OPINIÃO

Carta de quem fica pra quem vai

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Ontem o arroz queimou. Não pelo fogo alto ou por causa da TV ligada. Queimou porque sou dessas que fica pelos cantos da casa, se camuflando entre os móveis. Num lar de tão móveis moradores, de muito vai e vem, eu sou a que fica. Enquanto todo o mundo sai, eu fico. E, ainda assim, o arroz queima, o sol bate no sofá, o lixo acumula.

Confesso que não tenho dado conta de todo o mundo. Na verdade, nem sei quem é todo mundo. Pra mim, o mundo é essa massa de terra, gente, planta e bicho. Água e ar. E, sobretudo, tempo. Assim mesmo, como se fosse receita de bolo. Tempo para apanhar, tempo para descansar e até para pôr fogo.

Mas eu não tenho dado conta. É gente demais, é bicho na rua. É gente brigando por terra, brigando por água. E a prepotência dessa gente que mata bicho, derruba planta, machuca gente? Sei que também sou gente, também sou todo o mundo. Mas, perdão, não dou conta. É por isso que eu fico. Vocês vão, mas eu fico.

E como o meu gostar é banho-maria, devo dizer que ainda os amo. Mesmo que todo o mundo me assuste, meu gostar é que tem me protegido da voracidade do fogo. Amar já não pesa mais. Cozinho tudo lentamente. Meu gostar também é lentidão, é afago. Porque quando a gente vai pro mundo, sempre fica alguém.

E apesar de tudo, quero notícias desse mundo que não conheço e que recebe os “meus”. Como são os dias por aí? Que música tá tocando no carro? Ou você nem tá de carro? Bem, tanto faz, o que importa é que esteja tocando alguma canção. É que a minha única certeza sobre o mundo vem de uma música: Planet Earth is blue, and there’s nothing I can do.

 

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Ana Clara Dantas
Ana Clara Dantas é jornalista e escreve às sextas-feiras

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