OPINIÃO

Casa de Cultura de Currais Novos inaugura pátio das artes “Suetônia Batista”

Em tempos como os de hoje, em que a liberdade de expressão e o respeito às diferenças estão sendo constantemente ameaçados, testemunhar o nascimento de iniciativas culturais que prezem por uma linha progressista de pensamento e atuação, nos enche de esperança. Principalmente em cidades do interior como Currais Novos, distante 180 km de Natal, e que não conta com cinema, teatro ou livraria, para citar apenas alguns exemplos de espaços culturais que fariam diferença na vida dos seus 45 mil habitantes.

Objetivando democratizar o acesso à arte e à cultura, surgiu, há cerca de 15 anos, o projeto das Casas de Cultura Popular, uma parceria do Governo Federal com os governos estaduais. Com quase 30 equipamentos desta natureza, o Rio Grande do Norte tem encontrado dificuldades em manter a estrutura e o dinamismo interno das Casas de Cultura, as quais funcionam aquém das expectativas que existem em torno delas: fortalecer a cultura no interior do estado, dando suporte às produções do artista local e oportunizando à população o direito à fruição artística e cultural, além do direito ao lazer e ao entretenimento.

Apesar das dificuldades, as Casas de Cultura Popular resistem, cada uma a seu modo. Em Currais Novos, algumas alternativas têm sido encontradas para amenizar os problemas que o aparato governamental ainda não conseguiu sanar. Na perspectiva de somar esforços com os artistas locais e favorecer o dinamismo interno da Casa, articulações institucionais têm sido feitas, especificamente no que tange à participação nas políticas públicas voltadas para projetos. Entendidos como a forma mais democrática de captação de recursos, os projetos culturais são um importante mecanismo de fomento à arte e à cultura, especialmente se relacionados às demandas do lugar.

No primeiro semestre deste ano, a Casa de Cultura Popular de Currais Novos aprovou dois projetos junto ao poder judiciário do município, para utilização de recursos advindos das penas pecuniárias. Ambos os projetos visavam promover uma pequena reestruturação nas instalações da Casa e o incentivo direto a algumas atividades culturais. Além dos benefícios que tal reestruturação propiciou ao cotidiano do lugar, ainda tornou possível o surgimento de um outro equipamento cultural para a cidade: o Pátio das Artes “Suetônia Batista”.

Inaugurado no dia 14 de dezembro, o Pátio se propõe a acolher intervenções artístico-culturais pautadas na diversidade e foi colorido em parceria com a Ong Casarão de Poesia, que realizou parte do seu projeto de desenho e pintura em mural, nas paredes da Casa, projeto este também financiado pelas penas pecuniárias. O espaço homenageia a musicista currais-novense Suetônia Batista, que nasceu em 1913, e que marcou época sendo uma mulher à frente do seu tempo, sempre desafiando os valores de uma Currais Novos austera e conservadora.

A arte do grafite foi incorporada ao ambiente com toda a imagética curiosa e plural que lhe é própria: Geni desejando explodir o planalto central; emblemáticas figuras de inspiração espiritualista; mensagens de apologia ao meio ambiente e ao amor; representações dos gêneros em sua diversidade; críticas às desigualdades sociais; além de um Salvador Dali com seu olhar sagaz a testemunhar a arte sendo propagada em suas mais variadas dimensões.

O que se espera de um lugar como esse para 2020? Ocupação artística! Que cada fazedor de cultura de Currais Novos encontre no Pátio das Artes um espaço para ecoar vozes, cores, performances, sons, luzes, movimentos, risos e encantos. Que as notas lúdicas e líricas do bandolim de Suetônia Batista desenhem uma nova história para a cultura currais-novense: que esta seja, mais uma vez, marcada pela irreverência e pela coragem de transformar as estruturas cristalizadas e paralisantes que a indústria cultural nos impõe. E que as Casas de Cultura Popular do Rio Grande do Norte sejam um palco democrático para que a cultura dos interiores – com toda a sua riqueza e diversidade – encontre seu lugar de resistência. Pois que o porvir – tão nebuloso nos dias atuais – necessita de sonhos para ser, e ação para se fazer: e a arte e a cultura têm sonho e ação em seu poder.

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