OPINIÃO

Ciência e religião: ai essa velha pendenga !

“E o seu nome era João”. Essa frase não me sai do pensamento. Será que se trata mesmo de um nome, ou será o título de um ser humano que resolveu fazer de uma causa, seu modo de vida? Evidentemente que isso não acontece com todos os Joões, mas creio que todos os seres humanos que resolveram fazer da luz sua razão de viver, deveriam ser chamados de Joana ou de João.

Retornei a Felipe Camarão depois de uns meses distante desse bairro que aprendi a admirar. Desde 2005 que percorro de carro ou a pé cada uma de suas ruas, vilas e avenidas. Quando me deparo diante de um templo religioso, paro, tiro uma foto e faço minhas anotações. Foi desse modo que eu encontrei em 2006, juntamente com minhas companheiras e companheiros de pesquisa, bolsistas de iniciação científica, mestrandos ou doutorandos da UFRN, 58 igrejas evangélicas. Encontramos também igrejas e capelas católicas, Centros-espírita, um Terreiro, e outros imóveis reservados para uso religioso, mas decidimos nos concentrar nas igrejas evangélicas, devido a seu elevado número.

Cinco anos depois, em 2011, refizemos o trabalho de varredura, e dessa vez nosso banco de dados pulou para 96 registros. Em 2016, para completar uma década de pesquisa, fomos novamente a campo, e nosso banco de dados chegou a 140 igrejas evangélicas em Felipe Camarão. Nesse período, muitas igrejas fecharam as portas ou se mudaram para outros bairros, de modo que das 140 igrejas registrada, 101 estão em atividade.

Compartilhei essa minha experiência em Felipe Camarão com o João, e ele ficou me olhando por uns instantes, a cabeça estava meio deslocada para trás como se quisesse me enxergar melhor, dentro de uma perspectiva correta, e perguntou:

– Pra que serve tudo isso?

– Isso o quê?

– Essa pesquisa toda? Tá querendo vender alguma coisa?

– Olha João, repliquei, o conhecimento não demanda justificativa, muito embora, eu me lembro de um livro chamado “Conhecimento Proibido”, de um cientista chamado Roger Shattuck. Ele questiona essa minha frase de que “Conhecimento não demanda justificativa”. Pode ser. Agora, quanto a esse conhecimento que estamos tentando ajuntar sobre as igrejas evangélicas em Felipe Camarão, eu acho que não é proibido, pois ele está a serviço das próprias igrejas.

– Como assim? Quem vai lá na UFRN saber o que vocês estão escrevendo?

– Certamente que praticamente não vai ninguém, mas eu e meus colegas estamos sempre por aqui partilhando aquilo que percebemos. Eu diria até que foi isso que levou os líderes evangélicos a se organizarem numa Associação para discutir e enfrentar a realidade deste bairro e da cidade de Natal.

– Olha, eu sei que o Sr. é um pouco diferente, pois é ou pelo menos já foi pastor, mas vocês lá na Universidade jamais vão conseguir nos entender. Além do mais, acabam passando uma visão de nós, que puxa vida! … como se a gente fosse um bando de ignorantes. Atacam as Sagradas Escrituras… simplesmente não dá para engolir. Acho que vocês estão a serviço do anticristo.

Na medida em que é possível, tentei me reorganizar depois de João ter dito que eu estava a serviço do anticristo.

– Na academia existe muito preconceito, é verdade. Este ano mesmo vai ter um congresso grande lá, e os organizadores se recusaram em colocar a religião em debate, mesmo se tratando de um congresso sobre intervenção social. Mas, João, fique sabendo que é bem mais fácil falar da religião na Universidade do que falar da Ciência nas igrejas. Não sei não, quem é que está a serviço do anticristo (acho que peguei um pouco pesado aqui, mas já tinha escapado).

– Olha, a gente tem a Palavra de Deus ao nosso lado, e você (!) vai querer dizer que o que a gente sabe é inferior ao que a ciência sabe! Nem vem!

– Não, de modo algum! Nem inferior, nem superior: é diferente. O que a religião sabe são as coisas profundas que só se pode ter acesso pela revelação. No entanto, essas coisas não se referem a detalhes. Por exemplo, você vai comprar uma moto desta ou daquela marca? Você vai se tratar com esse ou aquele remédio? Você vai se casar com quem? Vai votar em quem? Tudo isso não é dado pela revelação, mas pela razão. Tudo que a revelação faz é oferecer parâmetros para sua decisão.

– Não Sr., Deus me revela tudo.

– Sem essa João! Você sabe que isso não é verdade. Se fosse assim você não errava nunca em suas decisões.

– Mas tem a Bíblia.

– Sim, mas ela não se aplica a detalhes. Uma leitura literal ou fundamentalista da Bíblia é uma escravidão terrível.

– Bom, eu não vou discutir isso novamente com o Sr. Mas o problema é que a ciência tenta se colocar acima da religião.

– Quando ela faz isso, é uma tolice. Uma ciência que queira ser religião é tão estúpida como uma religião que queira ser ciência. A primeira se perdeu, e a segunda virou uma coisinha à toa. Imagine se a ciência tiver que se submeter aos preceitos religiosos A ou B, ou a determinações do Estado, ou se curvar diante da visão tradicional das coisas… ela não vai sair do lugar. A ciência precisa de autonomia para funcionar.

– Aha! Gritou João, o mesmo eu digo com relação à igreja. Por que a gente vai ter que se submeter à visão científica sobre as coisas, como por exemplo, a origem do mundo, etc. Se não tivermos nossa autonomia, também não vamos servir pra nada.

– Nisso nós estamos totalmente de acordo. A questão não é autonomia dos discursos, mas a incompetência para o diálogo entre os diferentes. E não é só entre a Ciência e a Religião. Pense nos entraves com a arte, como a política, com a sabedoria popular…

– Não sei – respondeu João, sempre do seu jeito questionador (pelo menos para comigo) – o Sr. disse que foi compartilhar sua pesquisa em Felipe Camarão com os líderes evangélicos. Eles não ouviram? Eles não agiram? Eu conheço até pastor que faz pesquisa na vizinhança de sua igreja para conhecer melhor a população. Isso não é ciência?

– Um pouco. Eu sei que a religião escuta a ciência. Foram os missionários os primeiros cientistas das culturas. Sei que muitas igrejas contratam sociólogos para pesquisar seu campo de ação. A teologia se alimenta muito da ciência também. O problema que eu vejo é que isso é feito por debaixo dos panos. As igrejas não assumem publicamente sua busca pelo saber científico.

– É! A ciência muitas vezes prova as Escrituras.

– Não é nada disso, João. As escrituras, se precisassem da ciência para confirmar sua verdade, não passariam de conversa fiada de uma criança querendo mostrar que sabe tudo. Se o coleguinha duvida, corre para os braços da mamãe ciência pedindo que ela confirme suas histórias. A religião não precisa disso.

– Tá certo, tá certo… a religião recorre à ciência para entender melhor as pessoas e o mundo em que ela trabalha. Mas quando é que os cientistas chamam o povo das igrejas para escutar o que ele pensa? Olhar pra gente não como se fôssemos ratinhos de laboratório para dizer isso ou aquilo e eles ficarem anotando, e dizendo “hum hum; hum hum”! Pare com isso!

– Você tem razão, mas isso tem mudado. Hoje em dia tem filósofos que estão ouvindo o que a religião tem a dizer não como curiosidade histórica, social ou antropológica, mas como forma de estruturar a sociedade. Tem, por exemplo, um filósofo italiano, chamado Agamben que foi fundo na tradição cristã para entender o mundo contemporâneo, especialmente na política. Tem um outro chamado Vattimo que faz algo semelhante. Isso para mim é diálogo. Tá só começando, é verdade, mas acho que vai dar muito fruto.

– Tudo bem, eu não conheço esses filósofos e cientistas, mas já que estamos conversando, eu queria aproveitar para perguntar: que mania é essa que os cientistas tem de TENTAR classificar a gente?

– Como assim?

– Esse negócio de dizer: “sua igreja é do tipo tal, a sua do tipo tal…” que coisa chata é essa, hein!?

Essa reclamação que o João fez abriu toda uma conversa que não dá para expor neste artigo. Quem sabe ela tenha sido suficientemente interessante, pois eu já estava meio cansado, para transformar num próximo artigo.

 

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