DEMOCRACIA

Cassiano Arruda, Lula e Sua Excelência, o fato

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O jornalista Cassiano Arruda Câmara, que assinou a coluna Roda Viva no finado Diário de Natal por 35 anos e comandou a tropa do Novo Jornal durante quase 10 anos em Natal (RN), costumava terminar uma discussão sobre qualquer matéria polêmica na redação com uma frase: “não vamos brigar com os fatos”.

Haviam outras frases, como a que dizia que jornal não é feito para defender tese de mestrado. Mas essa específica, sobre “Sua Excelência, o fato”, como ele pontuava, encerrava todo e qualquer embate entre repórteres, editores e chefia de pauta.

Não importava o lado para onde a pauta descambava (e Cassiano é um jornalista conhecido e reconhecido na cidade ligado à elite do dinheiro, para usar uma definição de Jessé Souza), o fato era, de fato, o prato principal do jornal.

De todas as críticas ao governo Wilma, por exemplo, alvo principal do jornal no primeiro ano de vida, nenhuma mereceu uma resposta judicial. Era agressivo, por vezes virulento, mas era fato.

Retomo a frase de Cassiano Arruda para, vejam a contradição, falar do PT e do Lula. A mídia empresarial, reconhecidamente anti-petista, entrou numa paranoia e iniciou uma pancadaria sem fim com Sua Excelência, o fato.

Todas as pesquisas de intenção de voto indicam a liderança isolada do ex-presidente Lula na corrida presidencial com larga vantagem sobre os demais candidatos. Ainda assim, alguns veículos insistem em apagar essa informação do noticiário e destacar, em primeiro plano, o segundo colocado, Jair Bolsonaro (PSL).

É murro em ponta de faca.

Até que mude o cenário e a Justiça Eleitoral casse o registro da candidatura da principal liderança petista, Lula é um legítimo candidato à presidência da República. É o que diz a lei, tão maltratada pelo próprio Judiciário do país.

Não há outra interpretação.

Independente do que defendam militantes de Jair Bolsonaro, jornalistas de direita, o juiz Sérgio Moro, o procurador Dallagnoll, a família do Roberto Marinho ou seguidores do MBL, sua Excelência, o fato, é tão claro como o despreparo de segundo colocado: o candidato do Partido dos Trabalhadores nas eleições de outubro, registrado oficialmente no Tribunal Superior Eleitoral, é um sujeito chamado Luís Inácio Lula da Silva, nordestino, ex-metalúrgico, corinthiano, viúvo duas vezes, pai, avô e ex-presidente da República por dois mandato consecutivos.

Que análises sejam feitas com base em outros cenários é um direito legítimo e democrático. Que nas redações de jornal ou nos botequins se critique a estratégia do PT é um direito legítimo e democrático. Que analistas especulem sobre a quantidade de votos que Lula pode ou não pode transferir para outro candidato é um direito legítimo e democrático.

Assim como também é legítimo e democrático que Lula seja o candidato do PT à presidência da República.

Qualquer matéria de jornal ou programa de TV baseada em pesquisa de intenção de voto onde não conste o nome do ex-presidente Lula pode ser interpretado de várias formas.

Só não é fato.

Cassiano Arruda não me deixa mentir.

 

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Rafael Duarte
Jornalista e autor da biografia "O homem da Feiticeira: A história de Carlos Alexandre"

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