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Casos de feminicídio no RN inspiram espetáculos teatrais

A crueldade da violência contra a mulher no Rio Grande do Norte tem chamado a atenção de realizadores culturais. As peças de teatro “Mulheres Invisíveis” e “Pelo Pescoço” retratam crimes de feminicídio que aconteceram em 2015, quando foram registrados 11 casos, e 2016, que teve 19 assassinatos de mulheres com características de violência doméstica e/ou gênero, de acordo com o Observatório da Violência Letal Intencional no RN, Obvio.

Mulheres Invisíveis

Patrícia, 37 anos; Antônia, 32 anos; Maria da Conceição, 21; Maria Daiane, 20; Cássia, 17. Mortas em julho de 2015 no município de Itajá (RN), elas inspiram o espetáculo “Mulheres Invisíveis”, do grupo Estandarte, que está em cartaz no Tecesol. No próximo final de semana, dias 23 e 24, as apresentações começam às 19h.

Os ingressos serão vendidos no local, 1h antes do inicio do espetáculo, a R$ 20 e R$ 10 (meia).

O texto de César Ferrario surge como provocação diante do silêncio que acompanha casos de feminicídio como esse. Até hoje o caso não foi completamente solucionado.

“O principal acusado tá preso. Mas falta algumas peças desse quebra-cabeça. E outro detalhe é que o crime ainda está tipificado como homicídio e não como feminicídio”, ressaltou Lenilton Teixeira, que divide a direção com Jefferson Fernandes e teve o insight ao ler uma crônica da jornalista Sheila Azevedo que comparava a cobertura jornalística da chacina e a apreensão de 146 galos de rinha.

“Percebemos o modo como a sociedade deu mais destaque ao abate dos galos do que a morte violenta das cinco mulheres. Foi então que começamos a nos perturbar e a não querer silenciar sobre o feminicídio”.

Por isso, a narrativa também busca analisar o papel da imprensa na divulgação de crimes como esse. Na época, palavras como “cabaré”, “bordel”, “prostitutas” e “garotas de programa” foram exaustivamente usadas para qualificar as vítimas.

O grupo busca ao reinventar a história das cinco mulheres assassinadas, procura revelar os próprios traços da barbárie humana. Ao mesmo tempo, essa mirada explora vestígios e procura juntar pedaços dilacerados de sonhos e itinerários interrompidos destas mulheres, cujas narrativas possíveis não cabem, simplesmente, na designação de prostitutas.

No palco: Dinha Vitor, Mayara Pontes, Marinalva Moura, Thémis Suerda, Thayanne Percila ressuscitam a história das mulheres mortas naquela madrugada. A música ficou por conta de Luiz Gadelha.

“Mulheres Invisíveis é o segundo espetáculo de uma trilogia do Grupo Estandarte que se refere àqueles que se encontram à margem da sociedade. O primeiro espetáculo foi “Desaparecidos”, sobre o rapto de cinco crianças no bairro Planalto da cidade do Natal/RN, entre os anos de 1998 e 2001. O terceiro levará ao palco histórias de trabalho escravo.

A montagem do espetáculo contou com financiamento coletivo.

Foto: Daniele Araújo

Pelo Pescoço

“Pelo Pescoço” é uma instalação cênica com performance em dança de Ana Claudia Viana. É um experimento que desdobra a obra plástica de mesmo nome, que tem como protagonista um personagem antropozoomórfico – cabeça de girafa e corpo de mulher, do artista visual Daniel Torres.

O título se refere a dois crimes que ocorreram no estado em menos de 24 horas e foram noticiados juntos em março de 2016. Duas mulheres mortas pelo pescoço: Síntia Nádia, de 25 anos, foi asfixiada em São Gonçalo do Amarante, e Jacilene Francisca, 31 anos, atingida por um tiro em Natal.

A próxima apresentação será durante o Circuito Cultural Ribeira, no Espaço a3, a partir das 19h30 do domingo (09).

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Isabela Santos
Isabela Santos é jornalista e repórter da agência Saiba Mais

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