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Cientistas debatem implicações da pandemia e das neurociências no Dia Mundial do Cérebro

Entidades médicas e cientistas de diferentes países celebram nesta quarta-feira, 22, o Dia Mundial do Cérebro. A data reporta à fundação da Federação Mundial de Neurologia, criada em 1957. Para o neurocientista Claudio Queiroz, chefe do Laboratório de Redes Neurais e Epilepsia, do Instituto do Cérebro (ICe) da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), esse dia, como muitos outros do tipo, a exemplo da Semana do Cérebro, por exemplo, tem por objetivo lembrar a importância de aumentarmos nosso conhecimento sobre o cérebro. Ele também acredita que a data ajuda a esclarecer, junto ao público, as causas e tratamentos de distúrbios neurológicos e psiquiátricos, visando diminuir o estigma associado a doenças do sistema nervoso, como as epilepsias e esquizofrenia, bem como pautar melhorias terapêuticas e mais acesso a tratamentos e diagnósticos de qualidade.

Essas são algumas das preocupações observadas pelo ICe que, desde 2011, colocou o Rio Grande do Norte no mapa mundial dos estudos em neurociências. O neurocientista Eduardo Sequerra, chefe do Laboratório de Desenvolvimento Neural e Ambiente do ICe explica que neste período de pandemia os neurocientistas estão atentos às várias implicações que o mundo atravessa, desde a qualidade do sono, a depressão, o aprendizado diante das aulas virtuais e até se a covid-19 chega ao cérebro.

Outra grande preocupação é com a saúde mental das pessoas e seus comportamentos diante do medo e da incerteza do futuro. Atenta ao momento atual, a psiquiatra e neurocientista Natália Mota, pesquisadora no pós-dourado do ICe, vem desenvolvendo uma pesquisa em que analisa relatos de sonhos de voluntários para investigar como o momento afeta as pessoas. Os resultados sugerem que quanto maior o sofrimento, mais o cidadão traz relatos oníricos de ideias de limpeza.

Segundo Natália, com a necessidade de isolamento social, a tensão, a mudança na qualidade de vida e a paralisação da economia, além do risco financeiro para os vários setores, haverá sim importante impacto na saúde mental, no sono e nos sonhos das pessoas. Isso pode ser agravado com a falta de planejamento sanitário por parte do governo e a escassez de soluções em áreas como a educação, por exemplo.

“Qualquer dessas vulnerabilidades mantém o sistema de alerta ativo. Esse sistema de alerta e produção de hormônios e proteínas relacionadas à manutenção desse estado de alerta, gera uma modificação do próprio aparato mental relacionado a isso, fazendo com que toda a rede neural fique por muito tempo acionada, mantendo a vigilância e a tenacidade elevada para as situações de risco. Tudo isso tem um impacto na qualidade do sono”, conta a médica, embora explique que cada um experimenta desafios particulares em relação a tudo que está acontecendo.

Neurocientista Natália Mota tem se debruçado sobre pesquisa envolvendo sonhos na pandemia (foto: José Paiva Rebouças)

No campo da pesquisa científica, Natália observa ser importante ter consciência que esse momento é particular e peculiarmente ilustrativo de como é possível entender um pouco mais sobre as reações ao estresse, como lidar com desafios, com a resiliência e a tomada de decisões que possam orientar e iluminar as pessoas diante desses desafios coletivos, mas também individuais:

“Vejo várias oportunidades de pesquisa. No nosso laboratório, temos realizado e colaborado com pesquisas que quantificam várias situações que ocorrem e são espelhadas na atividade onírica. Percebemos existir uma modificação no padrão do sono, mas estamos interessados nas modificações no conteúdo dos sonhos”, explica Natalia que integra o grupo de pesquisadores do laboratório Sono, Sonho e Memória, coordenado pelo neurocientista Sidarta Ribeiro, vice-diretor do ICe.

A máquina dos sonhos

De acordo com a pesquisadora, há bastante evidência e teorias que embasam a função onírica como atividade fisiológica que o humano desenvolveu ao longo da sua evolução, no sentido de preparar o sonhador para os desafios subsequentes. É como se fosse um treino de realidade virtual que se pode experimentar em um ambiente seguro, no caso a própria mente, de maneira a resolver desafios que são extremamente personalizados porque são colocados a partir de um banco de memórias personificadas.

Mas Natália alerta que não é qualquer desafio que aciona esse oráculo probabilístico. Para isso, é preciso um desafio que tenha um impacto importante, principalmente nas emoções.

“O que estamos vivendo coletivamente é um mesmo desafio para várias pessoas ao mesmo tempo. Desafio de sobreviver em um mundo capitalista, extremamente individualista, desafio que requerem uma resposta do coletivo. Como a gente consegue pensar enquanto sociedade para superar essa crise sanitária e financeira, como se organizar como comunidade e sociedade para que as pessoas em vulnerabilidade não sofram tanto e que isso não venha a impactar sobremaneira a vida de toda a parcela da população em cadeia? ”, questiona.

Em sua visão, esses são pensamentos muito mais complexos do que normalmente estamos acostumados a experimentar e vários setores da sociedade não conseguem perceber isso porque não tiveram a educação política e econômica suficientes para entender que, sem pensar coletivamente, não é possível encontrar soluções que sejam realmente efetivas. “E esse é o nosso desafio”, aponta. Para ela, é preciso tentar compreender coletivamente um futuro que seja benéfico para cada um, não individualmente, mas que seja um investimento para uma sociedade mais saudável e madura.

“Vejo uma oportunidade muito bonita não só para a pesquisa, mas uma oportunidade social viável para a construção de um novo futuro possível, mais consciente do papel de cada um e mais responsável sanitária e economicamente com toda as parcelas da sociedade”, finalizou.

O avanço das neurociências na UFRN

Neurocientista Eduardo Sequerra destaca popularização da neurociência após o boom da década do cérebro (foto: Divulgação)

Inaugurado em 2011, o Instituto do Cérebro da UFRN reúne um seleto grupo de pesquisadores responsáveis pela manutenção de quatro grandes linhas de pesquisas, ancoradas pelo Programa de Pós-Graduação em Neurociências (PGNeuro) que oferece formação em níveis de mestrado, doutorado e pós-doutorado. Seus 18 laboratórios foram responsáveis, só em 2020, pela publicação de 19 artigos em diversos periódicos da área. São 153 desde 2011 e seis capítulos de livro.

Eduardo Sequerra reforça que as neurociências estão mais fortes do que nunca.

“Tivemos a década do cérebro, nos anos 1990, com o boom tecnológico nos estudos do cérebro, mas depois desse período, as neurociências entraram em um platô e se mantiveram como uma das principais ciências, povoando as principais revistas”, relata.

O mais importante, segundo ele, é que as neurociências caíram na curiosidade popular e hoje todo mundo fala em sinapse, memória, aprendizado e da base de doenças como Alzheimer e Parkinson. Além do mais, o próprio ICe está conseguindo cada vez mais ultrapassar os muros da universidade para levar atividades para as escolas e à população.

 

 

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