DEMOCRACIA

Carta aberta a Carlos Eduardo Alves

Não faço a menor ideia se você tem problema de memória ou consciência. Mas como o ditado popular é sábio quando diz que “quem apanha, não esquece”, imagino que você lembre dessa história.

Em 2012, você concorria novamente ao cargo de prefeito de Natal. Seus adversários diretos eram Hermano Moraes (PMDB), Fernando Mineiro (PT), Rogério Marinho (PSDB) e Robério Paulino (PSOL).

Você, ex-prefeito de Natal, não tinha o amparo nem da sua família. Os Alves decidiram apoiar naquele ano o hoje deputado estadual Hermano Moraes. Você e Henrique Alves, seu primo e hoje coordenador da sua campanha para o Governo, se odiavam.

Sua principal cabo eleitoral era a então prefeita Micarla de Sousa, vice da sua gestão anterior e protagonista de uma tragédia administrativa usada até hoje por você para justificar uma gestão menos pior.

Naquela eleição de 2012, a diretoria da Sociedade dos Amigos do Beco da Lama e Adjacências (Samba), da qual eu fazia parte, decidiu realizar, na sede da OAB, uma sabatina com os candidatos a prefeito de Natal. Foram todos os candidatos, inclusive você.

Sua participação aconteceu dia 25 de agosto de 2012, conforme a foto onde aparecem eu e o então diretor executivo da Samba Dorian Lima, ao seu lado.

Na véspera de sua sabatina, em 24 de agosto daquele ano, escrevi um artigo no Novo Jornal criticando a postura vigarista do Jornal de Hoje que lhe acusava de defender o aborto, tentando trazer para o ringue da eleição uma pauta moralista que serve só para desconstruir o adversário, além de misturar religião com política num Estado constitucionalmente laico.

O repórter pegou seu programa de governo e foi atrás das pautas que a tradicional família brasileira têm horror. Acho que o título do artigo foi Jornalismo de Esgoto ou algo parecido. Tentaram fazer com você o mesmo que fizeram com a então presidenta Dilma Rousseff, em 2010. Aliás, sua aliada na época, e a quem você chegou a elogiar publicamente. Eu reagi, mesmo sem lhe conhecer pessoalmente. Não foi pra lhe agradar. Foi por dever, Carlos Eduardo. Foi por instinto, foi pelo jornalismo e pela democracia.

No dia seguinte, para minha surpresa, você bateu no meu ombro e me agradeceu. Lembro como se fosse hoje. Antes de sentar à mesa do auditório da OAB para o debate, você agradeceu “pela minha independência” e por ter lhe defendido de uma acusação rasteira de um jornal que, enquanto existiu, sempre foi agressivo com você.

Resolvi escrever essa carta quando vi um panfleto, produzido pelo submundo da sua campanha, acusando sua adversária das mesmas coisas que o Jornal de Hoje lhe acusava seis anos atrás.

O material que traz você ao lado do candidato de extrema-direita Jair Bolsonaro afirma que a candidata do PT Fátima Bezerra é a favor da legalização do aborto, da distribuição do tal Kit Gay para crianças nas escolas e do fim da Polícia Militar para libertar os bandidos da cadeia.

Tenho certeza que boa parte das pessoas que eu conheço e que votaram em você no 1º ou no 2º turno em 2012 custaram a acreditar, como eu, quando leu as barbaridades escritas nessa peça criminosa da sua campanha.

Você percebe que se transformou exatamente naquilo que você combatia ? Que pra vencer uma eleição você não teve pudor em usar as mesmas armas que seus adversários usavam contra você em campanhas anteriores ?

Carlos Eduardo, sua campanha é suja e muito mais rasteira que as acusações que lhe imputaram há seis anos. Não há parâmetros, Carlos Eduardo, para o esgoto no qual você mergulhou.

Eu confesso que fiquei surpreso quando você anunciou apoio ao candidato de extrema-direita Jair Bolsonaro.

Não que você devesse a mim ou a outras pessoas satisfação de nada. A questão é que, como homem público e dono de uma trajetória razoável na política, esperava-se o mínimo de coerência.

Mas você se uniu por conveniência a um sujeito a favor da violência e que faz campanha contra todas essas pautas moralistas das quais você já foi acusado de defender. Você se aliou a uma espécie de carcereiro que apoia a tortura, a ditadura, e que, como está comprovado, dissemina notícias falsas pra ganhar eleição.

Logo você que teve um pai jornalista e político preso pela ditadura militar em razão três notas de rodapé publicadas no jornal da sua família

Nessa história toda, Carlos Eduardo, admito: o errado são os outros.

Por um dia acreditarem num personagem.

Um personagem fake, que nunca existiu.

 

O panfleto distribuído pela campanha de Carlos Eduardo e considerado ilegal pela Justiça Eleitoral
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Rafael Duarte
Jornalista e autor da biografia "O homem da Feiticeira: A história de Carlos Alexandre"