OPINIÃO

Cenas de uma catástrofe anunciada

Não foi por falta de aviso. Muita gente alertou, no auge do surto antipetista que assolou o país, dos riscos de se interromper o calendário eleitoral e romper com a ordem constitucional sob a justificativa de que a presidente eleita Dilma Rousseff teria cometido umas tais “pedaladas fiscais”. Após dois anos, o governo que emergiu do golpeachement de 16 é um dos mais mal avaliados da história da República.

Com apenas 3% de aprovação o governo Michel Temer, classificado por 70% da população como “ruim ou péssimo”, dobra o cabo da boa esperança e aponta para um fim melancólico.

No apurado dessa mal fadada aventura política, a interrupção da ordem democrática deixou como legado, a raiva, o desânimo, a descrença e uma sensação de ressaca coletiva, em que as cenas mais fortes, gravadas na memória narcotizada da nação, são as de uma catástrofe anunciada que, infelizmente, se realizou.

Presos na roda viva de dívidas bancárias e na contração no consumo o brasileiro viu, nesses dois anos, o desemprego atingir 13,7 milhões de pessoas; observou sua renda familiar encolher 7,6% e de quebra assistiu a insegurança explodir nas ruas, mesmo com o gasto de bilhões em intervenções militares sem resultado e com o encarceramento em massa atingindo níveis estratosféricos, com 726.721 presos na terceira maior população carceraria da terra.

Não importa a cor da camisa que você vestiu em 2016, todos nós, manifestoches ou não, coxinhas ou mortadelas, esquerdopatas ou direitofrênicos, observamos, estupefatos, a hipocrisia desmascarada de uma turba de moralistas de araque.

Com gravações, malas de dinheiro e delações premiadas expostas em rede nacional, tal qual em uma série policial de gosto duvidoso, o eleitor presenciou, bestificado, o tsunami que empurrou nosso capenga sistema político para a beira do abismo.

Um escuro e tenebroso abismo de onde emergiram do lodo da história, velhos malassombros fascistóides e antigos cadáveres fardados, com sua anacrônica paranoia anticomunista e sua vexaminosa louvação da execução e da tortura como receita infalível para a pacificação social.

Mesmo com a queda da inflação e das taxas de juros a aprovação do governo não subiu, mostrando que a ortodoxia monetarista do dream team de Henrique Meireles, pode até entender de sistema financeiro, mas é péssima quando o assunto é cálculo político.

Hoje, é mais fácil encontrar uma espécie rara de borboleta em extinção bem no meio da Avenida Paulista, do que achar, nas ruas do Brasil, um representante dos 3% que apoiam o governo Temer.

Talvez isso se explique porque esse tipo de gente muito dificilmente pisa no mesmo chão em que o trabalhador brasileiro costuma a caminhar todos os dias. A julgar pelos lucros estratosféricos dos três maiores bancos privados do Brasil, que chegaram em 2017 a 53,9 bilhões de reais já fica mais ou menos claro onde é que a se esconde esse povo que vibra com os “avanços” da política econômica implementada desde de 2015.

O mais curioso é que, em meio a todo esse processo, que se arrasta desde que o candidato derrotado nas eleições de 2014, Aécio Neves, recusou a aceitar o resultado do pleito, os que gritam golpe agem como se vivêssemos em um estado de normalidade institucional e os que juram que estamos vivendo em um Estado democrático de direito fortalecido, agem como golpistas descarados, batendo palmas para abusos jurídico-policiais de todo tipo e escandalosas gambiarras hermenêuticas, que subvertem a todo momento o texto expresso da constituição.

Nesse samba do militante esquizoide, os partidos de esquerda ainda apostam nas eleições e sonham com a possibilidade do STF libertar Lula, imaginando que poderão reverter, com o poder do voto popular, a agenda imposta pela turma de Meireles e seus camaradas banqueiros; enquanto isso, na mesma toada paranoide, os grupos de direita que viram no golpeachement a oportunidade de impor uma agenda econômica que nunca seria aprovada nas urnas, jogam todas as suas fichas na judicialização e na militarização do processo político; colocando como cães de guarda de suas articulações antidemocráticas os vingadores togados e a liga da justiça militar, sempre a postos para virar mais uma vez a mesa na cara dura, caso o resultado da eleição não seja aquele que interesse ao tal “mercado”.

Com o país rachado e a crise social sem perspectiva de diminuir seu impacto sobre a vida das famílias brasileiras, especialmente as mais pobres, o governo Temer ao menos nos deixa uma importante lição: quando se aposta contra a democracia, no fim do jogo, quem perde de goleada é o povo.

 

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Pablo Capistrano
Pablo Capistrano é professor, escritor e filósofo. Escreve às quintas-feiras.