OPINIÃO

Chamemos as coisas pelo nome

Não sei se foi mesmo o maestro Tom Jobim, mas ficou para a história de que ele seria o autor da seguinte frase: “o Brasil não é para principiantes”.

E não é mesmo, Tom (ou quem quer que tenha proferido a fala). Recentemente entrou no radar das autoridades policiais do Rio de Janeiro um grupo denominado “traficantes de Jesus”. O que eles fazem não é exatamente novidade.

Enquanto pretensos seguidores do ramo evangélico do catolicismo, os traficantes e membros de facções criminosas estão destruindo terreiros, atacando seguidores do candomblé e da umbanda. Os grupos invadem as casas, quebram tudo e expulsam os líderes religiosos.

Os casos passam de 200, segundo o registro de denúncias da Comissão Contra a Intolerância Religiosa do RJ. Oito membros do “bonde” foram presos pela Polícia Civil carioca este mês.

A violência contra as religiões de matriz africana não é novidade. Os pretos escravizados, ao lado dos indígenas, eram obrigados a deixarem para trás toda sua história, religiosidade e cultura para assumir o catolicismo europeu. Já no período republicano a prática religiosa foi totalmente criminalizada, o que ajudou a cristalizar na sociedade o preconceito contra as religiões e seus praticantes.

Preconceito, não. Precisamos passar a tratar os crimes com a seriedade que o caso pede e chamar as coisas pelo nome: terrorismo e racismo religioso. Pura e simplesmente. Assim como um ataque a uma igreja cristã ou a uma sinagoga, por exemplo, é considerado terrorismo, no caso das religiões de matriz africana também é.

As autoridades policiais e estatais têm a obrigação de agir. E as lideranças religiosas sérias, o dever moral de se manifestarem contra tais crimes. Não dá mais para achar que esse tipo de ataque é só intolerância. O ódio é uma força muito potente para ser ignorada.

 

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