CULTURA

Cartunista receita Mercúrio Cromo para sarar as dores e angústias agridoces da vida

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Arde, mas passa. É do jogo, da vida. Da complexidade humana que torna todo homem meio simples demais. Pelas 128 páginas de Mercúrio Cromo (editora Lote 42, R$ 50), o cartunista e ilustrador potiguar Aureliano Medeiros, 27, morde e assopra. Tem sido assim há pelo menos três anos, quando passou a divulgar na internet a série “Oi, Aure?”, sucesso viralizado mundialmente nas redes sociais. Os cartuns ilustrados por Aureliano são autobiográficos e trazem sempre o autor pelado, exposto, acompanhado de textos curtos, diretos, cotidianamente sensíveis e dilaceradamente cortantes. “É um retrato saboroso da angústia contemporânea”, escreveu na quarta capa Alexandra Moraes, criadora da série O Pintinho. O lançamento em Natal acontece nesta quarta-feira (20), a partir das 19h, na Confeitaria Atheneu, em Petrópolis.

Após a estreia com o romance Madame Xanadu (editora Tribo, 2015), Mercúrio Cromo é mais do que uma compilação dos cartuns criados nos últimos três anos. Aureliano reforça que, na reunião de quadrinhos, há uma carga emocional muito forte.

A gente pensa que não, mas a coletânea tem seu valor. No meu caso são três anos de uma carga emocional muito grande. É a história da minha vida nesse período, três anos contados através de cartuns. Mas tratei alguns, mudei a cor de todos os quadrinhos de 2016 e 2017 para ficarem iguais aos de 2015.

Além de rever boa parte dos cartuns criados e divulgados por Aureliano na página que mantém no facebook e já reúne 225 mil seguidores, o leitor de Mercúrio Cromo terá acesso a um desfecho inédito. Batizado de Como terminar um livro que fala tanto sobre dor, o último capítulo foi a maneira que o autor escolheu para dar sequência às angústias que transfere para o quadrinho.

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Ansiedade e solidão são temas recorrentes na obra do cartunista potiguar. A identificação do público com o trabalho de Aureliano é visceral. No início, imaginou que o trabalho o ajudaria a curar os próprios monstros. Três anos depois e com a repercussão cada vez maior do que imaginava ser a história de sua vida, alcançou várias outras vidas. E percebeu que não está sozinho e que o ser humano não é tão complexo assim.

– O ser humano é muito simples. Todo mundo sente as mesmas coisas, não tem como ter tantos sentimentos diferentes assim. A questão maior é a identificação e ter coragem de falar coisas que a maioria das pessoas não tem coragem de dizer. Não é que eu consiga captar o que os outros sentem, mas é que todo mundo pensa muito parecido, o sentimento é muito parecido, então não tem muito mistério.

De repente, no auge da produção durante os últimos três anos, Aureliano percebeu que as pessoas com transtornos mentais começaram a se identificar e a interagir mais com ele pelas redes sociais. O cartunista recorre à terapia para controlar a ansiedade, embora nunca tenha deixado de desenvolver as atividades da rotina normal. A empatia com um público tão específico o fez perceber que seu trabalho poderia ir além de curar suas próprias angústias.

– Quando percebi que as pessoas que têm transtornos mentais passaram a ter um carinho muito grande pelo meu trabalho comecei a ter um carinho especial por essas pessoas. Quando teve a campanha de prevenção ao suicídio, Setembro Amarelo, fiz uma campanha paralela de um quadrinho por dia. E disponibilizei todos os quadrinhos em alta qualidade para as pessoas baixarem e colocarem no lugar que quisessem. Eu comecei a receber muitas fotos dos meus cartuns pregados em hospitais, banheiros de escola, no meio da rua, em bares… aquilo tomou uma dimensão muito grande. E logo em seguida recebi uma mensagem de uma pessoa dizendo que pensava em se matar na semana anterior, mas que depois que viu meu quadrinho decidiu procurar ajuda psicológica. Então agora eu procuro fazer com que as pessoas não se sintam tão sozinhas. Quero que elas saibam que essas coisas podem parecer um dia muito malucas, mas no fundo são perfeitamente normais.

Aureliano acredita que a ansiedade como uma espécie de mal do século esteja ligada diretamente ao ritmo de vida estabelecido como padrão pelo mundo contemporâneo. Essa inquietação está presente na maioria dos cartuns de Mercúrio Cromo.

– É muito comum a gente encontrar pessoas com ansiedade. O ser humano não foi criado para viver no ritmo que a sociedade estabeleceu. Fomos jogados de no mundo de paraquedas e temos que fingir que está tudo bem, fingir que estamos vencendo na vida e que as coisas estão dando certo. O cartum me ajuda a lidar melhor com isso.

 

Nos quadrinhos, Aure valoriza os erros dos artistas que admira e utiliza os próprios erros como matéria-prima

 

A ideia de se desenhar pelado, com os pelos do corpo à mostra, surgiu naturalmente. Aureliano estabelece uma relação de confiança com o leitor. É como se dissesse que se ele não tem nada a esconder do público, o público também não deve esconder absolutamente nada dele. Os cartuns de Aure vêm sendo objeto de estudo e análise por psicólogos de várias partes do país.

– Os psicólogos adoram meu trabalho, ficam analisando. Alguns dizem que o fato de me desenhar pelado significa que estou me desnudando por dentro. Não pensei muito nisso no começo, mas acho que é isso mesmo. É questão de empatia também, um exercício de se colocar no lugar do outro e deixar o outro se colocar no seu lugar. Ao me mostrar nu para as pessoas crio um laço de confiança. Eu confio em você e você confia em mim.

Apesar da empatia e da identificação com o público já cativo, a mensagem de Aure já chegou distorcida até o receptor. Questão de interpretação. As experiências negativas o fizeram ligar o botão da autocensura para evitar conflitos. Aureliano prefere não comprar brigas. A escolha já o obrigou a apagar cartuns mal interpretados e a pedir desculpas. Como artista, o cartunista não vê qualquer problema nisso.

Num dos episódios que mais lhe marcou, o cartum estampava a frase “Em tempos de ódio, espalhar amor é militância” em que Aure aparece segurando uma bandeira com vários corações como se caminhasse por símbolos de ódio. O problema é que um desses símbolos era a bandeira do Brasil. E advinha quem apareceu para ofender e esculhambar o artista ?

– A gente estava vivendo um momento de muito ódio e a bandeira do Brasil vinha sendo usada para agredir as pessoas. Quando publiquei o cartum fui atacado por um exército do Bolsonaro. Invadiram minha página, me esculhambaram, falaram mal de mim, comentaram coisas muito negativas. Aí pensei que não queria comprar essa briga. Não sou uma pessoa militante, embora valorize bastante isso. Mas não sou essa pessoa e não queria me estressar. Nem tudo o que você quer falar as pessoas compreendem. E acho importante a autocensura, sim. A gente não fala tudo o que pensa na rua, não é porque sou artista que sou o baluarte da verdade. Eu poderia estar certo, mas prefiro evitar o conflito.

Em outro episódio, Aureliano foi atacado por feministas que também não entenderam um cartum publicado em que ele trocara a expressão “Miga, sua loka” por “Miga, sua louça”. A mensagem de Aure era extensiva a todas as pessoas se preocupam mais com a vida alheia. Porém, algumas mulheres entenderam que o recado era direcionado e, novamente, o cartunista preferiu apagar do que continuar apanhando.

– Prefiro apagar e pedir desculpas. Outro dia eu fui falar da minha ansiedade, do que eu estava sentindo, e escrevi num quadrinho “Como sobreviver numa crise de ansiedade”. Mas as pessoas que se diziam mais ansiosas que eu foram lá dizer que aquilo era absurdo, que tomar remédio era blá blá blá… isso mais comum do que você imagina. Então quando você passar por esse tipo de coisa vê que a autocensura é uma coisa importante também

 

Formado em jornalismo pela UFRN, cartunista não se adaptou ao trabalho de redação e se encontrou no cartum

 

Formado em jornalismo pela UFRN, Aureliano Medeiros se divide entre o prazer dos cartuns e o trabalho na assessoria de comunicação do Idema. Há convites para deixar Natal em 2018 e a mudança, embora não dê muitos detalhes, é uma questão de tempo.

O cartum levado a sério surgiu num momento em que Aure não se aceitava. Não gostava do próprio corpo, não gostava da pele e andava muito ansioso. Até que decidiu se desenhar para aprender na marra a se gostar mais e a entender o que se passava naquela mente inquieta. Na capa de Mercúrio Cromo, há um esparadrapo tipo band-aid. A ideia partiu do próprio autor e foi colado à mão em cada um dos exemplares da obra. Aureliano tem uma explicação simples para a intervenção no livro que resume três anos de angústias cotidianamente humanas:

– É que para sarar tem que arder um pouco.

 

SERVIÇO

Mercúrio Cromo

Editora Lote 42, 128 páginas

Preço: R$ 50

Lançamento em Natal

Dia 20, quarta-feira

19h

Confeitaria Atheneu (bar da dona Sívia), Petrópolis

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Rafael Duarte
Jornalista e autor da biografia "O homem da Feiticeira: A história de Carlos Alexandre"