CULTURA

Casal de escritores entra em combustão e lança livro de cartas eróticas

Tudo começou como exercício literário e terminou, se é que termina, em sonhos lascivos embaixo de lençóis imaginários. Os escritores Cefas Carvalho e Jeanne Araújo lançam nesta quarta-feira (12) “Combustão”, primeiro livro feito a quatro mãos pelo casal a partir de cartas romanceadas enviadas de um para o outro, por email, durante aproximadamente dois meses. O resultado dessa parceria picante e temperada pode ser conferido em primeira mão na noite de autógrafos que ocorre a partir das 19h, no Bardallos Comida e Arte, no Centro.

Hilda e Gregório, os personagens incorporados pelos autores, trocaram, ao todo, 44 cartas, que começaram a ser escritas sem a pretensão de compor um livro.

Jeanne Araújo lembra que, por ter se dedicado à poesia durante toda a trajetória literária, não sentia segurança em partir para um novo gênero. Foi quando Cefas propôs um exercício:

– Eu sempre escrevi poesia, mas achava que nunca escreveria um romance. A poesia é bem enxuta e o romance é diferente. E Cefas me propôs um exercício. Ele criou um personagem e escreveu uma carta romanceada para um personagem que eu também criei. E começamos. Ele mandava a carta de Gregório e Hilda respondia”, diz Jeanne.

Hilda e Gregório são inspirados na poetiza paulistana Hilda Hilst e no poeta baiano Gregório de Mattos, referências literárias para os dois. As cartas foram nascendo no escuro e a partir da “deixa” que vinha na carta anterior. O que tornou o exercício da carta ainda mais real foi o fato de Cefas morar em Parnamirim e Jeanne em Ceará-mirim, dois municípios da Grande Natal.

Aos poucos, Gregório e Hilda foram ganhando vida e forma. Ele, um velho de 75 anos, paralítico. Ela, uma senhora de 60 anos, nem tão recatada assim para os padrões da sociedade.

– “Como era uma brincadeira, na primeira carta eu assumi a narrativa de um senhor de 75 anos paralítico entrevado em cima de uma cama, que é para não ter nenhum resquício de autobiografia, para poder ser um exercício. Se fosse um jornalista com 40 e poucos anos não era um exercício, mas um diário. E Jeanne seria uma professora com 40 e poucos anos. Então já na primeira carta eu já finco pé nessa narrativa e a história vai se desenvolvendo”, diz Cefas.

Cefas Carvalho e Jeanne Araújo incorporaram Gregório e Hilda no romance

Gregório e Hilda tiveram um romance na juventude, mas romperam. Nas cartas, os dois procuram responder questões como o motivo pelo qual terminaram a relação, porquê não tentaram reatar e o que cada um fez da vida nos anos seguintes.

Mas as correspondências também vão além da tradicional DR (discussão de relacionamento) e ganham tempero na medida em que a vida sexual das personagens vai sendo contada:

– “A proposta inicial era desafiar um ao outro a contar a própria vida sexual ao longo dos anos. Já na primeira carta Gregório diz que quer saber o que Hilda fez da vida e ambos embarcaram profundamente na viagem. Por isso é um romance epistolar (quando a narrativa se desenvolve através de cartas) e erótico”, conta Cefas.

“Mas, poeta, lembre-se de que estamos falando de nós dois, portanto, em sua memorialística, esqueça a família, os almoços e jantares, ignore os filhos, todos já crescidos e casados (alguns separados, claro), deixe para lá as melancolias e deite fora os sentimentos puros e singelezas que agradariam idosos de alma tranquila (o que não sou): quero seu memorial de cama, um relatório de sua vida amorosa”

                                                                                                                                                               Trecho de “Combustão”

Combustão demorou quatro anos para ficar pronto. Nesse período, tanto Cefas como Jeanne lançaram outros trabalhos individuais. O jornalista publicou “Olhos Salgados”, o quarto romance da carreira; enquanto a professora lançou “Corpo Vadio”, seu segundo livro de poesia.

Para Cefas Carvalho, escrever um romance epistolar erótico foi mais fácil em razão da experiência já consolidada como romancista:

– Eu tenho facilidade de transitar de um gênero para outro. Pra mim não é poesia, mas prosa mesmo. Como sou obcecado por narrativa, sou daquela linha de (William) Faulkner (considerado um dos maiores romancistas do século XX), para quem o tema que escolhe a narrativa. “Grande Sertão: Veredas”, por exemplo, foi escrito em dialeto mineiro porque Guimarães Rosa acreditava que aquele romance só dava para ser escrito daquela forma. Foi o que fiz em “Combustão”.

Jeanne Araújo vê diferenças entre os dois gêneros, continua no time da poesia, mas admite que gostou da experiência:

– Eu não consigo ficar distante da poesia e nesse livro a poesia aparece de alguma coisa é proposital da narrativa. Ficou claro para mim que uma coisa é muito diferente da outra. Minha poesia é muito enxuta e no romance a narrativa tem que estender. Foi difícil, mas vi que não é impossível. Na verdade, foi maravilhoso fazer

 

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Rafael Duarte
Jornalista e autor da biografia "O homem da Feiticeira: A história de Carlos Alexandre"

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