OPINIÃO

Ceia natalina indigesta

No primeiro natal no (des)governo Bolsonaro, os meses que antecederam dezembro foram de expectativa e tensão. Afinal, sob os eflúvios da família reunida ao redor da mesa farta, com peru, tender e frutas (isto é, em tempos de crise nem tão farta assim) houve o temor de juntar os antagônicos em tempos de polarização.

Trocando em miúdos: Progressistas temerosos (ops) em encontrar os parentes ´bolsominions`, principalmente os tiozões do pavê, e, do outro do ringue, digo, da família, os conservadores de Direita na expectativa da zombaria dos ´petralhas`. Desde a traumática eleição presidencial de 2014 que a polarização política chegou á ceia de natal.

É possível acordos familiares para se evitar o tema ´Política` à mesa? Teoricamente, sim. Mas, é improvável que depois de uns goles de vinho os parentes de natureza mais provocadora não encontrem uma brecha para alfinetar publicamente o parente do outro espectro político e daí a coisa descambar para um quase UFC familiar-natalino.

Pelos relatos selvagens de amigos e amigas em natais passados, no balaio da politização (em tese Direita x Esquerda, mas que na verdade soa mais como Progressistas x Reacionários) entra toda gama de comportamento e sobre bala perdida verbal para a sobrinha lésbica, o filho tatuado, o primo gay, a tiazona que fuma baseado de vez em quando… No natal polarizado Brasil pós-2014 posicionamento político se uniu a bandeiras gerais e a posturas cotidianas. Fuma maconha e tolera casamento gay? É de Esquerda! Quer o fim do desarmamento e acha que a Polícia tem mesmo é que bater nos bandidos? É de Direita.

Um dos motivos pela qual as ceias natalinas em família se tornaram um barril de pólvora é justamente porque neste Brasil atual ninguém consegue se conter no sentido de expressar o que pensa, ainda que seja em local e momento inadequado e que vá ferir alguém próximo ou querido. O sujeito não gosta de piercing? Então ele fará questão de deixar isso bem claro para o sobrinho que as usa no rosto. A tia evangélica é contra o divórcio? Então ela vai ironizar em plena mesa o primo que está no terceiro casamento. Enfim, as redes sociais e o bolsonarismo  – em essência agressivo e barulhento – deram aval para muita gente gritar seus preconceitos e cismas.

E quem melhor momento para dar vazão aos preconceitos, raivas e rancores do que, após uns doses de álcool, com a família toda reunida?

Ah, e sobre o aniversariante da noite – Jesus Cristo – ter pregado justamente a tolerância, o perdão e o amor, é um mero detalhe. Em um momento em que seus seguidores fazem arminha com a mão nas igrejas, a ceia de natal ser bélica parece mais do que natural.

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