharam a adesão de personalidades como colunistas sociais e blogueiros, canalizando a revolta como legítimos representantes dessa gente tão identificada de corpo e alma com o Capitão da Reserva seja na ideologia, nos valores morais ou no nível intelectual. Os “formadores de opinião” logo se arvoraram em condenar as manifestações, dizendo que “cultura não combina com política”, ignorando por certo toda a história da humanidade e do desenvolvimento da arte pelo mundo, bem como sua influência sobre a política e relações humanas desde sempre.

Estes abnegados, legítimos e desinteressados líderes não se contiveram em defender um ponto de vista, mas também partiram para o ataque. Exigiram que a Prefeitura não pagasse o cachê dos artistas que tiverem falado mal de Bolsonaro. Teve até um que afirmou em seu blog que nunca tinha ouvido falar de Antônio Nóbrega, um ícone do Movimento Armorial, responsável pelo resgate e popularização de grande parte da riqueza da cultura nordestina, em mais um caso de ostentação de ignorância tão comum na blogosfera local. Por pouco, o blogueiro não relincha em sua postagem indignada. Alguns coices, ele deu.

No entanto, devo confessar. Fiquei bastante sensibilizado pela sinceridade e urgência contida nas vozes que se levantaram contra tal estado de coisas. Não há como ignorar uma causa tão nobre. Por isso, resolvi fazer coro a estes conterrâneos e tornar público meu apoio incondicional. Faço um apelo ao Secretário de Cultura Dácio Galvão e ao Prefeito Álvaro Dias que em 2020, possamos ter um maior cuidado com os nomes escolhidos para tocar em nossos festejos de momo. Afinal de contas, eles trabalham para todos os natalenses, inclusive para o burros, estúpidos e orgulhosamente ignorantes.

Por isso, resolvi contribuir com os insatisfeitos e sugerir alguns nomes de artistas isentos que estão muito mais alinhados com o novo Brasil. São nomes que certamente agradarão a classe média e elite locais, pois jamais teriam a pachorra de criticar o nosso presidente em pleno solo sagrado do Plano Palumbo, colocando em risco a todos nós. Já pensou se o homem resolve promover uma represália e falar mal da gente no Twitter? Deus que me defenda! Esses artistas que indicarei a seguir, muito pelo contrário, elogiariam o capitão, pois são todos apoiadores incondicionais desta nossa pátria armada, digo, AMADA! Porque sempre repetiram para si o slogan nacionalista do Brasil, “mame-o ou deixe-o”, digo “AME-o ou deixe-o”. Enfim, vamos às dicas!

Antes, um adendo: na versão anterior desta coluna, publiquei que a banda Uskaravelho seria uma opção, porém, fui alertado por amigos que, além de a banda já não contar há mais de 3 anos (!)com o componente de ultra-direita que a tornava apta a figurar nesta curadoria, ela conta com figuras humanas incríveis e profissionais de mão cheia como Júlio, Jeff e Cléo (que não conheço, mas que pelo que me foi dito, é um cara massa). Então, substituí o conjunto por um trabalho solo do seu ex-integrante. E aproveito a oportunidade para pedir desculpas à banda pela injusta inclusão na versão anterior. Júlio, Jeff, Cléo e companhia, recebam meu pedido de desculpas.

Gustavo Lima

O muso sertanejo tem diversas canções nas paradas de sucesso. A mais proeminente é a que ele canta “Tchê, tchê, tchê, rê, tchê, tchê, Gusttavo Lima e você!” Ou seja, nenhuma conotação política. Além disso, o cantor pode ainda interpretar canções de outros destacados artistas como “Meteoro da Paixão” de Luan Santana que traz os versos: “Te dei o sol, te dei o mar pra conquistar seu coração”, ou seja tem coisa mais Natal do que Sol e mar? O cantor se notabilizou ainda mais no cenário musical no ano passado quando apoiou o então candidato a presidente e o movimento armamentista, postando fotos e vídeos no seu Instagram portando um fuzil. Quem sabe, ele não possa até mesmo cantar uma apologia pela revogação ao estatuto do desarmamento através da letra de Michel Teló: “Nossa, nossa, assim você me mata!” Acho válido!

Ultraje a Rigor

O mais comovente sobre a história do Ultraje a Rigor é que o seu vocalista Roger aprendeu com a vida, pois antes ele admitia abertamente que “Nós não sabemos escolher presidente” e agora ele finalmente aprendeu e alçou ao poder um candidato que se alinha a suas atuações nas redes sociais. Roger é daqueles que adora dizer umas verdades, ainda que inverídicas, nas suas contas do Twitter e Facebook. Chama mulheres de putas, desrespeita gays e zomba até de pessoas que tiveram os pais mortos pela Ditadura como fez com o escritor Marcelo Rubens Paiva.  Ou seja, além de artista, é um cidadão que cultiva os mesmos valores dos que desconhecem Antônio Nóbrega. E ainda tem um componente a mais para o carnaval. Como o nosso presidente já demonstrou que presta mais atenção em cenas explícitas de erotismo do que na festa em si, o vocalista do Ultraje tem experiência como modelo da G Magazine. Assim, não foi lá uma graaaaande participação e a única coisa que se mostrou acima da média no ensaio foi o seu QI, mas acho que agrega ao nosso Carnaval Multicultural. Sugiro trazê-lo para o Baile das Kengas de forma a vê-lo entoar a plenos pulmões o refrão heteronormativo “Eu gosto é de mulher”. Nada mais sintonizado com a nova era do que ele.

Lobão

Além de ter no repertório sucessos de grande alcance e ressonância, Lobão é a personificação dos textões de Facebook. É como se uma postagem de tiozão ganhasse vida, subisse ao palco, cantasse “Me chama” e, entre uma música e outra, fizesse um discurso sem nenhum sentido, mas repleto de palavras de ordem e chavões agressivos direcionados aos que não comungam dos seus ideais conservadores.

Nando Moura do Litoral

Este ex-integrante da banda Uskaravelho, largou o trabalho na música para se tornar influencer, uma espécie de Nando Moura dos trópicos. Atualmente, sai por aí distribuindo gratuitamente sua opinião pelo Facebook, inclusive disseminando mentiras sempre que lhes favorecem o ponto de vista, além de oferecer uma consultorias de empresa que devem ser uma coisa magnífica. O consultor, inclusive, é filiado a um partido anti-esquerda que é uma espécie de “PSL de sapatênis”. Ou seja, se queremos promover um carnaval sem partido, nada melhor que uma apresentação de alguém filiado a um partido de direita. Né não? No entanto, como ele não toca mais em banda, sugiro que, em vez de um show, ele dê uma palestra falando sobre a nova ordem mundial. Já prevejo o retumbante sucesso.

Eduardo Costa

Eu achava que era um volante revelado pelo Grêmio com passagens pelo Vasco e e pelo Spartak Moscou, mas dei um google e constatei que ele realmente é um cantor sertanejo que se manifesta favoravelmente a Bolsonaro e que xingou a Fernanda Lima quando descobriu que ela é feminista. Ou seja: bota no radar, Dácio. Esse homem vai brilhar demais no largo do Atheneu.

 Ronaldinho Gaúcho

É claro que não poderia faltar o rei dos rolés aleatórios. Ronaldinho Gaúcho é versátil, minha gente. O sujeito adora pagode, vive em boates, já subiu ao palco num show do rapper 50 Cents e, atenção para a revelação: já gravou uma música de “funknejo ostentação”. Eu vou repetir pra vocês terem certeza do que estão lendo. Ele já gravou uma música de FUNKNEJO OSTENTAÇÃO. Sim, esse ritmo EXISTE e eu posso provar. Vou colocar abaixo um link da música “Vamos Beber” em que o jogador/cantor declama versos como “estoura sua champanhe que elas ficam louca. Começam a rebolar com o dedinho na boca. Quem tá chapado aí? Levanta agora a mão. Vem que tá tudo liberado e eu tô de patrão”. Acredito, no entanto, que o que vai tocar fundo nos corações do Plano Palumbo seja o refrão que diz “eu tô cheio de dinheiro, vamos beber.” Ou seja, tiro e queda: identificação imediata.

Quem quiser conhecer o trabalho e curtir o clipe de “Vamos beber” com Ronaldinho Gaúcho, é só clicar no link:

Enfim, essa é minha modesta contribuição para a folia de 2020. Espero que gostem das minhas dicas. Boa Quaresma a todos os cidadãos de bem. Tá OK?

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Carlos Fialho é escritor, publicitário, jornalista e escreve às segundas-feiras

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